Resumo
da Obra: LAWN, Chris. Compreender
Gadamer. Vozes, Petropólis,2007. (Sérgio da Rita Lino).
Prefácio.
Gadamer tem como intenção fazer sentido do Entendimento
humano como fenómeno filosófico, histórico e cultural. Qual será
a sua ideia central? – Todo o entendimento é diálogo. E quando
isso se compreende? – Quando se faz conviver em harmonia as ideias
filosóficas, literárias e científicas. (8)
INTRODUCAO
- GAMADER EM POUCAS PALAVRAS.
O pensamento de Gadamer nasce como crítica do discurso
optimista da modernidade, que viceja de Descartes que considerava o método
como um caminho para a verdade. Assim, Gadamer começa seu discurso fazendo
uma reavaliação da ideia da TRADICAO (que o pensamento iluminista havia
intentado se apartar) (11)
Gadamer defende a não questionabilidade da Tradição
racionalmente, por isso considera de fictícia a ideia de que podemos nos
desviar dos nossos pontos de referência para atingir a verdade. Outra coisa que
Gadamer reavalia é a ideia do PRECONCEITO, que o iluminismo pensou ser uma
forma distorcida de pensamento a eliminar antes de ver correctamente o mundo. E
como defende Gadamer? – Os preconceitos estão presentes em todos os entendimentos.
Porque? – Nós estamos inextricavelmente mergulhados na linguagem e na
cultura. Os preconceitos são condições de entendimentos do que
procuramos tornar compreensível.
Assim, o ENTENDIMENTO é mesmo hermenêutico.
Historicamente, a hermenêutica era “a arte de ler correctamente e
interpretar de forma exacta os textos antigos” (como as bíblicas). E em
Gadamer? – A hermenêutica se transformou num procedimento mais
abrangente do entendimento em si, que ele chama de hermenêutica filosófica,
que se caracteriza em termos de círculo hermenêutico. E CIRCULO HERMENÊUTICO
quer dizer: “dar sentido ao um fragmento do texto é sincronicamente,
interpretar o todo”. (12)
Gadamer encontra sua autoridade em Heiddeger, quem
mostra como a interpretação do mundo é possível sem um pré-entendimento. Assim,
o Entendimento é resolvido através do nosso ser no mundo. Porem, este
entendimento, na óptica de Gadamer é orientado por aquilo que se chama de FUSAO
DE HORIZONTES: a interpretação se situa dentro do horizonte mútuo do interprete
e da coisa a interpretar.
O pensamento moderno de que o Entendimento depende de um
distanciamento da TRADICAO, efectuado pelo método racional, perde importância
quando visto pela perspectiva hermenêutica. E o que será a VERDADE para
Gadamer? – Simplesmente o que acontece no diálogo (e não método). Actos
de interpretação são dialógicos, isto é, uma conversação constante dentro da
tradição. Gadamer alega que os significados nunca podem ser completos.
De que se preocupa na verdade Gadamer? – Com as concepções herdadas do mundo sobre a Verdade e
Razão, isto é, com o restabelecimento e revisão das hermenêuticas antigas.
Gadamer e a filosofia analítica.
É necessário atentar para o facto do não reconhecimento
de Gadamer por aqueles que trabalham a tradição anglófona. O que terá precipitado
isso? – (i) ele não se enquadrava no perfil de um estereótipo filósofo
anglo-saxão; (ii) sua concepção de filosofia era excepcionalmente ampla, que
ultrapassava o género preferido pelos seus colegas ingleses e americanos (ele
responde questões sobre as bases das ciências humanas e sua posição em relação
as ciências naturais); (iii) fraca circulação da expressão “Hermenêutica
filosófica” nos países da língua inglesa e (iv) pelo seu Historicismo: todo
o entendimento é histórico, ou seja, pelo seu apego as tradições (15-23).
Segundo Lawn, a partir do séc. 18, com o pensamento
científico, a cultura literária e a autoridade dos textos clássicos e
canónicos, a arte, a literatura adoptaram uma posição subordinada. A
expressão desta autoridade está em DESCARTES, onde fala da nova linguagem
revolucionária da modernidade científica, da sua descrença autobiográfica da
literatura e dos clássicos. Ele vê o mundo das letras como baseado em um mundo não
auto-evidente, da especulação antiga e de opinião questionável. E o que
faz contra isso? – Descreve o homem como uma máquina pensante capaz
de alcançar o tipo de certeza a ser encontrada na geometria.
Consequência desta ideia de Descartes e da modernidade, é
da separação entre a CULTURA LITERÁRIA e a CULTURA CIENTÍFICA. Aqui
nasce o fundo de exposição de trabalho de Gadamer. Como? – Gadamer
aceita a existência de uma única cultura ou tradição, encorajando a
busca de um idioma comum para entendimento das partes discrepantes.
Assim, a Hermenêutica afirma a possibilidade de diálogo entre as culturas
nacionais hostis. O entendimento transcultural e o diálogo estão sempre
direccionados, mesmo que nunca perfeitamente obtidos. O DIALOGO pressupõe olhar
para as coisas que compartilhamos em comum e que nos une como espécie,
sem sempre fazer concessões à noção abstracta de uma humanidade comum (18).
Outro choque entre a filosofia ANALÍTICA e a CONTINENTAL.
A *filosofia analítica considera o exame da linguagem como meio
de obter a verdade. Vê nos meios linguísticos (em nossa disposição para
falar do mundo) a possibilidade de uma resposta ou réplica exacta de um mundo.
A *Filosofia Continental: a linguagem é fundamentalmente expressiva,
expressando e constituindo o mundo social humano bem antes de ser capaz de
descrever e representa-lo. Gadamer parecer fazer parte desta (19)
Mas o trabalho de Gadamer configura-se como uma ponte
entre as duas tradições (analítica e continental) (20). E qual seria a maior
contribuição de Gadamer? – Afirmar a Hermenêutica como um elemento no
processo, acto ou evento de entendimento em si. Quer dizer, ela envolve
mais que uma investigação filosófica das origens históricas e significativas
das palavras, por mais que a Hermenêutica começa sua vida como procedimento
ou técnica de interpretação dos textos sagrados.
Gadamer defende que as Hermenêuticas vão além
dos limites da interpretação textual. Ele defende mesmo HERMENEUTICAS
UNIVERSAIS: aquilo que acontece quanto interpretamos um texto é aquilo que
acontece quando procuramos entender qualquer coisa em nosso mundo social.
Quer dizer: leitura é interpretação, olhar é interpretação, pensar é
interpretação (21-20). Gadamer se preocupa com o entendimento do que mais
limitado e mais técnico conhecimento.
Gadamer vê na “apropriação e negociação diária do
mundo”, o entendimento hermenêutico em funcionamento. Ele mata a
distinção tradição literária e científica, ao defender o Entendimento como
maior que a literária e a científica, por serem ambos formas de entendimento
humano. Porém vê o entendimento como histórico (daí o historicismo seu),
e assim nega que se olhe o passado como um “pais estrangeiro”, pois o presente
e o futuro estão a ele ligados. Por isso defende o diálogo entre o
passado e o presente. E a própria VERDADE é vista como Histórica.
Capitulo
2: O PROBLEMA DO METODO.
Discute-se aqui o papel do método na filosofia
moderna. A procura de um método incontestável, e suas influências no
desenvolvimento da filosofia moderna, são de importância para o surgimento de
Gadamer (25).
2.1. Método e modernidade.
Gadamer entende que o surgimento do METODO como
característica da filosofia moderna e depois faz uma reivindicação sobre a
natureza do método em si. Ele intenta: recuperar e resgatar as ideias
reprimidas e olvidadas pelo Iluminismo. Para ele, a fixação moderna do
método ofusca formas alternativas de abordar a verdade (47-8).
2.2. Descartes e a busca pelo método.
Em 1637, com o “Discursos sobre o método”,
Descartes, converteu as verdades das filosofias medievais e estabelece a
agenda para um novo paradigma de conhecimento e verdade. Descartes desenha um
método para obter a CERTEZA. E onde está a importância de Descartes? – Questionamento
da legitimidade dos textos, cuja autoridade encontrava seu baluarte no
apelo de uma auto-avaliação do poder da tradição. Grosso modo, Descartes
funda o método científico ao pensamento filosófico.
Descartes critica as formas de conhecimento do passado
devido as suas reivindicações duvidosas de legitimidade. Qual é o
problema real da sabedoria clássica da Antiguidade, na óptica do novo espírito
científico (fundada no cogito)? - É que sua autoridade pode estar
fundamentada em preconceito, superstição, opinião, nas fantasias do costume
histórico e nos julgamentos mal formulados daqueles que tem o insight e os
princípios de questionamento científico. E assim, o argumento cogito
(penso, logo existo) é visto, ao mesmo tempo, (i) como justificativa
da verdade, (ii) como quem diz algo sobre a natureza do “eu” e das
formas de conhecimento abertas a ele; e (iii) provador de que a verdade
é atributo interno de conhecimento individual (48-50)
Descartes defendia a RAZAO como teste indicador das
crenças e actividades social e nacionalmente aceitas. Dai que sua obra liga-se
ao Iluminismo, que defende qualquer que seja prática legal, moral ou
política, que não se sustente pela razão, como forca negra da reacção
(51). A chamada RACIONALIDADE CIENTIFICA da era moderna é resultante da imiscuição
do método e da razão: A modernidade confia no poder do método para
estabelecer verdades auto-certificadas. E assim, as maneiras tradicionais
de fazer as coisas são anátemas a era da racionalidade científica (52).
2.3. Gadamer e o método.
O que Gadamer faz, é questionar a condição do método
e problematizar a super-dependência da Modernidade sobre a qual. Ele procura
questionar a auto-segurança da era moderna e trabalha para reintegrar os
aspectos perdidos com a adopção das crenças e doutrinas do iluminismo como
a Harmonia, o senso do mundo e a tradição.
Gadamer intenta uma reconciliação deste novo
método para a fundamentação do conhecimento com a Tradição (como uma
forca mais fundamental), pois através da qual toda a actividade cultural é
apresentada e sustentada (53). Gadamer nega a razão como crivo da
tradição: a razão não pode investigar o status e as credências da
tradição, pois o que definimos como racional esta imergido dentro da tradição,
encontrando lá sua definição. Assim, a razão deve estar sempre dentro do
contexto cultural e histórico. Nega-se assim o sonho iluminista (razão como
ferramenta para investigar as credências da tradição).
Gadamer pensa, com razão, que a RAZÃO é aquilo que é
transmitido na tradição, longe de ser aquilo que se coloca fora da tradição
como teste imparcial. Ela é uma força vital inserida na cultura e por isso
nunca pode ser esquecida e reduzida a uma mixórdia de crenças não-racionais. Porque?
