quarta-feira, 19 de abril de 2017

Resumo da Obra: LAWN, Chris. Compreender Gadamer. Vozes, Petropólis,2007. (Sérgio da Rita Lino).

Prefácio.
Gadamer tem como intenção fazer sentido do Entendimento humano como fenómeno filosófico, histórico e cultural. Qual será a sua ideia central?Todo o entendimento é diálogo. E quando isso se compreende? – Quando se faz conviver em harmonia as ideias filosóficas, literárias e científicas. (8)

INTRODUCAO
- GAMADER EM POUCAS PALAVRAS.
O pensamento de Gadamer nasce como crítica do discurso optimista da modernidade, que viceja de Descartes que considerava o método como um caminho para a verdade. Assim, Gadamer começa seu discurso fazendo uma reavaliação da ideia da TRADICAO (que o pensamento iluminista havia intentado se apartar) (11)
Gadamer defende a não questionabilidade da Tradição racionalmente, por isso considera de fictícia a ideia de que podemos nos desviar dos nossos pontos de referência para atingir a verdade. Outra coisa que Gadamer reavalia é a ideia do PRECONCEITO, que o iluminismo pensou ser uma forma distorcida de pensamento a eliminar antes de ver correctamente o mundo. E como defende Gadamer? – Os preconceitos estão presentes em todos os entendimentos. Porque? – Nós estamos inextricavelmente mergulhados na linguagem e na cultura. Os preconceitos são condições de entendimentos do que procuramos tornar compreensível. 
Assim, o ENTENDIMENTO é mesmo hermenêutico. Historicamente, a hermenêutica era “a arte de ler correctamente e interpretar de forma exacta os textos antigos” (como as bíblicas). E em Gadamer? – A hermenêutica se transformou num procedimento mais abrangente do entendimento em si, que ele chama de hermenêutica filosófica, que se caracteriza em termos de círculo hermenêutico. E CIRCULO HERMENÊUTICO quer dizer: “dar sentido ao um fragmento do texto é sincronicamente, interpretar o todo”. (12)
Gadamer encontra sua autoridade em Heiddeger, quem mostra como a interpretação do mundo é possível sem um pré-entendimento. Assim, o Entendimento é resolvido através do nosso ser no mundo. Porem, este entendimento, na óptica de Gadamer é orientado por aquilo que se chama de FUSAO DE HORIZONTES: a interpretação se situa dentro do horizonte mútuo do interprete e da coisa a interpretar.
O pensamento moderno de que o Entendimento depende de um distanciamento da TRADICAO, efectuado pelo método racional, perde importância quando visto pela perspectiva hermenêutica. E o que será a VERDADE para Gadamer? – Simplesmente o que acontece no diálogo (e não método). Actos de interpretação são dialógicos, isto é, uma conversação constante dentro da tradição. Gadamer alega que os significados nunca podem ser completos.
De que se preocupa na verdade Gadamer? – Com as concepções herdadas do mundo sobre a Verdade e Razão, isto é, com o restabelecimento e revisão das hermenêuticas antigas.

Gadamer e a filosofia analítica.
É necessário atentar para o facto do não reconhecimento de Gadamer por aqueles que trabalham a tradição anglófona. O que terá precipitado isso? – (i) ele não se enquadrava no perfil de um estereótipo filósofo anglo-saxão; (ii) sua concepção de filosofia era excepcionalmente ampla, que ultrapassava o género preferido pelos seus colegas ingleses e americanos (ele responde questões sobre as bases das ciências humanas e sua posição em relação as ciências naturais); (iii) fraca circulação da expressão “Hermenêutica filosófica” nos países da língua inglesa e (iv) pelo seu Historicismo: todo o entendimento é histórico, ou seja, pelo seu apego as tradições (15-23).

Segundo Lawn, a partir do séc. 18, com o pensamento científico, a cultura literária e a autoridade dos textos clássicos e canónicos, a arte, a literatura adoptaram uma posição subordinada. A expressão desta autoridade está em DESCARTES, onde fala da nova linguagem revolucionária da modernidade científica, da sua descrença autobiográfica da literatura e dos clássicos. Ele vê o mundo das letras como baseado em um mundo não auto-evidente, da especulação antiga e de opinião questionável. E o que faz contra isso? – Descreve o homem como uma máquina pensante capaz de alcançar o tipo de certeza a ser encontrada na geometria. 

Consequência desta ideia de Descartes e da modernidade, é da separação entre a CULTURA LITERÁRIA e a CULTURA CIENTÍFICA. Aqui nasce o fundo de exposição de trabalho de Gadamer. Como? – Gadamer aceita a existência de uma única cultura ou tradição, encorajando a busca de um idioma comum para entendimento das partes discrepantes. Assim, a Hermenêutica afirma a possibilidade de diálogo entre as culturas nacionais hostis. O entendimento transcultural e o diálogo estão sempre direccionados, mesmo que nunca perfeitamente obtidos. O DIALOGO pressupõe olhar para as coisas que compartilhamos em comum e que nos une como espécie, sem sempre fazer concessões à noção abstracta de uma humanidade comum (18).