– As crenças e a racionalidade fazem parte de contextos maiores chamados
TRADICAO, que é sinónimo do mundo da vida (a linguagem). Não se escapa da
tradição porque estamos sempre nela. Ela é um aspecto da vida social
“vedado” a investigação racional (54-55).
2.4. O restabelecimento da tradição, autoridade e
preconceito.
*AUTORIDADE.
As vezes nos perguntam: com que direito algumas coisas
existem, com que direito os reis governam, os servos servem e as palavras
significam aquilo que significam? Com a autorização de quem?
O iluminismo defende a autoridade dependia da sanção,
da aprovação da razão. E Gadamer? - Pensa que o “conceito da
autoridade poderia seria visto como diametralmente oposto à razão e liberdade”.
Assim, para ele a maioria da autoridade na sociedade não é subscrita pela
razão, mas sim pelo poder e domínio. Ele associa a AUTORIDADE
GENUÍNA com a habilidade de levantar as questões que fazer com que
certos tópicos pareçam cruciais, importantes e merecedores de consideração
(autoridade do professor). A autoridade vive nas questões apresentadas.
Para Gadamer, a questão da autoridade tem uma forte dimensão
filosófica. E para ele ainda, são as questões apresentadas pelos textos, as
mais importantes do que o protutor textual. Assere ele: “a autoridade é
investida em indivíduos, mas sua fonte é reconhecimento e conhecimento”. Quer
dizer: Ter autoridade é conhecer algo e o conhecimento é tradição
(55-57)
*PRECONCEITO:
Para Gadamer, o preconceito fundamental do Iluminismo é o
“preconceito contra o próprio conceito”. Assim, no Iluminismo, o
preconceito tem um sentido negativo, ao invés do positivo. Certamente a
ideia chave aqui é: “Não se faz julgamento com uma razão neutra, mas a
partir de preconceitos, pré-julgamentos, isto é, de todos envolvimentos
pré-reflectidos com o mundo que está por trás dos julgamentos”. Para
Gadamer, deve-se saber o que esta atrás da razão e o que a torna
possível, além de a tratar como fundamental, o que faz o iluminismo.
Na verdade, a tradição hermenêutica rejeita a ideia de
que um mundo unitário dá acesso a um tipo de conhecimento. E as hermenêuticas
revelam que todo ENTENDIMENTO HUMANO é basicamente interpretação (57-8)
*TRADICAO:
Gadamer defende fervorosamente que nós “sempre somos
parte daquilo que buscamos entender [tradição] ”. Assim, acusa a ciência de
ter uma tendência para “esquecer que o investigador ou pesquisador são parte
daquilo que estamos investigando”. E qual seria o sonho real da ciência?
– Abolir a especificidade do sujeito (subjectividade) e a generalidade
da cultura do investigador, e centrar na suposta universalidade comum a todos
os sujeitos. Supõe-se que a razão dá acesso àquela universalidade que
transcende a particularidade do tempo e espaço. Mas Gadamer diz: os sujeitos e
os objectos são indivisíveis.
E quais serão as consequências de um Mito do dado? – A linguagem é considerada como médium silencioso
através do qual os pensamentos viajam. E assim, o pensamento precede a
linguagem. E para Gadamer? - Não se pode colocar o pensamento
antes da fala. Porque? – Resulta em todo o tipo de bloqueios e
problemas. A linguagem não é simples meio de comunicação, mas é uma forma
de expressão; ela expressa a forma da vida.
Gadamer conclui que, a verdade como produto do método
infalível, ignora as verdades da experiencia contidas dentro de uma tradição
cultural comum. Ele quer que a Verdade não seja metodizada, pois ela
não é algo que alcançamos e obtemos. EM SÍNTESE: Gadamer questiona as fundações
do Iluminismo, rejeitando sua dependência numa concepção de método obtida dos
procedimentos da ciência natural. Mas porque? – Obscurece elementos
da sabedoria e entendimento sobre o mundo.
Grosso modo, para
Gadamer, as noções de autoridade, preconceito e tradição devem ser vistas como “próprios
veículos da razão e libertação” e não obstáculos e embaraços para a
libertação da razão. Sua posição é simplesmente um resgate de uma forma de
entendimento do pensamento diário e da experiencia que ficou marginalizado.
Para ele, a Hermenêutica descreve melhor o nosso relacionamento com o mundo,
mas por causa de uma névoa do pensamento modernista, onde tudo é definido
dentro dos limites do método, somos incapazes de perceber alternativas (59-63).
*A hermenêutica é vista como a forma primordial do
ENTENDIMENTO: nós somos seres hermenêuticos dentro da tradição.
Capitulo 3: DAS HERMENEUTICAS ÀS HERMENEUTICAS
FILOSOFICAS.
Busca-se: (i) acompanhar a história da Hermenêutica e
(ii) o relato de Gadamer das Hermenêuticas livres dos métodos.
3.1. O que são Hermenêuticas?
GADAMER se volta para as Hermenêuticas como prática de
interpretação textual para formular as chamadas hermenêuticas filosóficas,
para *contestar a hegemonia da modernidade filosófica, ancorada
nos métodos. E porque se volta para as Hermenêuticas? - Porque vê nelas uma
forma de conhecimento reprimido e entendimento contido pelos procedimentos da
modernidade
A hermenêutica defendida por Gadamer é UNIVERSAL:
todos os aspectos do entendimento humano pressupõem uma dimensão hermenêutica
(65). A maior intenção de Gadamer é de fazer com que a Dimensão hermenêutica
da verdade fale mais alto. Ele entende que as hermenêuticas foram vítimas e
não resistiram as ciladas da modernidade, quando foram colocadas em competição
directa com a ciência, na qual estavam fadadas de perder. E como sair disto?
– Seguindo as “hermenêuticas da facticidade” de Heidegger.
3.2. Hermenêuticas românticas.
A palavra Hermenêutica tem as suas raízes no termo grego
“hermeneuein”, que é interpretar. Este termo está associado ao Hermes,
o mensageiro dos Deuses, interprete dos desejos dos deities, fazendo com
que os seus desejos fossem conhecidos pelos meros mortais. Porem, a TEOLOGIA
PROTESTANTE (séc. 19) vê na hermenêutica, uma arte de interpretação com seus
próprios procedimentos e técnicas. E algumas estratégias hermenêuticas
nasceram quando o texto bíblico parecia opaco e resistia às traduções e
explicações fáceis. E qual seria a regra? - O entendimento.
DANNHAUSER, SPINOSA, AST e WORF, estabeleceram regras
para a interpretação correcta dos textos bíblicos, legais e clássicos. Porem,
o trabalho que mais impacto teve nas hermenêuticas românticas foi do filósofo e
teólogo alemão SCHLEIRMARCHER.
Schleirmarcher começa por rejeitar a “primazia” do
princípio do entendimento sobre o do não-entendimento. Ele
defende que “o não entendimento ou entendimento incorrecto” é algo que
nos é concomitante em textos, mesmo nos facílimos. Schleimarcher desenha projecto
de uma HERMENEUTICA GERAL: “não são somente os textos que demandam a
interpretação; todos os modelos de entendimento demandam interpretação”.
Tal hermenêutica se aplica a todas as formas de interpretação.
Ele faz estender o problema de entendimento aos falantes
de línguas nativas, sempre que almejam fazer sentido do passado e
do presente de sua própria língua. Schleirmarcher toma o CIRCULO
HERMENEUTICO como o problema no âmago da interpretação. Ele pressupõe: entender
a unidade do todo a partir das partes individuais e o valor das partes individuais
a partir do todo. Quer dizer: “o todo deve ser entendido em relação as
suas partes, e as partes ao todo”. O que isto remete no texto? – A
ideia de que os significados das palavras em um texto devem ser tomados como
uma unidade de significados, estando constantemente no processo de
modificação em relação ao significado total latente no texto.
Schleiermarcher pretendia dizer que o significado textual
é mais bem-entendido como uma transacção dinâmica entre as partes e o
todo. Para ele, “é impossível conhecer a leitura de uma passagem em um texto
sem saber – de maneira aproximada – o texto como um todo; e não podemos
conhecer o texto como todo sem conhecermos determinadas passagens”.
Conhecer o significado do todo requer conhecer o significado das partes
individuais.
Schleiermarcher alarga o campo da interpretação,
para além dos significados semânticos do texto, até aos significados
culturais amplos e históricos, que auferem contexto ao texto. Assim, o
significado é relativo ao CONTEXTO. Voltando ao Circulo Hermenêutico, há que
questionar: como se libertar do circulo vicioso dele? – Entender os
significados como constantemente redefinidos em relação ao contexto
mutável.
É certo que, o círculo hermenêutico produz um espaço, uma
lacuna entre o significado da palavra, a intenção do autor e o significado
do autor. Isto impele Schleiermarcher a estabelecer uma destrinça entre dois
tipos de Interpretações:
*Linguística ou gramatical: está no nível do significado
sintáctico, isto é, regras da gramática. Tem a ver com a dedução da evidência
de acordo com o uso de determinados tipos de palavras em relação as regras que
as governam. Olha mais o que é compartilhado em linguagem.
* Psicológica: visa a busca da intenção do autor (o
que o levou a escrever), isto é, o que distinto em um autor.
Grosso modo, a interpretação
gramatical ou linguística é obtida através da compreensão dos significados
comuns em uso e, a interpretação psicológica se refere as nuanças não
capturadas pela interpretação gramatical. E quais as críticas de Gadamer a
Schleiermarcher? Gadamer começa por elogia-lo por operar a mudança para uma
hermenêutica generalizada, visto como momento primacial para a história
da Hermenêutica.
Gadamer faz uma análise da divisão da interpretação
operada por Schleiermarcher e constata que, enquanto a tal interpretação
gramatical se limita aos significados linguísticos estabelecidos, a
interpretação psicológica permanece no nível da individualidade. Daí que
Gadamer começa por rejeitar a interpretação psicológica, pois tem como
consequência: uma maior enfâse na subjectividade do autor, isto é,
subordinar o texto e seu significado à psicologia do autor. E porque Gadamer
rejeita isso? – Ele pensa que a divinação e a atenção psicológica se
transformam numa fórmula ou método. E consequência disto? –
Negligencia-se o papel produtivo do autor.