Outro choque entre a filosofia ANALÍTICA e a CONTINENTAL. A *filosofia analítica considera o exame da linguagem como meio de obter a verdade. Vê nos meios linguísticos (em nossa disposição para falar do mundo) a possibilidade de uma resposta ou réplica exacta de um mundo. A *Filosofia Continental: a linguagem é fundamentalmente expressiva, expressando e constituindo o mundo social humano bem antes de ser capaz de descrever e representa-lo. Gadamer parecer fazer parte desta (19)

Mas o trabalho de Gadamer configura-se como uma ponte entre as duas tradições (analítica e continental) (20). E qual seria a maior contribuição de Gadamer? – Afirmar a Hermenêutica como um elemento no processo, acto ou evento de entendimento em si. Quer dizer, ela envolve mais que uma investigação filosófica das origens históricas e significativas das palavras, por mais que a Hermenêutica começa sua vida como procedimento ou técnica de interpretação dos textos sagrados.
Gadamer defende que as Hermenêuticas vão além dos limites da interpretação textual. Ele defende mesmo HERMENEUTICAS UNIVERSAIS: aquilo que acontece quanto interpretamos um texto é aquilo que acontece quando procuramos entender qualquer coisa em nosso mundo social. Quer dizer: leitura é interpretação, olhar é interpretação, pensar é interpretação (21-20). Gadamer se preocupa com o entendimento do que mais limitado e mais técnico conhecimento.

Gadamer vê na “apropriação e negociação diária do mundo”, o entendimento hermenêutico em funcionamento. Ele mata a distinção tradição literária e científica, ao defender o Entendimento como maior que a literária e a científica, por serem ambos formas de entendimento humano. Porém vê o entendimento como histórico (daí o historicismo seu), e assim nega que se olhe o passado como um “pais estrangeiro”, pois o presente e o futuro estão a ele ligados. Por isso defende o diálogo entre o passado e o presente. E a própria VERDADE é vista como Histórica.

Capitulo 2: O PROBLEMA DO METODO.
Discute-se aqui o papel do método na filosofia moderna. A procura de um método incontestável, e suas influências no desenvolvimento da filosofia moderna, são de importância para o surgimento de Gadamer (25).

2.1. Método e modernidade.
Gadamer entende que o surgimento do METODO como característica da filosofia moderna e depois faz uma reivindicação sobre a natureza do método em si. Ele intenta: recuperar e resgatar as ideias reprimidas e olvidadas pelo Iluminismo. Para ele, a fixação moderna do método ofusca formas alternativas de abordar a verdade (47-8).

2.2. Descartes e a busca pelo método.
Em 1637, com o “Discursos sobre o método”, Descartes, converteu as verdades das filosofias medievais e estabelece a agenda para um novo paradigma de conhecimento e verdade. Descartes desenha um método para obter a CERTEZA. E onde está a importância de Descartes? – Questionamento da legitimidade dos textos, cuja autoridade encontrava seu baluarte no apelo de uma auto-avaliação do poder da tradição. Grosso modo, Descartes funda o método científico ao pensamento filosófico.

Descartes critica as formas de conhecimento do passado devido as suas reivindicações duvidosas de legitimidade. Qual é o problema real da sabedoria clássica da Antiguidade, na óptica do novo espírito científico (fundada no cogito)? - É que sua autoridade pode estar fundamentada em preconceito, superstição, opinião, nas fantasias do costume histórico e nos julgamentos mal formulados daqueles que tem o insight e os princípios de questionamento científico. E assim, o argumento cogito (penso, logo existo) é visto, ao mesmo tempo, (i) como justificativa da verdade, (ii) como quem diz algo sobre a natureza do “eu” e das formas de conhecimento abertas a ele; e (iii) provador de que a verdade é atributo interno de conhecimento individual (48-50)

Descartes defendia a RAZAO como teste indicador das crenças e actividades social e nacionalmente aceitas. Dai que sua obra liga-se ao Iluminismo, que defende qualquer que seja prática legal, moral ou política, que não se sustente pela razão, como forca negra da reacção (51). A chamada RACIONALIDADE CIENTIFICA da era moderna é resultante da imiscuição do método e da razão: A modernidade confia no poder do método para estabelecer verdades auto-certificadas. E assim, as maneiras tradicionais de fazer as coisas são anátemas a era da racionalidade científica (52).

2.3. Gadamer e o método.
O que Gadamer faz, é questionar a condição do método e problematizar a super-dependência da Modernidade sobre a qual. Ele procura questionar a auto-segurança da era moderna e trabalha para reintegrar os aspectos perdidos com a adopção das crenças e doutrinas do iluminismo como a Harmonia, o senso do mundo e a tradição.