Para Gadamer, o entendimento hermenêutico é mais
dialógico e interactivo, dependendo de uma versão colectiva de
entendimento, e não um que se centre somente no intérprete. Gadamer aponta
ainda como erro dos estudos de Schleiermarcher, fazer com que haja uma ausência
de DIALOGO interactivo entre o texto e o intérprete, o todo e as partes, o
passado e o presente. Acusa-o ainda de focar ainda na dimensão expressiva da
linguagem (o poder do artista expressar sua opinião) sem olhar para
poder da linguagem em si que revela a verdade. E esta para Gadamer, está
poder de esclarecer os primaciais “assuntos em questão”. A principal crítica
Gadameriana que tece-mo gravita em torno da distinção entre as formas
gramaticais e psicológicas da interpretação, dando mais enfâse a esta
última (66-74)
2.3. Hermenêuticas de DILTHEY.
Atentemos para o facto de que, os trabalhos de Dilthey e
Heiddegger são decisivos na libertação das hermenêuticas do ónus
metodológico. E o que Dilthey traz? – Começa por dividir o
conhecimento em duas áreas: (i) ciências naturais e (ii) ciências
humanas. As *CIENCIAS NATURAIS: tem a ver com a ciência pura da causa e
efeito e as *CIENCIAS HUMANAS: todas as ramificações do conhecimento,
preocupadas com o entendimento da prática da vida humana (economia,
história e filosofia…). E o que lhes distingue? – Seu objecto. As
ciências naturais têm a ver com explicações, e as ciências humanas têm a
ver com o Entendimento.
Porém, o problema está nas ciências humanas e esta se
expressa porque qualquer estudo da vida humana é que sempre nós estamos
imersos no que procuramos entender. Assim, tentativas filosóficas de fazer
sentido do homem e do mundo a partir de um ponto de vista teórico e racional
são criticadas. Porque? – A reflexão filosófica ignora o pensamento
pré-filosófico do mundo da vida e com isto, violência aos nossos relacionamentos
diários no mundo. Os estudos filosóficos da vida são tidos assim como uma distorção,
estando dependendo de formas de pensamento não relacionados com o carácter real
dos relacionamentos humanos no mundo.
Dilthey entende os estudos humanísticos como uma parte da
tentativa de entender o mundo num nível de experiencias vividas. Dilthey
assere que o entendimento hermenêutico (quer entendimento da vida no mundo)
está inextricavelmente conectado ao PASSADO. E são as categorias da vida que
evidenciam que as interpretações no presente estão conectadas à sua história no
passado. E qual será a maior contribuição de Dilthey? – Afirmar que *todo
entendimento possui uma dimensão necessariamente histórica. E seu fracasso?
– Não conseguir se libertar das restrições da busca pelo método, isto é,
continuar acreditar na aquisição de conhecimento objectivamente válido (74-6).
2.4. Hermenêutica da facticidade de Heidegger.
O que fez Heidegger com “Ser e Tempo”? – Faz análises da existência humana (O Daisen), que
dependem de um redireccionamento radical do círculo hermenêutico. E o
indício real para a compreensão deste [circulo hermenêutico] é a plêiade de
interpretações que fazem com que sejam possíveis outras interpretações. Foi
ele quem genuinamente revelou a HISTORICIDADE DO ENTENDIMENTO e libertou as
hermenêuticas de sua conexão na busca por um método paralelo às ciências
naturais.
E o ponto básico de Heidegger? – Afirmar que antes podermos interpretar correctamente o
mundo, precisamos de estar cientes de que certas coisas não podem, por si
só, serem interpretadas subjectivamente como são aquelas coisas das quais
as interpretações defendem (pré-posse, pré- visão e preconcepção).
Heidegger tenta mostrar que as condições que possibilitam o pensamento são
estabelecidas antes de nos mergulharmos em actos de introspecção (e não
autogeradas como pensava Descartes).
Heidegger defende a existência de algum senso, algum juízo
no mundo antes de começarmos a fazer julgamentos sobre ele. Na verdade, nos
já estamos envolvidos no mundo bem antes de se nos apartar do mundo
teoricamente para procura-lo entender filosoficamente. Nós começamos com
envolvimentos práticos no mundo, actividades e formas de socialização. Heidegger
expõe a estrutura da hermenêutica no âmago da existência.
O daisen se posiciona assim no mundo de sua própria
criação, através de um entendimento deste mundo. Mas entendimento
diário não é reflexivo, mas é com ele que estabelecemos um
relacionamento com o mundo e, involuntariamente, adoptamos um modo de ser
hermenêutico. E porque hermenêutico? – Porque o Daisen, através de
seus envolvimentos práticos no mundo já culturalmente interpretado, está se
projectando constantemente para o futuro. Não se pode entender a existência
humana como presa nos pré-entendimentos, pois elas são a condição na qual
buscamos entender o mundo de modo explícita e autoconsciente. Para Heidegger, nós
estamos sempre interpretando o mundo, mesmo antes de tentar algum tipo de
entendimento filosófico dele: “o pré-afirmativo aparece antes de
reflectirmos sobre ele”.
Heidegger olha para o CIRCULO HERMENEUTICO como
projecção interpretativa do Daisen sobre o mundo na forma de projectos individuais,
das actividades e da pré-estrutura de fundo que informa os projectos e está em
constantes movimentos com eles. Na verdade, o movimento da teoria da
interpretação para a interpretação em si, é um movimento para a actividade prática.
Grosso modo, Heidegger afirma que *“existe um movimento hermenêutico
constante e sempre presente na estrutura do entendimento da vida diária”. Este
é o marca-passo para Gadamer!
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Nota:
Com Schleiermarcher, Dilthey e Heidegger: (i) as
hermenêuticas se transformaram numa forma de descrição da natureza do
entendimento humano diário (não apenas forma de leitura e entendimento
dos textos); (ii) o círculo hermenêutico se transformou numa maneira de
descrever a estrutura do entendimento humano e (iii) a experiencia, o
pensamento e linguagem são vistos como hermenêuticos.
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Capítulo
4: A VERDADE SEM MÉTODO.
4.1. Gadamer e a verdade.
Gadamer critica severamente a ideia moderna do método
e sua influência. E a leitura de Heidegger do círculo Hermenêutico oferece
marca-passo real para a contribuição de Gadamer ao pensamento moderno.
Gadamer começa por rejeitar a ideia ortodoxa da verdade como correspondência,
representação ou adequação. Assim, o entendimento heterodoxo da verdade está
no seu projecto geral.
A teoria Platónica foi responsável pela noção de que “a
verdade afirma uma correspondência exacta entre a percepção humana e a maneira
como o mundo é”. Gadamer rejeita que a verdade se confunda com teorias
filosóficas da verdade (vista como correspondência) e as suas aspirações a
objectividade. Gadamer pensa que isso tem como consequência “o encobrimento
das verdades fundamentais”. E ele aponta três (3) experiências básicas da
verdade – Arte, entendimento histórico e linguagem. Ele está cônscio de
que, as verdades reveladas de todos estes modos de entendimento, podem se
recuperar e restabelecer quando o entendimento mais fundamental da verdade for
hermeneuticamente exposto. Gadamer considera o ENTENDIMENTO HISTORICO como
uma experiencia da tradição.
4.2. A verdade como experiencia
Gadamer analisa varias formas nas quais a natureza da
experiencia pode ser concebidas. Ele aponta primeiro para o facto de que a verdade
não pode ser capturada no interior da estrutura teórica. Ela deve ser
participada ou encontrada: *é algo experimentado. GADAMER discute sobre
a experiencia, aponta para o sentido da experiencia como ERFAHRUNG (pura
experiencia) ao contrário da experiencia como ERLEBNIS (experiencia vivida)
como a mais importante, isto é, experiencia hermenêutica. Para ele, em
encontros hermenêuticos genuínos somos surpreendidos e insatisfeitos de maneira
única e irreverente (atrevido).
O que será a verdade? – É uma revelação, isto é, aquilo que se
manifesta no encontro entre o familiar e desconhecido. A experiencia
genuína é hermenêutica no sentido de que “o movimento insolúvel entre a
parte e o todo é uma característica chave da interpretação”. A experiencia
da verdade é hermenêutica até onde a parte modifica o todo. E a experiencia da
verdade encontrada no novo, o inesperado, está numa tensão com aquilo
que já foi entendido. E quando a verdade adopta uma dimensão hermenêutica?
– No desejo de assimilar ou entender a verdade, de acordo com o que foi
experienciado.
Para GADAMER, o texto escrito não muda, mas o que
muda são as suas possibilidades (de questionamento ou entendimento),
pois elas são infinitas. Gadamer entende a Verdade como experiencia.
E a experiencia é tida como aquilo que ensina algo e também as suas
próprias limitações (e não faz seu detentor ficar mais sábio). Assim
Gadamer acusa a versão ILUMINISTA da experiencia como um “acúmulo de
conhecimento”, como optimista e arrogante sobre as infinitas
possibilidades do conhecimento humano.
Gadamer entende que, o que podemos ter com a experiencia
não é o conhecimento, mais um insight na fabilidade das possibilidades
humanas e suas limitações essenciais. A experiencia é a experiencia da
FINITUDE humana. A experiencia e insight fazem parte da sabedoria
genuína (e isto perdeu-se na modernidade: esta se preocupou com a
experiencia como acúmulo do conhecimento). A modernidade é acusada de olvidar
o lado negro da vida humana e a ideia de que a vida é curta e nunca se
compreende totalmente. Gadamer é ainda radical ao afirmar: “a dialéctica
da experiencia obtém a sua realização plena na exposição à experiencia que se
tornou possível através da experiencia (e não no conhecimento definitivo) ”
Gadamer, vê a experiencia como qualidade de uma pessoa
não dogmática, aberta para novas possibilidades. E a verdade é vista
como abertura a experiência (negando a ideia da modernidade da verdade
como acúmulo de experiencias sob controle do método). A experiencia é tida como
forma de entendimento; e este, principalmente como auto-entendimento de si para
si e como um fragmento da tradição hermeneuticamente relacionada à totalidade.
4.3. A verdade é histórica.
A hermenêutica contesta o ponto de vista dos ANALISTAS segundo
a qual a verdade é imutável, é a-histórico porque, segundo eles “qualquer
coisa que muda com a passagem de tempo não pode ser verdade, pois a verdade é
infinita e imutável”. Gadamer afirma que a verdade é histórica pois
“os preconceitos do individuo, mais que seus julgamentos, constituem a
realidade histórica do seu ser”
Gadamer nega a ideia de enfâse sobre o individuo em si,
visto como fonte de conhecimento e insigt, grassada pela modernidade. Segundo
ele: antes dos indivíduos procurarem entender a si mesmos como
subjectividades, precisam entender a si mesmos como identidades erguidas,
socialmente e culturalmente atribuídas. Isto não quer dizer que somo
fantoches da história? – Não. A sugestão de Gadamer é de, nós somos
controlados por preconceitos herdados da vida histórica. O senso do Eu
(revelado na busca pelo auto-entendimento) acontece sempre dentro do contexto
da realidade histórica. Os indivíduos são arraigados e imersos num ambiente
cultural especifico – a TRADIÇÃO. E esta para Gadamer, como o preconceito,
partes do nosso engajamento no mundo (89-91).
4.4. A FUSAO DOS HORIZONTES e os problemas do
entendimento do passado a partir do presente.