Gadamer intenta uma reconciliação deste novo método para a fundamentação do conhecimento com a Tradição (como uma forca mais fundamental), pois através da qual toda a actividade cultural é apresentada e sustentada (53). Gadamer nega a razão como crivo da tradição: a razão não pode investigar o status e as credências da tradição, pois o que definimos como racional esta imergido dentro da tradição, encontrando lá sua definição. Assim, a razão deve estar sempre dentro do contexto cultural e histórico. Nega-se assim o sonho iluminista (razão como ferramenta para investigar as credências da tradição).

Gadamer pensa, com razão, que a RAZÃO é aquilo que é transmitido na tradição, longe de ser aquilo que se coloca fora da tradição como teste imparcial. Ela é uma força vital inserida na cultura e por isso nunca pode ser esquecida e reduzida a uma mixórdia de crenças não-racionais. Porque? – As crenças e a racionalidade fazem parte de contextos maiores chamados TRADICAO, que é sinónimo do mundo da vida (a linguagem). Não se escapa da tradição porque estamos sempre nela. Ela é um aspecto da vida social “vedado” a investigação racional (54-55).

2.4. O restabelecimento da tradição, autoridade e preconceito.
*AUTORIDADE.
As vezes nos perguntam: com que direito algumas coisas existem, com que direito os reis governam, os servos servem e as palavras significam aquilo que significam? Com a autorização de quem?
O iluminismo defende a autoridade dependia da sanção, da aprovação da razão. E Gadamer? - Pensa que o “conceito da autoridade poderia seria visto como diametralmente oposto à razão e liberdade”. Assim, para ele a maioria da autoridade na sociedade não é subscrita pela razão, mas sim pelo poder e domínio. Ele associa a AUTORIDADE GENUÍNA com a habilidade de levantar as questões que fazer com que certos tópicos pareçam cruciais, importantes e merecedores de consideração (autoridade do professor). A autoridade vive nas questões apresentadas.
Para Gadamer, a questão da autoridade tem uma forte dimensão filosófica. E para ele ainda, são as questões apresentadas pelos textos, as mais importantes do que o protutor textual. Assere ele: “a autoridade é investida em indivíduos, mas sua fonte é reconhecimento e conhecimento”. Quer dizer: Ter autoridade é conhecer algo e o conhecimento é tradição (55-57)

*PRECONCEITO:
Para Gadamer, o preconceito fundamental do Iluminismo é o “preconceito contra o próprio conceito”. Assim, no Iluminismo, o preconceito tem um sentido negativo, ao invés do positivo. Certamente a ideia chave aqui é: “Não se faz julgamento com uma razão neutra, mas a partir de preconceitos, pré-julgamentos, isto é, de todos envolvimentos pré-reflectidos com o mundo que está por trás dos julgamentos”. Para Gadamer, deve-se saber o que esta atrás da razão e o que a torna possível, além de a tratar como fundamental, o que faz o iluminismo.
Na verdade, a tradição hermenêutica rejeita a ideia de que um mundo unitário dá acesso a um tipo de conhecimento. E as hermenêuticas revelam que todo ENTENDIMENTO HUMANO é basicamente interpretação (57-8)

*TRADICAO:
Gadamer defende fervorosamente que nós “sempre somos parte daquilo que buscamos entender [tradição] ”. Assim, acusa a ciência de ter uma tendência para “esquecer que o investigador ou pesquisador são parte daquilo que estamos investigando”. E qual seria o sonho real da ciência? – Abolir a especificidade do sujeito (subjectividade) e a generalidade da cultura do investigador, e centrar na suposta universalidade comum a todos os sujeitos. Supõe-se que a razão dá acesso àquela universalidade que transcende a particularidade do tempo e espaço. Mas Gadamer diz: os sujeitos e os objectos são indivisíveis.

E quais serão as consequências de um Mito do dado? – A linguagem é considerada como médium silencioso através do qual os pensamentos viajam. E assim, o pensamento precede a linguagem. E para Gadamer? - Não se pode colocar o pensamento antes da fala. Porque?Resulta em todo o tipo de bloqueios e problemas. A linguagem não é simples meio de comunicação, mas é uma forma de expressão; ela expressa a forma da vida.

Gadamer conclui que, a verdade como produto do método infalível, ignora as verdades da experiencia contidas dentro de uma tradição cultural comum. Ele quer que a Verdade não seja metodizada, pois ela não é algo que alcançamos e obtemos. EM SÍNTESE: Gadamer questiona as fundações do Iluminismo, rejeitando sua dependência numa concepção de método obtida dos procedimentos da ciência natural. Mas porque?Obscurece elementos da sabedoria e entendimento sobre o mundo.