O termo HORIZONTE nas mãos de Gadamer funciona como a
ideia de Humbult de que “a linguagem oferece ao falante sincronicamente, (i)
meios de comunicação e (ii) uma visão global do mundo ou ponto de vista do
mundo”. O conceito Horizonte pressupõe uma visão ampla de quem está
precisando entender algo. Ter horizonte é ter uma perspectiva do mundo;
e esta perspectiva é uma parte adquirida da linguagem. E consequência disso?
O horizonte é linguístico: a linguagem oferece o horizonte como sendo
revelação e limite.
Gadamer explica a FUSÃO DE HORIZONTES, que nós somos incapazes
de sair da tradição. Ela é basicamente uma inspiração, e não pode
ser totalmente obtida e finalmente completa. Porem, apesar de nunca obter total
transparência do entendimento com o outro, a necessidade da interpretação é
constante e sempre presente.
Certamente o horizonte não é fixo: muda
constantemente e paulatinamente com o decorrer do tempo, por causa de um
processo de expansão. O entendimento é assim sempre uma Fusão de horizontes
(mutualidade de horizontes). Um horizonte pode ser colocado com outro
horizonte em vez de obliterar o outro, acontece um processo de fusão.
Entendimento não é a projecção por um sujeito de um significado num objecto
inerte e morto: o presente e o passado têm horizontes que podem ser juntados
produtivamente.
Falar de um texto antigo com um horizonte é falar de
uma visão mais global. A visão global do passado faz uma declaração,
através do texto, no presente. O texto antigo faz sua apresentação no seu
horizonte. Gadamer rejeita a deslocação da subjectividade pois “todo o
entendimento acontece a partir de um horizonte incrustado, sendo tal horizonte
necessário e interconectado, de forma geral, com o passado”. E diz ainda: Nossas
tentativas de auto-entendimento tem um elemento Futurista (projectamos sempre
um futuro desconhecido), e nossos entendimentos no presente estão sempre
relacionando e se fundindo com o passado.
4.5. Consciência histórica efectiva
Isto quer dizer: a linguagem através da qual
articulamos o presente ressoa os significados do passado, continuando operativa
no presente”. Gadamer defende que a posição do intérprete ou daquele que
procura entender não é fixa: o intérprete é, como parte da tradição,
efeito da interpretação prévia. O local da interpretação é, por si só,
efeito do passado sobre o presente.
Para Gadamer, nós somos cônscios da tradição e de seus
efeitos. Mas os preconceitos do individuo jamais podem ser colocados no
mesmo nível da consciência. Porque? – Os preconceitos são, por si só,
a condição da consciência. Assim para Gadamer, a consciência no acto da
leitura jamais está totalmente presente em si, mas fica ciente das mudanças
acontecendo (naquela consciência) à medida que o texto tem um efeito.
Gadamer procura eliminar a ideia ortodoxa de que a
“consciência é reflexão totalmente em controlo de si mesma”. Ele
concebe-a [consciência] como sendo activa e reactiva. Considera-se
ainda o leitor como parte do efeito histórico. Gadamer afirma existir um
diálogo constante na interpretação entre o passado e o presente e assim, não
existem significados externos a actual consciência. O SIGNIFICADO não passa
de um produto da união entre o imediato e o ponto de tradição a entender.
4.6. O diálogo.
Para GADAMER, o entendimento é sempre o diálogo (com
o passado ou com o outro); é dialógico por natureza. O carácter do diálogo
é sugerido na fusão de horizontes, porque quando os horizontes fazem
conexão eles se engajam em diálogo. O entendimento pressupõe acomodação
do Outro (que é fusão de horizontes).
Gadamer ilustra suas hermenêuticas do diálogo,
enfatizando dois aspectos da história da filosofia. O primeiro trata da
releitura radical do diálogo inicial de Sócrates. Vê-se Sócrates como
alguém que fala de si mesmo como parteira. Assim, Gadamer perfilha o
verdadeiro nascimento da verdade como o que acontece no diálogo genuíno.
Quem está engajado no diálogo deve facilitar o nascimento da verdade como uma
parteira. A verdade somente pode emergir do diálogo, essencialmente em
uma conversação com e dentro da tradição. A verdade é diálogo.
E um diálogo genuíno é caracterizado por sua falta de
inteireza (incompleto) e sua estrutura. E as conversações não são planejadas:
o fim das conversas, ninguém o sabe, pois não são regidas por regras e
convenções. A conversação genuína não é coisa que nos podemos conduzir, é
aleatória! O diálogo autêntico deve revelar alguma coisa sobre os seus
participantes. Ele é intrinsecamente falado (oposto ao pensamento escrito)
e acontece em público. No diálogo genuíno, os participantes mudam. Quando?
à medida que as suposições iniciais são desafiadas, modificadas,
apresentadas para o escrutínio no tribunal público de apelos, e no diálogo em
si. Em Gadamer, um diálogo profícuo é aquele que nos impele a ver as coisas
de maneira diferente e sob novas perspectivas (96-98).
4.7. A lógica da pergunta e da Resposta.
COLLINGWOOD, filosofo e historiador alemão é tido como o
criador do termo “lógica da pergunta e da resposta” e defende a tese segundo a
qual “todos os textos filosóficos são respostas tentativas às questões
formuladas nos textos anteriores”. Com isso, ele vai rejeitar que se
julguem os textos filosóficos recorrendo a chamada “lógica universalmente válida”
dos seus oponentes. Collingwood rejeita tal procedimento acusando-o de errar ao
negligenciar a natureza essencialmente histórica dos textos anteriores (por
ex: saber o que o autor pensava ao criar para si mesmo tais problemas; quais
os problemas que herdou dos seus predecessores…).
Para ele, a sua abordagem aos textos filosóficos produziria
relatos mais interessantes e historicamente correctos. Collingwood vai
entender que a interpretação do texto envolve o acto de engajar em um diálogo.
Ele alerta para a necessidade de estabelecer uma obra antiga (como a República)
em termos de questões que o autor procurou levantar em seu texto, o que
pressupõe uma enorme quantidade de recuperação do contexto histórico
envolvido na produção do Trabalho. O historiador da filosofia precisa ver
um autor antigo através do lente do seu tempo e não do nosso.
E Gadamer critica esta visão de Collingwood de impor
categorias exclusivamente contemporâneas a trabalhos antigos. Porque?
– Isto silencia, faz calar o texto, recusando um engajamento em diálogo.
Critica ainda sua lógica de pergunta e da resposta por não conseguir
reconhecer a HISTORICIDADE DO HISTORIADOR: não conseguir perceber
que o intérprete é também um efeito da tradição e da história, e por isso não
interpreta a partir de um ponto fixo.
Enquanto para Collingwood é sempre possível usar a
lógica da questão e da resposta para obter a fidelidade na recuperação e
revelação do significado original do texto, para GADAMER, o significado
do texto está mudando constantemente: a interpretação e reinterpretação
são incessantes. Gadamer diz: fazer sentido a um texto antigo é uma questão
de engajar em diálogo com ele. O horizonte do texto apresenta questões
ao intérprete e o intérprete define as questões em relação àquilo que foi
levantado no diálogo. Gadamer diz que a interpretação não deve se limitar
nas questões do que foi expresso no texto (99-102).
Capitulo
5: Gadamer sobre a linguagem e a linguisticidade.
Para Gadamer, experimentar lugar na história, dentro
da tradição é uma forma de encontrar uma verdade. A centralidade da
linguagem está no âmago das tradições filosóficas.
5.1. Filosofia e linguagem.
Gadamer pensa, com razão, que a suposição da cognição
(pensamento) como superior à linguagem que a expressava faz o pensamento
ofuscar a linguagem. Certamente, o projecto central da filosofia desde os
tempos antigos, era apreciar a centralidade do raciocínio.
O pensamento antigo da linguagem é basicamente DESIGNATIVA:
a linguagem é um rio onde os pensamentos correm. A teoria designativa
considera as palavras como representantes das coisas ou objectos. A linguagem
é significativa porque podemos representar o mundo com exactidão, usando
palavras para conversar com as palavras. Aqui a capacidade da linguagem em
representar o mundo está subordinada ao poder das palavras em expressar
algo relacionado com o que significa ser humano.
Segundo LAWN, a linguagem é fundamentalmente, um
fenómeno social, cultural e histórico. Porem, a atitude hermenêutica à
linguagem é basicamente EXPRESSIVA. A posição expressiva se distancia da
ideia da linguagem como malha representativa sobre o mundo e acata algo mais
parecido com um sistema de cifras, sustentado por regras de uso. O
significado de uma palavra é definido pelas regras convencionais.
A fonte de significado linguístico seria a distinção
principal entre posição expressivista e a designativa. O
expressivísmo se refere ao poder da linguagem em expressar o que significa ser
humano. Porem foram os filósofos analistas como Wittgenstein e Austin
que demostraram da qualidade de FERRAMENTA da linguagem. E o que
significa pensar na linguagem como ferramenta? – É adoptar uma posição não
designativa.
A linguagem expressivista é constitutiva do mundo.
Isto é aceite pela distinção Gadameriana de mundo e ambiente,
sendo o que lhes distingue é a linguagem. E assim o mundo é que só possível
pela linguagem; e, pelo facto de a linguagem ser um produto ou uma condição de
vida social, nosso mundo é fundamentalmente social. Segundo LAWN, um dos pontos
fortes da posição expressivista é a recusa em dividir a linguagem em literal
e figurativa, pois ambas são importantes. Todas as linguagens vivas, a
linguagem das conversas diárias, a linguagem da poesia, e a linguagem das
propostas tem a expressão como âmago (103-108).
5.2. Discurso de Gadamer sobre a natureza da linguagem
Gadamer faz parte da tradição expressivista. E ele
rejeita o discurso representacional da linguagem e o seu erro está na suposição
de que, pelo facto de existir uma lacuna entre as palavras e aquilo que elas
representam, uma linguagem pode ser examinada com exactidão científica. Como?
– Supõe-se que o poder da representação pode ser avaliado com precisão e
imparcialidade. Mas GADAMER rejeita isso afirmando “que nós já estamos
sempre envolvidos com a linguagem e não podemos torna-la um objecto de
investigação”.
Gadamer vê na conversação um papel importante e nega a
possibilidade de nos desprender da linguagem: “nos estamos totalmente
imersos na linguisticiadade”. E para GADAMER, entender fenómeno LINGUAGEM é
procurar descobrir o que a linguagem é. E pensa ele, com razão, que
todos os aspectos da vida têm uma estrutura linguística (108-109).
5.3. As hermenêuticas da palavra falada.
Acredita-se que a palavra falada tem maior peso
(autoridade) sobre a escrita. Porem, isso acontece pelo facto de que a fala
histórica, supõe-se, precedeu a escrita. A maior preocupação é de que as
palavras congeladas na forma escrita, seriam mal interpretadas e distorcidas
sem a presença do locutor para esclarecer as ambiguidades e os significados não
intencionados. Na fala, a linguagem está se comportando na sua forma mais autêntica.
Gadamer considera como objectivo das hermenêuticas, a
revitalização das palavras escritas em palavras faladas. Assim, ele
favorece a fala sobre a escrita, isto é, a escrita parece um fenómeno
secundário. Na fala, o pensamento é somente uma fala internalizada. Para
Gadamer, a palavra escrita é alienada e inferior; e a tarefa do
entendimento será a alienação com a leitura do texto.
Assim, ler um texto é ressuscitar as palavras mortas
da página. Como fazer isso? – Tratar o texto não como fornecedor
inerte de significados fixos, mas como um parceiro no diálogo. E um diálogo
é essencialmente falado e não escrito. E isso chama-se ENTENDIMENTO. E o
processo de revitalização nos remete ao diálogo, a lógica da pergunta
e resposta do entendimento histórico (110-11).
5.4. O que pode ser entendido é linguagem.
O objectivo da linguagem é comunicar e sem linguagem não
haveria mundo: “a linguagem trata da negociação e do acto de fazer
sentido o mundo humano de nossa construção”. E onde vem o impulso de
usar a linguagem? – Heiddegger responde dizendo que do desejo de
interrogar e fazer sentido ao ser.
Gadamer entende que o significado real de comunicar não
é a transmissão e a recepção de dados e informações, mas sim é aquilo
que é compartilhado e aquilo que é mantido em comum. A linguagem é o meio
através da qual conseguimos entender; e o ser é a leitura mais óbvia. Assim, “tudo
aquilo que conseguimos entender sobre o SER é através do agente da linguagem”.
Gadamer quando diz “O ser que pode ser entendido é a
linguagem” queria dizer que “tudo que pode ser entendido sobre o Ser é necessariamente
linguístico”. Todas as nossas apropriações do ser, na realidade tudo o que
fazemos e tomamos conhecimento são através da linguagem. A linguagem está em
todas as partes e domina peremptoriamente nossa visão do mundo. Ela esclarece
os aspectos do Ser, isto é, torna-o compreensível à consciência humana.
Assim, a tarefa hermenêutica é de descobrir e revelar
o não dito, atraindo-o para um diálogo explícito com o dito. Quais as consequências
dessa visão de Gadamer? – Acusação de defender um “IDEALISMO LINGUISTICO”,
isto é, fazer da linguagem uma criação autónoma, um semi-desejo espiritual
ou poder soberano acima das livres escolhas dos indivíduos autónomos.
Defendendo Gadamer, ele não nega que a linguagem está sob controlo da
subjectividade humana, mas nega que é o poder do pensamento que garante o
significado linguístico e segue mostrando que ele é um produto da interacção
dialógica humana. E finalizando, Gadamer acredita que a linguagem muda de
acordo com as infinitas trocas dialógicas dentro do contexto da tradição e
história, e está além do controle dos indivíduos (111-115).
Unidade
6: A ESTETICA DE GADAMER.
A arte é tida em Gadamer como uma experiencia da
Verdade, ou seja, uma forma de verdade sobre o Mundo e não um estado
alterado de sentimento individual. É ainda um ponto crucial de acesso às
verdades fundamentais sobre nós mesmos que nenhuma pesquisa científica
jamais conseguiu.
Gadamer é contra a relegação da arte a um status de
ornamentação e deleite, simples forma de entretenimento sem contribuindo
para o profundo entendimento do Mundo. Conceber a arte como deleite, para
Gadamer, é-lhe fazer sucumbir nas emoções e sentimentos, sem sequer ser
um insight filosófico e verdade científica. E Gadamer questiona o
status da verdade da arte desenvolvida na tradição estética Kantiana.
Aponta-se para a República de PLATAO como o marca-passo
histórico para a visão de toda a arte como inverdade. Para Platão o
único caminho para a verdade seria a sabedoria filosófica: os
artistas, os poetas, os dramaturgos são vistos como pessoas que não lidam com a
verdade mas sim com a ilusão. Platão inaugura a tradição da suspeita
filosófica de todas as formas da arte. Assim, para Gadamer, a arte não
está receber o seu valor devido e a modernidade negou o status da
arte como uma forma da verdade.
Gadamer diz que a ideia de que a arte está
fundamentalmente preocupada com o sentimento (como Kant diz), é uma
subjectivação da arte, ou, redução da arte a alguma variedade da experiencia
pessoal. Gadamer acredita que arte é capaz de algo de maior importância do
que o poder de gerar deleite, a arte associa-se a verdade. E assim, faz
depender as suas hermenêuticas da ideia heideggeriana da arte como
engajamento primevo com a verdade. Para Heidegger, a arte é reveladora e, é
verdadeira: a arte, como a verdade em si, é uma manifestação aberta do
mundo, ela revela. Tal revelação, muitas vezes, funciona como sua privação
ou ocultação. A arte, como as outras formas da verdade, tem a capacidade de
revelar ou ocultar (117-122).
6.2. A arte como jogo
Gadamer vê o jogo como uma faceta central da arte.
E o que quer dizer com o jogo? – Ele encara o fenómeno real do jogo em
sua variedade infinita: jogo da luz, jogo das ondas… O jogo é uma actividade
que não é aleatória, mas porem, não tem objectivo óbvio ou ponto final
teológico ou intencional.
O jogo é concebido como um constante movimento
de-e-para, e Gadamer centra neste incessante movimento de vai-e-vem, porque
ela revela algo de importante sobre a natureza da arte como sendo
essencialmente incompleta e não completável. O significado dos trabalhos
da arte é aquilo que é revelado e exposto na oscilação constante entre o
trabalho da arte e o intérprete. O significado do trabalho de arte nunca é final,
assim como um jogo não atinge sua verdadeira finalidade. Gadamer quer enfatizar
com a noção do jogo que, assim como a arte, ele é mais do que estado alterado
ou sentimento ou consciência estética. E Gadamer fala de dois aspectos do
jogo: (i) dinâmica entre os jogadores e o jogo e (ii) relacionamento
entre jogadores e os espectadores (jogar junto).
Gadamer passa a estabelecer uma analogia entre as formas
de entendimento e os indivíduos. E considera reflexão individual
como fragmento das estruturas hermenêuticas maiores (os círculos fechados da
vida histórica), da linguagem e da tradição. Grosso modo, todos os
trabalhos da arte, de alguma forma, se baseiam em jogos. Ex: Num drama, a
audiência é essencial ao desempenho dos atores. O trabalho da arte
oferece ao OBSERVADOR um mundo, um horizonte de significado. O trabalho da
arte, opera em Gadamer, como um outro parceiro do diálogo e assim, a verdade
e a arte são tidas como diálogos! (122-125)
6.3. Arte como símbolo e festival.
Dois aspectos da arte suplementam o jogo na estética de
Gadamer, como o caso de SÍMBOLO e FESTIVAL. Deve-se entender o
significado do trabalho da arte não como reduzida ou condicionada a uma
história sobre sua colocação histórica ou seu posicionamento num género
artístico específico. O significado do trabalho da arte é inescrutável e não
imediatamente aparente; todavia, voltamo-nos ao trabalho da arte, em nossa
busca pelo significado de nossas próprias vidas, como se ele pudesse
completar o quebra-cabeças da existência. Para Gadamer, o trabalho da
arte ocupa uma posição de um significado oculto que precisa ser
esclarecido ou explicado. O trabalho da arte como um símbolo é um veículo
para tentativas de auto-reconhecimento: Nós procuramos nos entender no
trabalho da arte.
E o significado do trabalho da arte nunca é completo:
nós seremos capazes de reconhecer e conhecer novas coisas nele. Ele revela
aspectos de um mundo humano e suas limitações. O verdadeiro ser do trabalho
da arte jamais será totalmente compreendido; sempre haverá uma aura de
singularidade e insustentabilidade em torno dos trabalhos da arte.
O que o símbolo e festival apontam? – SÍMBOLO aponta para o SER do trabalho da arte e FESTIVAL
aponta para a REVELAÇÃO de sua temporalidade, seu relacionamento com o
tempo da sua recepção e a noção de tempo que a celebração demostra. Uma ocasião
festiva é sempre algo que nos enaltece, elevando os participantes além
das suas existências diárias, a um tipo de comunhão universal. O carácter
festivo do trabalho da arte está ligado às celebrações e lembranças de
festivais.
O festival cria o seu próprio tempo, que irrompe através
do tempo do relógio mundano. A arte é festiva no sentido de que ela também interrompe
e desloca as nossas experiencias diárias e oferece uma oportunidade de
interrogarmos nós mesmos e nossos engajamentos com o mundo de maneira díspar. A
arte, assim como o festival, oferece a oportunidade da pessoa fazer
inventário de sua vida, para pensar reflexivamente e deliberadamente sobre
sua vida de uma maneira diferente.
O festival é igualmente um compartilhamento; une
e reconcilia a comunidade de maneira mais íntima e crucial do que outras
experiencias de solidariedade. Gadamer sugere que a grande arte nos une até
onde nós a experimentamos como um todo maior. A arte é verdadeira. Porque?
- Ela, como outras formas de diálogo, “diz algo para alguém”. Porque a
experiencia da arte é a experiencia do significado; a arte é basicamente
subordinada e faz parte das hermenêuticas (125-128).
6.4. Inclinação poética de Gadamer.
Gadamer vê ser na poesia (lírica moderna) a
maioria das afirmações não distorcidas. E o que distingue discurso diário da
poesia? – Vale dizer que a acrescente apreciação de Gadamer pela poesia o
leva às interpretações da poesia contemporânea como o caso da lírica hermética.
O jogo discutido como aspectos ocultos ou reprimidos da verdade do trabalho da
arte funciona mais enfaticamente no âmbito da poesia. E o jogo se transforma
numa característica primacial da linguagem em si. E a LINGUAGEM POÉTICA,
a linguagem comum é separado de seus padrões diários e encontra novos
modos de expressão. E o que Wiitigenstein ignorou como aspectos poéticos são a
flexibilidade interna dos jogos da linguagem, sua capacidade de se transformar
e se estender, pra trabalhar em novas regiões ainda desconhecidas (128-130).
6.5. Gadamer na linguagem diária comum.
Olha-se para linguagem como emergindo em sua autonomia
total e se mantendo por si mesma: ela se apresenta diante de nós. A
linguagem comum se assemelha a uma moeda que passamos entre nós no lugar de
alguma coisa. E a linguagem poética é comparada com o ouro em si. A
analogia sugere que as palavras em si têm valor sem as palavras poéticas.