Grosso modo, para Gadamer, as noções de autoridade, preconceito e tradição devem ser vistas como “próprios veículos da razão e libertação” e não obstáculos e embaraços para a libertação da razão. Sua posição é simplesmente um resgate de uma forma de entendimento do pensamento diário e da experiencia que ficou marginalizado. Para ele, a Hermenêutica descreve melhor o nosso relacionamento com o mundo, mas por causa de uma névoa do pensamento modernista, onde tudo é definido dentro dos limites do método, somos incapazes de perceber alternativas (59-63).
*A hermenêutica é vista como a forma primordial do ENTENDIMENTO: nós somos seres hermenêuticos dentro da tradição.

Capitulo 3: DAS HERMENEUTICAS ÀS HERMENEUTICAS FILOSOFICAS.
Busca-se: (i) acompanhar a história da Hermenêutica e (ii) o relato de Gadamer das Hermenêuticas livres dos métodos.

3.1. O que são Hermenêuticas?
GADAMER se volta para as Hermenêuticas como prática de interpretação textual para formular as chamadas hermenêuticas filosóficas, para *contestar a hegemonia da modernidade filosófica, ancorada nos métodos. E porque se volta para as Hermenêuticas? - Porque vê nelas uma forma de conhecimento reprimido e entendimento contido pelos procedimentos da modernidade

A hermenêutica defendida por Gadamer é UNIVERSAL: todos os aspectos do entendimento humano pressupõem uma dimensão hermenêutica (65). A maior intenção de Gadamer é de fazer com que a Dimensão hermenêutica da verdade fale mais alto. Ele entende que as hermenêuticas foram vítimas e não resistiram as ciladas da modernidade, quando foram colocadas em competição directa com a ciência, na qual estavam fadadas de perder. E como sair disto? – Seguindo as “hermenêuticas da facticidade” de Heidegger.

3.2. Hermenêuticas românticas.
A palavra Hermenêutica tem as suas raízes no termo grego “hermeneuein”, que é interpretar. Este termo está associado ao Hermes, o mensageiro dos Deuses, interprete dos desejos dos deities, fazendo com que os seus desejos fossem conhecidos pelos meros mortais. Porem, a TEOLOGIA PROTESTANTE (séc. 19) vê na hermenêutica, uma arte de interpretação com seus próprios procedimentos e técnicas. E algumas estratégias hermenêuticas nasceram quando o texto bíblico parecia opaco e resistia às traduções e explicações fáceis. E qual seria a regra? - O entendimento.
DANNHAUSER, SPINOSA, AST e WORF, estabeleceram regras para a interpretação correcta dos textos bíblicos, legais e clássicos. Porem, o trabalho que mais impacto teve nas hermenêuticas românticas foi do filósofo e teólogo alemão SCHLEIRMARCHER.

Schleirmarcher começa por rejeitar a “primazia” do princípio do entendimento sobre o do não-entendimento. Ele defende que “o não entendimento ou entendimento incorrecto” é algo que nos é concomitante em textos, mesmo nos facílimos. Schleimarcher desenha projecto de uma HERMENEUTICA GERAL: “não são somente os textos que demandam a interpretação; todos os modelos de entendimento demandam interpretação”. Tal hermenêutica se aplica a todas as formas de interpretação.
Ele faz estender o problema de entendimento aos falantes de línguas nativas, sempre que almejam fazer sentido do passado e do presente de sua própria língua. Schleirmarcher toma o CIRCULO HERMENEUTICO como o problema no âmago da interpretação. Ele pressupõe: entender a unidade do todo a partir das partes individuais e o valor das partes individuais a partir do todo. Quer dizer: “o todo deve ser entendido em relação as suas partes, e as partes ao todo”. O que isto remete no texto? – A ideia de que os significados das palavras em um texto devem ser tomados como uma unidade de significados, estando constantemente no processo de modificação em relação ao significado total latente no texto.
Schleiermarcher pretendia dizer que o significado textual é mais bem-entendido como uma transacção dinâmica entre as partes e o todo. Para ele, “é impossível conhecer a leitura de uma passagem em um texto sem saber – de maneira aproximada – o texto como um todo; e não podemos conhecer o texto como todo sem conhecermos determinadas passagens”. Conhecer o significado do todo requer conhecer o significado das partes individuais.

Schleiermarcher alarga o campo da interpretação, para além dos significados semânticos do texto, até aos significados culturais amplos e históricos, que auferem contexto ao texto. Assim, o significado é relativo ao CONTEXTO. Voltando ao Circulo Hermenêutico, há que questionar: como se libertar do circulo vicioso dele? – Entender os significados como constantemente redefinidos em relação ao contexto mutável.
É certo que, o círculo hermenêutico produz um espaço, uma lacuna entre o significado da palavra, a intenção do autor e o significado do autor. Isto impele Schleiermarcher a estabelecer uma destrinça entre dois tipos de Interpretações:
*Linguística ou gramatical: está no nível do significado sintáctico, isto é, regras da gramática. Tem a ver com a dedução da evidência de acordo com o uso de determinados tipos de palavras em relação as regras que as governam. Olha mais o que é compartilhado em linguagem.
* Psicológica: visa a busca da intenção do autor (o que o levou a escrever), isto é, o que distinto em um autor.

Grosso modo, a interpretação gramatical ou linguística é obtida através da compreensão dos significados comuns em uso e, a interpretação psicológica se refere as nuanças não capturadas pela interpretação gramatical. E quais as críticas de Gadamer a Schleiermarcher? Gadamer começa por elogia-lo por operar a mudança para uma hermenêutica generalizada, visto como momento primacial para a história da Hermenêutica.
Gadamer faz uma análise da divisão da interpretação operada por Schleiermarcher e constata que, enquanto a tal interpretação gramatical se limita aos significados linguísticos estabelecidos, a interpretação psicológica permanece no nível da individualidade. Daí que Gadamer começa por rejeitar a interpretação psicológica, pois tem como consequência: uma maior enfâse na subjectividade do autor, isto é, subordinar o texto e seu significado à psicologia do autor. E porque Gadamer rejeita isso? – Ele pensa que a divinação e a atenção psicológica se transformam numa fórmula ou método. E consequência disto? – Negligencia-se o papel produtivo do autor.

Para Gadamer, o entendimento hermenêutico é mais dialógico e interactivo, dependendo de uma versão colectiva de entendimento, e não um que se centre somente no intérprete. Gadamer aponta ainda como erro dos estudos de Schleiermarcher, fazer com que haja uma ausência de DIALOGO interactivo entre o texto e o intérprete, o todo e as partes, o passado e o presente. Acusa-o ainda de focar ainda na dimensão expressiva da linguagem (o poder do artista expressar sua opinião) sem olhar para poder da linguagem em si que revela a verdade. E esta para Gadamer, está poder de esclarecer os primaciais “assuntos em questão”. A principal crítica Gadameriana que tece-mo gravita em torno da distinção entre as formas gramaticais e psicológicas da interpretação, dando mais enfâse a esta última (66-74)

2.3. Hermenêuticas de DILTHEY.
Atentemos para o facto de que, os trabalhos de Dilthey e Heiddegger são decisivos na libertação das hermenêuticas do ónus metodológico. E o que Dilthey traz? – Começa por dividir o conhecimento em duas áreas: (i) ciências naturais e (ii) ciências humanas. As *CIENCIAS NATURAIS: tem a ver com a ciência pura da causa e efeito e as *CIENCIAS HUMANAS: todas as ramificações do conhecimento, preocupadas com o entendimento da prática da vida humana (economia, história e filosofia…). E o que lhes distingue? – Seu objecto. As ciências naturais têm a ver com explicações, e as ciências humanas têm a ver com o Entendimento.

Porém, o problema está nas ciências humanas e esta se expressa porque qualquer estudo da vida humana é que sempre nós estamos imersos no que procuramos entender. Assim, tentativas filosóficas de fazer sentido do homem e do mundo a partir de um ponto de vista teórico e racional são criticadas. Porque? – A reflexão filosófica ignora o pensamento pré-filosófico do mundo da vida e com isto, violência aos nossos relacionamentos diários no mundo. Os estudos filosóficos da vida são tidos assim como uma distorção, estando dependendo de formas de pensamento não relacionados com o carácter real dos relacionamentos humanos no mundo.

Dilthey entende os estudos humanísticos como uma parte da tentativa de entender o mundo num nível de experiencias vividas. Dilthey assere que o entendimento hermenêutico (quer entendimento da vida no mundo) está inextricavelmente conectado ao PASSADO. E são as categorias da vida que evidenciam que as interpretações no presente estão conectadas à sua história no passado. E qual será a maior contribuição de Dilthey? – Afirmar que *todo entendimento possui uma dimensão necessariamente histórica. E seu fracasso? – Não conseguir se libertar das restrições da busca pelo método, isto é, continuar acreditar na aquisição de conhecimento objectivamente válido (74-6).

2.4. Hermenêutica da facticidade de Heidegger.
O que fez Heidegger com “Ser e Tempo”? – Faz análises da existência humana (O Daisen), que dependem de um redireccionamento radical do círculo hermenêutico. E o indício real para a compreensão deste [circulo hermenêutico] é a plêiade de interpretações que fazem com que sejam possíveis outras interpretações. Foi ele quem genuinamente revelou a HISTORICIDADE DO ENTENDIMENTO e libertou as hermenêuticas de sua conexão na busca por um método paralelo às ciências naturais.
E o ponto básico de Heidegger? – Afirmar que antes podermos interpretar correctamente o mundo, precisamos de estar cientes de que certas coisas não podem, por si só, serem interpretadas subjectivamente como são aquelas coisas das quais as interpretações defendem (pré-posse, pré- visão e preconcepção). Heidegger tenta mostrar que as condições que possibilitam o pensamento são estabelecidas antes de nos mergulharmos em actos de introspecção (e não autogeradas como pensava Descartes). 