O objectivo da analogia? – Sugerir que nos usos diários da linguagem “as palavras
em si” (como sons e padrões estruturados do significado) são um veículo,
através do qual passam os assuntos em questão, o objecto da troca. Por
outro lado, “a palavra poética” não desaparece por detrás do assunto em
questão, mas é manifestada como um assunto em si.
Vê-se o significado como não algo auto-suficiente ou algo
acima ou além das palavras. A participação na criação das palavras acompanha o
acto de falar. A linguagem está em seu estágio mais transparente quando a
lógica da pergunta e da resposta está buscando e entendendo, sem muitos
problemas, na rotina de trocas diárias de conversações.
A linguagem viva requer conformidade com as regras
semânticas. Entender e fazer entender é também uma questão ética.
Gadamer é da posição de que a luta além daquilo que é esperado, é o que a
literatura em geral, e a poesia em especial, engaja como uma expressão dos significados
do diário. A linguagem poética não está limitada a linguagem da poesia
(lírica e hermética). O poema lírico resiste em paz a fácil transliteração: nenhuma
tradução de um poema lírico jamais transmite o trabalho original (131-134)
6.7. O poema como texto eminente
Eminência é uma
qualidade dos trabalhos poéticos. As composições poéticas são textos no
sentido eminente da palavra. Neste tipo de texto, a linguagem emerge em
sua total autonomia. Aqui a linguagem se mantem por si mesma: ela se
apresenta diante de nós. A palavra poética é eminente.
Existe uma distinção entre a linguagem comum e a linguagem
poética; sendo a primeira, as palavras desaparecem em suas
funcionalidades, sumindo diante dos assuntos em pauta. E na segunda, as
palavras adoptam a vida própria. Na linguagem comum, atentamos mais para a
mensagem do que ao veículo. Segundo BRUNS: a “fisicalidade” das palavras
através de seus sons, modulação, tonalidade, tempo, dinâmica e factores
supérfluos na troca de informações da fala diária, ficam em evidência na manifestação
poética”. A palavra poética, transcendendo a mera informação, interrompe
o diário. A experiencia da novidade em relação ao texto é dramaticamente
salientada no poema lírico.
Na linguagem comum existe um elemento de inventividade
presente. A qualidade inventiva, auto-transformativa é enfatizada e
intensificada na expressão poética. Na poesia lírica, Gadamer alega que o poeta
“libera a multidimensionalidade das associações do significado que é
suprimido pela utilidade prática da intenção na fala diária”. Com os
usuais pontos semânticos de referências distorcidos e deslocados no poema, a
tarefa hermenêutica fica mais complicado. As palavras se estendem, movendo-se
em uma nova dimensão espacial desconhecida na tradição. O significado é
basicamente um DIALOGO, uma negociação entre o poeta e o leitor.
A linguagem poética não é uma única instância da
linguagem em jogo. Porque? – O elemento da diversão nunca esta longe até
mesmo nas manifestações rotineiras das conversações diárias. Existe um ponto de
encontro quando Wittigenstein e Gadamer falam respectivamente de “jogar”
e “diversão no jogo”. O acto de jogar é uma actividade regulada e
a diversão no jogo resiste a codificação, isto é, resiste a regulamentação.
E conclui-se que todas as formas da arte são um jogo. O jogo transforma os
jogadores e a si mesmo à medida que revela algumas estruturas dimensionais da
realidade, pois a transformação é uma transformação para a realidade.
O elemento do jogo no diálogo, elidindo a possibilidade
de ocultação e identidade, é evidência forte de que a alteração e diferença
levam vantagem sobre a identidade do significado em Gadamer (134-137).
UNIDADE
7: O CONTEMPORANEO DE GADAMER
Aqui aborda-se Gadamer depois dos 60 anos. Busca-se
compreender a tentativa de “regionalização” da Hermenêutica até agora
generalizada. Fala-se aqui do entendimento como arte prática.
7.1. Em busca da verdade e método.
Os insights básicos de Gadamer perduraram até seus
últimos trabalhos, mas existem muitas mudanças. Assim, Gadamer começa a
trabalhar sobre o trema SOLIDARIEDADE e seus resultados para as hermenêuticas,
através de uma comparação com o conceito usado no trabalho de RORTY:
Solidariedade. E também Gadamer depois vai dividir três áreas da aplicação das
hermenêuticas em seus posteriores trabalhos como: (i) o papel do
especialista na sociedade moderna; (ii) o carácter da prática médica
e (iii) a natureza da universidade moderna (139).
7.2. Gadamer e Rorty sobre a solidariedade.
Gadamer discute percuciente o termo “solidariedade” em
muitas das suas entrevistas, o que faz com que, durante o período pos-60 referências
a tradição desaparecessem. Porque isso? – A tradição é um conduto
através do qual fluem os elementos viscerais da vida social, conectando o
passado ao presente e ao futuro. A tradição é o pano de fundo que suporta
qualquer interpretação. E ela é baseada em acordos profundos que seriam
SOLIDARIEDADE.
Gadamer aponta “o comum” e “as
estruturas implícitas dos acordos que oferecem uma plataforma essencial do entendimento”
como uma das principais características da tradição. E tem como sinónimos, a linguagem
e a história. E qual a ideia em que GADAMER se movimenta? – “a
pesar da tradição depender da solidariedade, há, muitas vezes, a esperança de
que as solidariedades podem ser estendidas e expandidas”. O uso de GADAMER da
solidariedade é mais plausível do que a de RORTY. A de Gadamer, é uma
base discutível para um programa de valores éticos e políticos,
superando a evidente dependência niilista de Rorty da contingência pura.
RORTY procura estabelecer uma base para o compromisso
ético. E quais os pontos seus de encontros? – Rejeição de qualquer
forma de fundamento não-contingente e não-histórico na natureza humana e
proibição de qualquer recurso ao discurso abstracto e não-especifico de uma humanidade
comum ou uma essência humana.
E onde se diferem? – RORTY: defender que a extensão e o grau de
solidariedade podem ser aferidos “empiricamente”. Ele fala de PROGRESSO MORAL,
que é descrito como desejo de estender a abrangência, na direcção da
solidariedade humana maior, a habilidade de ver mais e mais as diferenças
tradicionais (de tribo, religião, raças, costumes etc.) como não importantes
quando comparadas com semelhanças em relação a dores e humilhações – a
habilidade de aceitar as pessoas que são totalmente diferentes de nós como se
fizessem parte integrante da nossa estrutura.
O progresso moral é gradativo e incremental, e possível
através da construção a partir das solidariedades existentes e da imaginação de
outras maiores. E como se obtém o avanço moral? – Através da imaginação
da possibilidade de um ciclo cada vez mais amplo de solidariedades (e não
por causa de um apelo a uma lei universal abstracta essencialista). Para
Rorty é preciso evitar a crueldade e humilhação na busca de solidariedade.
E considera ele, a imaginação literária como aquilo que oferece
motivação para aumento da solidariedade. Para avançar e reforçar as solidariedades,
precisamos criar novas narrativas e imagens das nossas próprias solidariedades.
O que é admirável em Rorty? - É a construção de uma
ética da solidariedade a partir dos elementos essenciais (os acordos contingentes
da vida humana). E em que peca? - Ao tentar levantar a cortina da fumaça
e os espelhos da metafísica e da teologia, dos quais os apelos das ricas
vidas éticas, muitas vezes, dependem. Roty defende solidariedades como CRIAÇÃO.
GADAMER defende as *solidariedades como reclamadas e
reveladas dentro de uma malha de linguagem e tradição antes de
ser, criadas, imaginadas ou inventadas. Defende que nos precisamos
simplesmente nos *consciencializar das solidariedades. E Rorty continua defendendo
que os horizontes morais são expandidos através da expressão literária de esperança
e de uma aversão à crueldade e humilhação.
Grosso modo,
Gadamer e Rorty desmoronam os fundamentos tradicionais da ética, fazendo
apelo a “universalidade abstracta”. Suas mudanças para a solidariedade
são tentativas de resgatar a ética do Niilismo infundado e potencialmente pós-moderno.
Gadamer defende ainda ideia de uma humanidade comum, que é, porem,
inflexível sobre a necessidade de enfatizar o comum ao invés da diferença. E
Rorty defende que toda a solidariedade social pressupõe a ideia de “percorrer
um longo caminho junto”.
E qual a vantagem das solidariedade de Gadamer? – Estão profundamente emaranhadas na malha
(tradicional) da vida social e oferecem uma esperança mais realista para a
expansão das formas de mutualidade e do comum, nas quais as solidariedades em
si dependem. São exemplos de solidariedades de Gadamer genuínas para o
futuro: luta contar o poder atómico, luta pela protecção legal dos animais,
a natureza e as crianças etc. (140-146)
7.3. Hermenêuticas Aplicadas.
Será que a hermenêutica de Gadamer tem uma dimensão prática? – Eis a questão. O problema nasce quando se olha para as
primeiras hermenêuticas (bíblicas e legais) como aquelas que deram orientações
normativas para evitar qualquer interpretação incorrecta e sem se saber o
que a de Gadamer visa. Porém, o trabalho de Gadamer é filosófico no sentido
fenomenológico de abordar aquilo que realmente acontece. É um
questionamento da natureza da interpretação em si.
Gadamer estabelece que a noção de aplicação das suas
hermenêuticas está no âmago do entendimento. As hermenêuticas
filosóficas têm dimensões práticas. Porque? - Podem modificar atitudes
e práticas e podem oferecer novas perspectivas sobre actividades e práticas até
agora não examinadas e consideradas como líquidas e certas. A aplicação é
parte de todo o processo hermenêutico. Estas hermenêuticas aplicadas
cobrem áreas práticas como a educação, crítica literária, psicanálise e
prática médica. A preocupação de Gadamer é com a negligência do poder da
tradição e da solidariedade na era moderna.
E ele afirma que as diferenças de status, controle e
poder nas sociedades burocratizadas são manifestadas através da ESPECIALIZAÇÃO.
E com relação a natureza dialógica da linguagem e do conhecimento é necessário
nos recordar de que o tipo de controlo da linguagem e o mundo instrumental
que a razão busca são irrealizáveis. Gadamer rejeita a visão holística
técnico-científica, e acusa o especialismo técnico-científico de ofuscar as
solidariedades fundamentais.
Questiona também a ideia do MÉDICO PROFISSIONAL como
especialista técnico do corpo. E o que prefere? – Aquele médico
que resgata o senso antigo da medicina como uma arte hermenêutica (como
uma prática misteriosa e interpretativa). E, porém, Gadamer questiona o
monopólio sobre a verdade médica do poder monolítico da tecnologia médica e da indústria
farmacêutica. O profissional médico contemporâneo tem acesso a mais sofisticada
tecnologia médica como os sistemas de suporte de vida, recursos para
transplantar os órgãos ou programas de diagnóstico para os computadores.