Heidegger defende a existência de algum senso, algum juízo no mundo antes de começarmos a fazer julgamentos sobre ele. Na verdade, nos já estamos envolvidos no mundo bem antes de se nos apartar do mundo teoricamente para procura-lo entender filosoficamente. Nós começamos com envolvimentos práticos no mundo, actividades e formas de socialização. Heidegger expõe a estrutura da hermenêutica no âmago da existência.

O daisen se posiciona assim no mundo de sua própria criação, através de um entendimento deste mundo. Mas entendimento diário não é reflexivo, mas é com ele que estabelecemos um relacionamento com o mundo e, involuntariamente, adoptamos um modo de ser hermenêutico. E porque hermenêutico? – Porque o Daisen, através de seus envolvimentos práticos no mundo já culturalmente interpretado, está se projectando constantemente para o futuro. Não se pode entender a existência humana como presa nos pré-entendimentos, pois elas são a condição na qual buscamos entender o mundo de modo explícita e autoconsciente. Para Heidegger, nós estamos sempre interpretando o mundo, mesmo antes de tentar algum tipo de entendimento filosófico dele: “o pré-afirmativo aparece antes de reflectirmos sobre ele”.
Heidegger olha para o CIRCULO HERMENEUTICO como projecção interpretativa do Daisen sobre o mundo na forma de projectos individuais, das actividades e da pré-estrutura de fundo que informa os projectos e está em constantes movimentos com eles. Na verdade, o movimento da teoria da interpretação para a interpretação em si, é um movimento para a actividade prática. Grosso modo, Heidegger afirma que *“existe um movimento hermenêutico constante e sempre presente na estrutura do entendimento da vida diária”. Este é o marca-passo para Gadamer!

Nota:
Com Schleiermarcher, Dilthey e Heidegger: (i) as hermenêuticas se transformaram numa forma de descrição da natureza do entendimento humano diário (não apenas forma de leitura e entendimento dos textos); (ii) o círculo hermenêutico se transformou numa maneira de descrever a estrutura do entendimento humano e (iii) a experiencia, o pensamento e linguagem são vistos como hermenêuticos.

Capítulo 4: A VERDADE SEM MÉTODO.

4.1. Gadamer e a verdade.
Gadamer critica severamente a ideia moderna do método e sua influência. E a leitura de Heidegger do círculo Hermenêutico oferece marca-passo real para a contribuição de Gadamer ao pensamento moderno. Gadamer começa por rejeitar a ideia ortodoxa da verdade como correspondência, representação ou adequação. Assim, o entendimento heterodoxo da verdade está no seu projecto geral.
A teoria Platónica foi responsável pela noção de que “a verdade afirma uma correspondência exacta entre a percepção humana e a maneira como o mundo é”. Gadamer rejeita que a verdade se confunda com teorias filosóficas da verdade (vista como correspondência) e as suas aspirações a objectividade. Gadamer pensa que isso tem como consequência “o encobrimento das verdades fundamentais”. E ele aponta três (3) experiências básicas da verdade – Arte, entendimento histórico e linguagem. Ele está cônscio de que, as verdades reveladas de todos estes modos de entendimento, podem se recuperar e restabelecer quando o entendimento mais fundamental da verdade for hermeneuticamente exposto. Gadamer considera o ENTENDIMENTO HISTORICO como uma experiencia da tradição

4.2. A verdade como experiencia
Gadamer analisa varias formas nas quais a natureza da experiencia pode ser concebidas. Ele aponta primeiro para o facto de que a verdade não pode ser capturada no interior da estrutura teórica. Ela deve ser participada ou encontrada: *é algo experimentado. GADAMER discute sobre a experiencia, aponta para o sentido da experiencia como ERFAHRUNG (pura experiencia) ao contrário da experiencia como ERLEBNIS (experiencia vivida) como a mais importante, isto é, experiencia hermenêutica. Para ele, em encontros hermenêuticos genuínos somos surpreendidos e insatisfeitos de maneira única e irreverente (atrevido).
O que será a verdade? – É uma revelação, isto é, aquilo que se manifesta no encontro entre o familiar e desconhecido. A experiencia genuína é hermenêutica no sentido de que “o movimento insolúvel entre a parte e o todo é uma característica chave da interpretação”. A experiencia da verdade é hermenêutica até onde a parte modifica o todo. E a experiencia da verdade encontrada no novo, o inesperado, está numa tensão com aquilo que já foi entendido. E quando a verdade adopta uma dimensão hermenêutica? – No desejo de assimilar ou entender a verdade, de acordo com o que foi experienciado.
Para GADAMER, o texto escrito não muda, mas o que muda são as suas possibilidades (de questionamento ou entendimento), pois elas são infinitas. Gadamer entende a Verdade como experiencia. E a experiencia é tida como aquilo que ensina algo e também as suas próprias limitações (e não faz seu detentor ficar mais sábio). Assim Gadamer acusa a versão ILUMINISTA da experiencia como um “acúmulo de conhecimento”, como optimista e arrogante sobre as infinitas possibilidades do conhecimento humano.