A ciência médica vem se transformando em tecnologia médica,
pois novas formas de conhecimento são transpostas e aplicadas, transformando o médico
em um tecnólogo politicamente poderoso – um tecnólogo do corpo. Para
Gadamer, a “tecnologização” do conhecimento, do mundo moderno, distorce o
relacionamento tradicional teoria/prática. A medicina, diz Gadamer, nunca
pode ser reduzida a uma mera habilidade. O que o médico procura trazer é a
saúde. A prática médica é arte de cura.
O médico requer um tipo especial de julgamento (sabedoria
prática) quando procura restaurar o equilíbrio essencial ou harmonia do
paciente. O médico não deve ter ilusões de que está curando com técnicas
intervencionistas. A medicina é ao mesmo tempo, uma arte e uma
habilidade. E assim, o equilíbrio é exigido do médico e ele, precisa
distinguir aquilo que ajuda o paciente e aquilo que deve ser deixado
a cargo do futuro. A doença do paciente deve deixar o médico com um problema
hermenêutico.
Gadamer sugere que, em nossa era científica, as
distinções subtis são limitadas porque a tecnologia reduz artificialmente a
necessidade de julgamento. E qual será o verdadeiro enigma da saúde? – “Quando
tudo já foi dito e feito, o médico não está totalmente em controlo, e nem está
jamais na posição de entender completamente a natureza da saúde, o corpo e a
cura”. A saúde não pode ser explicada totalmente a partir dos domínios da
província do mundo científico. A doença é um estado social, psicológico e
moral de manifestações. Para o médico, mais fundamental que o entendimento
geral é a gama de preocupações éticas relacionadas com o cuidado que o
profissional demostra em relação ao paciente, e o cuidado que os pacientes
exercem em si mesmos. E o que é ético é manifestado através do diálogo.
Para Gadamer, um bom médico tem boas maneiras como lealdade
de carácter, cuidados, cooperação, percussão sútil, etc. É no diálogo com o
paciente que essas características éticas são manifestadas, pois somente quando
o paciente está na posição de articular a natureza da dor, do desconforto e da
ansiedade é que o processo de cura pode começar. Boa prática médica
é essencialmente dialógica. Gadamer fala do tratamento para enfatizar os
aspectos que foram negligenciados da habilidade do médico: o tratamento é algo
que vai além do mero progresso em técnicas modernas.
A tensão crescente
entre a tecnologia e a vida ética é descrita como característica base da
modernidade. Diz Gadamer em Enigma da saúde: nosso problema é uma questão de
encontrar um equilíbrio certo entre nossas capacidades técnicas e a necessidade
para acções e escolhas responsáveis. O tecnocrata médico anónimo suplanta a
ideia tradicional médico da família. Gadamer sugere a recuperação das formas de
responsabilidade colectiva e pessoal, necessárias para rectificar o equilíbrio,
sem lutar infrutiferamente contra a máquina. Para Gadamer, a boa pratica, médica
ou outra, sempre terá o recurso total ou “destreza” para evitar sua
total aniquilação.
A boa pratica, por causa da sua íntima ligação com a vida
ética, depende da solidariedade social, precisamente o tipo de
solidariedade necessária para desenvolver e resistir aos excessos da
modernidade.
Gadamer discute também a questão da EDUCACAO SUPERIOR.
Gadamer comenta a universidade como sendo um lugar onde as solidariedades
são preservadas e reconfiguradas. Apesar de tanto a universidade moderna
como a prática médica moderna, estarem sobre a ameaça da burocratização,
Gadamer vislumbra um futuro de esperança. O instituto moderno do ensino
superior, por toda a sua distância, sua especialização destrutiva e sua
proximidade ao “negócio lucrativo”, ainda oferece a oportunidade de
descobrir o “espaço livre”, não oferecido como um privilégio a uma
determinada classe. E como funciona tal espaço livre? – Parece de duas
maneiras: (i) É a oportunidade para a descoberta pessoal, um espaço
longe da arregimentação da vida administrada, permitindo as possibilidades de
criação pessoal. E (ii) É também lugar para forjar novas solidariedades.
A universidade não é somente aprendizado; é um lugar onde a experiencia genuína
é encontrada.
A universidade, apesar de estar sobre pressão do mundo
dos negócios para produzir especialistas para o mundo, na realidade, tem o
potencial de ser um modelo para solidariedade maior, uma universitas
(mundo inteiro), onde o espírito de livre questionamento e a busca
por um “espaço livre” preservam tudo o que é necessário para o
potencialmente perigoso diálogo aberto do questionamento e descoberta pessoal. A
ideia de uma independência continuada da mente ainda vive na universitas
scholarum, ao “contrário da modelagem da consciência social pelos poderes
do presente (146-156).
UNIDADE 8: COMPANHEIROS DE
JORNADA E CRÍTICOS.
8.1. Gadamer hoje.
Uma das coisas incrivelmente antiquada nas defesas de
Gadamer é a defesa de valores humanos em um mundo dividido, fragmentado e
totalmente pluralista e o seu estranho respeito pelo poder da grande
filosofia e literatura para moldar grandes mentes. Mais GADAMER é
considerado como um dos heróis do pós-modernismo (157-8).
8.2. Gadamer e o pós-modernismo.
Chama-se pós-modernismo como um tipo de cepticismo
erguido a partir de dúvidas e preocupações a respeito do pensamento iluminista.
Ele é céptico a respeito (da):
*SUBJECTIVIDADE: Gadamer tem uma versão da subjectividade
pós-moderna e isso expressa-se na ideia de que “a história não pertence a
nós, nos pertencemos a ela”. Para ele, as forças da socialização e
aculturação estão em jogo bem antes de qualquer movimento em direcção a auto-reflexão
seja possível.
*ANTIFUNDACIONISMO: o pós-moderno é céptico a respeito
das fundações do conhecimento. Este, acredita que o sujeito dá lugar a
intersubjectividade ou a algo mais infundado e instável. As fundações do
conhecimento para GADAMER, são uma rede de acordos e convicções sobre a qual
a linguagem e a tradição são erguidas, e estas são dificilmente fundações,
pois estão constantemente num processo de mudanças.
*RELATIVISMO: O pós-modernismo nega a possibilidade de
verdade objectiva, isto é, afirma a natureza relativa dos sistemas de
verdade, culturas e comunidades linguísticas. E Gadamer é um relativista
sobre a verdade, ao afirmar que a verdade é histórica. Será que ele
não fica na subjectividade? Não, na medida em defender a ideia da FUSAO DE
HORIZONTES, tida como “possibilidade de estendermos nossos próprios
horizontes culturais” para incluir e interagir com o outro totalmente estranho
e remoto do nosso próprio. Gadamer é REALISTA PERSPECTIVISTA. Realista,
porque diz que existe um mundo além da nossa percepção culturalmente condicionada
dele. E perspectivistas, porque nunca conseguimos uma imagem clara
daquele mundo, porque as interpretações mudam sempre.
*CIENCIA: Nega a ciência como discurso dominante.
Gadamer nega todas as revindicações da ciência como discurso mestre e defesa
do conhecimento como termómetro para mediar a validade de todas as
coisas (158-160).
8.3. Companheiros de jornada: Wittgeinstein e Rorty
Gadamer tem semelhanças com Wittgeinstein: ambos são
pensadores antifundicionais; ambos concordam que não existe uma matriz
sólida, na razão ou na experiencia, sobre as quais o sujeito conhecedor pode fundamentar
o conhecimento. Wittgeinstein desenha “o argumento pessoal da linguagem” para
mostrar como a linguagem é essencialmente um assunto público: sua força
vem dos acordos públicos, convicções e censos que constituem os jogos da
linguagem.
Apesar de GADAMER não falar dos jogos da linguagem ele
revela o elemento do jogo dentro da linguagem. O jogo da
linguagem é projectado para mostrar como a linguagem é essencialmente prática
(assim que não existe jogo sem jogadores, também não existe linguagem sem
falantes). Ambos aceitam que a linguagem é uma prática: ela nunca
pode ser transformada num objecto de investigação quase-científica. E negam
a transformação da linguagem em um meio de comunicação mais técnica.
Ambos concordam que a linguagem é primeiramente a linguagem do diário,
isto é, linguagem da casa. E ambos compartilham uma desconfiança comum da
tecnologia e a capacidade geral da modernidade de obscurecer verdades mais
profundas. E onde diferem? – Trabalho de Wittgenstein tem um estilo fragmentado
e aforístico. E de GADAMER, mais tradicional e menos
experimental.
O outro companheiro é RORTY: a sua reivindicação é que a
filosofia ocidental, desde o nascimento do modernismo filosófico, está sob o
domínio de um mito poderoso sobre a natureza da verdade. A verdade
humana é considerada como uma reflexão, uma imagem reflectida de como as
coisas são, e a filosofia está presa a esta ideia como um relacionamento representativo
exacto entre o observador e os objectos de observações. Rorty fala da
necessidade de quebrar o entendimento dessa metáfora, e defende um procedimento
histórico para tal; mesmo procedimento defendido por Gadamer. É para a
concepção da filosofia como dialogo que Gadamer se volta quando busca o
modelo mais dialógico e hermenêutico para a verdade.
A ideia da solidariedade assumiu importância maior nos
últimos trabalhos de Gadamer e ainda mais importante na busca de Rorty por
éticas em reflexão e política. O que Rorty encontra em Gadamer? – A ideia
da verdade como diálogo. Isto é, a verdade como edificação, que oferece novas
formas de falar e possíveis através do diálogo e conversação. E o termo “Edificação”
de RORTY se aproxima ao “entendimento” de Gadamer. Ambos sugerem maneiras de construir
pontes entre culturas desconhecidas e os jogos de linguagem, através do diálogo
hermenêutico e conversação.
E o que os separa? – A contingência de Rorty, da qual todos os
elementos da vida social parecem derivar, é menos fundamentada e arbitrária do
que a tradição de Gadamer (que também carece de plausibilidade)
(160-166)
8.4. Críticos de Gadamer.
HIRSCH: criticou Gadamer sobre aquilo que considerou indeterminação
do significado evidente. Gadamer desestabiliza radicalmente o significado,
de tal forma que a linguagem perde qualquer sentido de permanência e
estabilidade. O que, para Hirsch, estabelece o significado, é intenção do
autor. O significado é fixado pelo significado autoral e por isso Hirsch
rejeita a suposta relativização e desestabilização do significado de
Gadamer.
Pra HIRSCH, o significado de um texto é fixado pela
intenção do autor: o texto é aquilo que o autor diz que é. Gadamer é
acusado ainda de não conseguir distinguir SIGNIFICADO e SIGNIFICANCIA, este último
que muda com o tempo. E o que os une? – Ambos apoiam a ideia de um cânon
de grande literatura. Enquanto o cânon literário de Hirsch é fornecedor de ideias
civilizadas imutáveis e conceitos, o cânon de Gadamer, está constantemente
em um processo de redefinição. O cânon de Gadamer, como um parceiro de diálogo,
está constantemente mudando. O cânon de Gadamer é constituído de textos,
cujas vozes atraem o leitor para a conversação.