Gadamer entende que, o que podemos ter com a experiencia não é o conhecimento, mais um insight na fabilidade das possibilidades humanas e suas limitações essenciais. A experiencia é a experiencia da FINITUDE humana. A experiencia e insight fazem parte da sabedoria genuína (e isto perdeu-se na modernidade: esta se preocupou com a experiencia como acúmulo do conhecimento). A modernidade é acusada de olvidar o lado negro da vida humana e a ideia de que a vida é curta e nunca se compreende totalmente. Gadamer é ainda radical ao afirmar: “a dialéctica da experiencia obtém a sua realização plena na exposição à experiencia que se tornou possível através da experiencia (e não no conhecimento definitivo) ”

Gadamer, vê a experiencia como qualidade de uma pessoa não dogmática, aberta para novas possibilidades. E a verdade é vista como abertura a experiência (negando a ideia da modernidade da verdade como acúmulo de experiencias sob controle do método). A experiencia é tida como forma de entendimento; e este, principalmente como auto-entendimento de si para si e como um fragmento da tradição hermeneuticamente relacionada à totalidade.

4.3. A verdade é histórica.
A hermenêutica contesta o ponto de vista dos ANALISTAS segundo a qual a verdade é imutável, é a-histórico porque, segundo eles “qualquer coisa que muda com a passagem de tempo não pode ser verdade, pois a verdade é infinita e imutável”. Gadamer afirma que a verdade é histórica pois “os preconceitos do individuo, mais que seus julgamentos, constituem a realidade histórica do seu ser
Gadamer nega a ideia de enfâse sobre o individuo em si, visto como fonte de conhecimento e insigt, grassada pela modernidade. Segundo ele: antes dos indivíduos procurarem entender a si mesmos como subjectividades, precisam entender a si mesmos como identidades erguidas, socialmente e culturalmente atribuídas. Isto não quer dizer que somo fantoches da história? – Não. A sugestão de Gadamer é de, nós somos controlados por preconceitos herdados da vida histórica. O senso do Eu (revelado na busca pelo auto-entendimento) acontece sempre dentro do contexto da realidade histórica. Os indivíduos são arraigados e imersos num ambiente cultural especifico – a TRADIÇÃO. E esta para Gadamer, como o preconceito, partes do nosso engajamento no mundo (89-91).

4.4. A FUSAO DOS HORIZONTES e os problemas do entendimento do passado a partir do presente.
O termo HORIZONTE nas mãos de Gadamer funciona como a ideia de Humbult de que “a linguagem oferece ao falante sincronicamente, (i) meios de comunicação e (ii) uma visão global do mundo ou ponto de vista do mundo”. O conceito Horizonte pressupõe uma visão ampla de quem está precisando entender algo. Ter horizonte é ter uma perspectiva do mundo; e esta perspectiva é uma parte adquirida da linguagem. E consequência disso? O horizonte é linguístico: a linguagem oferece o horizonte como sendo revelação e limite.

Gadamer explica a FUSÃO DE HORIZONTES, que nós somos incapazes de sair da tradição. Ela é basicamente uma inspiração, e não pode ser totalmente obtida e finalmente completa. Porem, apesar de nunca obter total transparência do entendimento com o outro, a necessidade da interpretação é constante e sempre presente.
Certamente o horizonte não é fixo: muda constantemente e paulatinamente com o decorrer do tempo, por causa de um processo de expansão. O entendimento é assim sempre uma Fusão de horizontes (mutualidade de horizontes). Um horizonte pode ser colocado com outro horizonte em vez de obliterar o outro, acontece um processo de fusão. Entendimento não é a projecção por um sujeito de um significado num objecto inerte e morto: o presente e o passado têm horizontes que podem ser juntados produtivamente.
Falar de um texto antigo com um horizonte é falar de uma visão mais global. A visão global do passado faz uma declaração, através do texto, no presente. O texto antigo faz sua apresentação no seu horizonte. Gadamer rejeita a deslocação da subjectividade pois “todo o entendimento acontece a partir de um horizonte incrustado, sendo tal horizonte necessário e interconectado, de forma geral, com o passado”. E diz ainda: Nossas tentativas de auto-entendimento tem um elemento Futurista (projectamos sempre um futuro desconhecido), e nossos entendimentos no presente estão sempre relacionando e se fundindo com o passado.