Na verdade, todo e qualquer texto, em algum ponto de sua
história interpretativa são dirigidos a uma audiência. Nós nos engajamos nos
horizontes de um texto quando eles nos atraem. O cânon de Gadamer
não é um monumento congelado do passado, mas sim uma voz viva, sempre
mudando na incessante conversação da humanidade.
HABERMAS: vê
virtudes no renascimento das hermenêuticas de Gadamer: ele representa uma
alternativa valiosa e oportuna ao positivismo nas ciências sociais. O
que HABERMAS vai procurar? – Libertar as hermenêuticas filosóficas de
suas defesas conservadoras da condição actual e da sua falha da instância
crítica em relação a tradição. Habermas é caracterizado como um defensor do
projecto do Iluminismo, e sustentáculo de sua agenda política de liberdade e
emancipação.
Habermas defende uma versão da razão (razão universal),
através da qual debates e posições rivais devem ser testadas. Defende razão
a serviço do diálogo. Mas de acordo com a visão de Gadamer, a comunicação
transparente e desimpedida será sempre uma opção; o diálogo é tanto sempre a
negociação e articulação. A fusão dos horizontes, garante que alguma medida
de esclarecimento do entendimento está sempre a caminho, se nunca finalmente
concluída. Gadamer fala de uma confiança necessária em comunicação, uma
confiança no desejo do outro no diálogo alcançar, em boa-fé, o entendimento. E
para Gadamer, a vida social depende da nossa aceitação da fala diária como
fidedigna.
Habermas quer aquilo que Gadamer quer, isto é, as
formas edificantes do diálogo, mas aquilo que ele chama de “diálogo livre”
somente é possível quando as estruturas da ideologia forem desarraigadas pelo
poder da razão. E Gadamer acha inapropriada da ideia de libertação do poder
confinado do dialógo. O diálogo não deve ser classificado como algum tipo
de racionalidade métrica. A confiança de Habermas inspirada no iluminismo, do
poder de se liberar das formas ideológicas opressivas da fala no interesse da emancipação
política é duvidosa se analisada pelo outro ponto de vista das hermenêuticas
filosóficas. Para Gadamer, a retórica faz parte da composição da linguagem
da fala diária, e a ideia de escapar-lhe com o interesse de evitar
manipulação social perniciosa é tão irreal quanto a tentativa de fazer
dos preconceitos constitutivos da consciência um objecto de questionamento
racional.
ESQUERDA POLITICA: questionam a aparente dependência irracional de
Gadamer na ideia da tradição. Mas de facto, as Hermenêuticas de Gadamer não
são um apoio ao conservadorismo e defesa do status quo e nem profundo
conservadorismo político.
EAGLETON: diz que
Gadamer esqueceu que a história é uma luta, descontinuidade e exclusão, isto é,
ele dá a história, uma corrente contínua, um rio em constante
fluxo. Conceber tudo à tradição submetendo a determinadas autoridades (políticas
e outras) é uma indicação de uma política profundamente conservativa,
evocando um poder assustador, manifestado pelo passado e o futuro.
A ideia marxista de EAGLETON, da história como luta,
enfatiza um movimento opositor constante. Gadamer não fala de luta, porém, a
dinâmica nas hermenêuticas representa um constante movimento. A tradição de
Gadamer não é o peso apavorante das gerações mortas, mas uma intenção
dialógica incessante entre o passado e o presente. A ideia de Eagleton de
apresentar GADAMER como um conservador político é infundada, pois,
Gadamer nega que tem alguma simpatia com as ideias do Socialismo nacional,
isto é, ele fala de si como um liberal político.
O diálogo, no âmago das hermenêuticas, é, em termos
filosóficos, uma admissão de que nenhum individuo ou comunidade tem acesso privilegiado
à verdade. A partir daí existe a possibilidade para o Outro no diálogo.
Gadamer enfatiza como John Stuart MILL, a fabilidade em assuntos humanos,
e a natureza dialógica do entendimento como uma maneira de mediar divergências
e crenças políticas opostas. E ele sugere também uma política de
compromisso, encontrando o meio-termo, ouvindo a voz do outro. Certamente,
existe uma política prática que nasce das hermenêuticas. E a política
dele é democrática e igualitária, dependendo da participação de todas as vozes
individuais.
Gadamer continua dizendo que o DIALOGO é uma estrutura do
entendimento hermenêutico, oferecendo uma base para ética prática. O diálogo
verdadeiro demanda atenção paciente à voz do outro. Gadamer encontra em ARISTÓTELES
uma versão do círculo hermenêutico relevante à sua própria posição. Em Aristóteles
a qualidade de bem é chamada de phronesis (sabedoria prática),um
“estado consciente ou capacidade”. O conhecimento necessário para a
acção está intrinsecamente relacionado as auto-concepções do agente. A
pessoa do bem é aquela inclinada a agir de acordo com o hábito.
Transformar-se numa pessoa de bem é um assunto
relativamente não reflexivo. Os hábitos de carácter são obtidos quando
seguimos o exemplo daqueles já em posse da virtude. E as regras por sua própria
natureza, nunca podem ser aplicadas, de forma programada, aos casos
específicos. A phronesis revela a estrutura real do entendimento;
não como um sujeito conhecedor dominando um objecto, mas como uma experiencia
através da qual os preconceitos ou hábitos, passados através da tradição,
encontram o desconhecido e o conhecido. Todas as situações são experimentadas
como novidade e singularidade, mas a pessoa da phronesis
saberá como proceder, visto que os hábitos e costumes por si só são flexíveis e
adaptáveis (166-176).
8.5. Criticas descontrutivas:
TERRY EAGLETON: fala
de como as diferenças históricas são tolerantemente concedidas, mas
somente porque elas são efectivamente liquidadas por um entendimento que une
a distância temporal que separa o intérprete do texto. Não existem
diferenças persistentes nesta interpretação de Gadamer, pois elas sempre serão
neutralizadas pela tradição.
Seria possível ou desejável o outro numa condição de
“outro”, ou o outro deveria cair em alguma versão do mesmo? Eis a questão.
Em algum nível filosófico maior, a questão do outro
realmente emerge da filosofia de Hegel. Ele fala do Espírito que pode ser
interpretado como Deus ou razão, e o ponto, para HEGEL, é demonstrar que
o desenvolvimento da história do mundo é, sincronicamente, o desenvolvimento
do espírito vindo a conhecer a si mesmo. Porém, não existe sentido real do alter
no sistema hegeliano. Porque? – Tudo se revela como sendo espírito em
algum modo determinado ou aparência.
Gadamer não vê nenhuma diferença entre o hermenêutico
e o dialéctico. Gadamer ao enfatizar o diálogo como veículo para o
movimento do pensamento na linguagem, ele está ciente da possível crítica da
posição hegeliana. Ele rejeita o monólogo hegeliano do espírito se articulando,
mas afirma a ideia de enriquecimento da tradição nas conversações infinitas.
Gadamer contra Hegel diz: não existe ponto final para a tradição, onde tudo
é resolvido e as alienações são superadas, pelo contrário, a conversação que
somos é interrompível.
A crítica das hermenêuticas foi antecipada por Jacques
DERRIDA. Gadamer consistente com a sua suposição de que o diálogo é sempre
possível, ele continua buscando uma posição em comum com a desconstrução de
Derrida. Para Gadamer, a linguagem opera baseada na suposição de que dentro
dela procuramos entender e sermos entendidos. Derrida se concentra na referência
de “boa vontade” e, a sugestão é de que Gadamer afirma algum tipo de “ideia
kantiana da boa vontade”, e de que isso fica um pouco distorcido naquilo que
Derrida chama de “boa vontade ao poder”.
Em pauta, para DERRIDA, está a prática ou não da fusão
dos horizontes. A reivindicação hermenêutica de Gadamer é de que o
entendimento mútuo é possível porque o contexto do significado, o horizonte,
pode ser expandido para incluir outro horizonte. O entendimento de uma
forma de palavras é possível, para Gadamer, pois a negociação permite uma medida
de acordo, e o significado linguístico é, no mínimo, um acordo. Para
Derrida, o tipo de acordo que as hermenêuticas pressupõem precisam dar lugar à
indeterminação e diferença: o entendimento é sempre
entendendo-diferentemente.
Porém, se o termo “significado” para a desconstrução é
sempre o resultado de rupturas, disrupções e disseminações, não está longe de
asserções de GADAMER de que o entendimento é sempre entendendo
diferentemente (176-180).
CONCLUSÃO:
Constatamos como corolário desta odisseia pelo pensamento
Gadameriano que, ele dá enfâse no jogo como um movimento constante entre o
trabalho de arte e o observador. O jogo simboliza o processo constante de criação
e recriação dos SIGNIFICADOS e, mostra que estes, estão além do controlo
dos jogadores linguísticos. E dá enfâse no carácter do jogo na linguagem
onde as palavras são sempre maiores que o falante, assim como a equipe é sempre
maior que o jogador individual.
Para Gadamer, apesar das limitações de um individuo
numa linguagem específica, numa determinada cultura e numa visão global,
existe sempre a possibilidade de um entendimento transcultural,
almejando ambos, entender e ser entendidos. As formas de entendimento
interpretativo necessárias para que a comunicação seja possível numa
determinada cultura são as mesmas entre culturas. Uma ponte entre o passado e o
presente se torna possível através da TRADICAO, se estendendo das
culturas e línguas do passado para as mesmas do presente. E as pontes são cruzamentos
ente o presente e o passado.
Gadamer defende a necessidade de utopias e de uma esperança
secular para um mundo melhor. E suas hermenêuticas são contra as
divisões da filosofia (a analítica e a continental). E defende o diálogo, o
que significa que, ele promove a negociação e apresenta uma imagem da filosofia
em sua melhor conduta, no espírito de humildade e busca genuína.
Gadamer é contra
ainda o ESPECIALISMO: e fica claro que ele oferece sabedoria e não
uma filosofia específica, um sistema, uma epistemologia. Ele reintegra a
sabedoria, e na busca das hermenêuticas filosóficas por aquele entendimento que
junta todas as coisas e fornece um insight genuíno. E as hermenêuticas
de Gadamer são capazes de validar a reflexão filosófica e enquanto sincronicamente,
resistem a tentações da metafísica. As hermenêuticas vêem a história da
filosofia como o solo fértil no qual brotam questões filosóficas
contemporâneas. Por Fim, GADAMER defende que a linguagem, em toda a sua
diversidade, incluindo a literatura, a metáfora e a retórica, faz parte de
uma estratégia de entendimento! (181-186)
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