4.5. Consciência histórica efectiva
Isto quer dizer: a linguagem através da qual articulamos o presente ressoa os significados do passado, continuando operativa no presente”. Gadamer defende que a posição do intérprete ou daquele que procura entender não é fixa: o intérprete é, como parte da tradição, efeito da interpretação prévia. O local da interpretação é, por si só, efeito do passado sobre o presente.
Para Gadamer, nós somos cônscios da tradição e de seus efeitos. Mas os preconceitos do individuo jamais podem ser colocados no mesmo nível da consciência. Porque? – Os preconceitos são, por si só, a condição da consciência. Assim para Gadamer, a consciência no acto da leitura jamais está totalmente presente em si, mas fica ciente das mudanças acontecendo (naquela consciência) à medida que o texto tem um efeito.
Gadamer procura eliminar a ideia ortodoxa de que a “consciência é reflexão totalmente em controlo de si mesma”. Ele concebe-a [consciência] como sendo activa e reactiva. Considera-se ainda o leitor como parte do efeito histórico. Gadamer afirma existir um diálogo constante na interpretação entre o passado e o presente e assim, não existem significados externos a actual consciência. O SIGNIFICADO não passa de um produto da união entre o imediato e o ponto de tradição a entender.

4.6. O diálogo.
Para GADAMER, o entendimento é sempre o diálogo (com o passado ou com o outro); é dialógico por natureza. O carácter do diálogo é sugerido na fusão de horizontes, porque quando os horizontes fazem conexão eles se engajam em diálogo. O entendimento pressupõe acomodação do Outro (que é fusão de horizontes).
Gadamer ilustra suas hermenêuticas do diálogo, enfatizando dois aspectos da história da filosofia. O primeiro trata da releitura radical do diálogo inicial de Sócrates. Vê-se Sócrates como alguém que fala de si mesmo como parteira. Assim, Gadamer perfilha o verdadeiro nascimento da verdade como o que acontece no diálogo genuíno. Quem está engajado no diálogo deve facilitar o nascimento da verdade como uma parteira. A verdade somente pode emergir do diálogo, essencialmente em uma conversação com e dentro da tradição. A verdade é diálogo.
E um diálogo genuíno é caracterizado por sua falta de inteireza (incompleto) e sua estrutura. E as conversações não são planejadas: o fim das conversas, ninguém o sabe, pois não são regidas por regras e convenções. A conversação genuína não é coisa que nos podemos conduzir, é aleatória! O diálogo autêntico deve revelar alguma coisa sobre os seus participantes. Ele é intrinsecamente falado (oposto ao pensamento escrito) e acontece em público. No diálogo genuíno, os participantes mudam. Quando? à medida que as suposições iniciais são desafiadas, modificadas, apresentadas para o escrutínio no tribunal público de apelos, e no diálogo em si. Em Gadamer, um diálogo profícuo é aquele que nos impele a ver as coisas de maneira diferente e sob novas perspectivas (96-98).

4.7. A lógica da pergunta e da Resposta.
COLLINGWOOD, filosofo e historiador alemão é tido como o criador do termo “lógica da pergunta e da resposta” e defende a tese segundo a qual “todos os textos filosóficos são respostas tentativas às questões formuladas nos textos anteriores”. Com isso, ele vai rejeitar que se julguem os textos filosóficos recorrendo a chamada “lógica universalmente válida” dos seus oponentes. Collingwood rejeita tal procedimento acusando-o de errar ao negligenciar a natureza essencialmente histórica dos textos anteriores (por ex: saber o que o autor pensava ao criar para si mesmo tais problemas; quais os problemas que herdou dos seus predecessores…). 
Para ele, a sua abordagem aos textos filosóficos produziria relatos mais interessantes e historicamente correctos. Collingwood vai entender que a interpretação do texto envolve o acto de engajar em um diálogo. Ele alerta para a necessidade de estabelecer uma obra antiga (como a República) em termos de questões que o autor procurou levantar em seu texto, o que pressupõe uma enorme quantidade de recuperação do contexto histórico envolvido na produção do Trabalho. O historiador da filosofia precisa ver um autor antigo através do lente do seu tempo e não do nosso.
E Gadamer critica esta visão de Collingwood de impor categorias exclusivamente contemporâneas a trabalhos antigos. Porque? – Isto silencia, faz calar o texto, recusando um engajamento em diálogo. Critica ainda sua lógica de pergunta e da resposta por não conseguir reconhecer a HISTORICIDADE DO HISTORIADOR: não conseguir perceber que o intérprete é também um efeito da tradição e da história, e por isso não interpreta a partir de um ponto fixo.
Enquanto para Collingwood é sempre possível usar a lógica da questão e da resposta para obter a fidelidade na recuperação e revelação do significado original do texto, para GADAMER, o significado do texto está mudando constantemente: a interpretação e reinterpretação são incessantes. Gadamer diz: fazer sentido a um texto antigo é uma questão de engajar em diálogo com ele. O horizonte do texto apresenta questões ao intérprete e o intérprete define as questões em relação àquilo que foi levantado no diálogo. Gadamer diz que a interpretação não deve se limitar nas questões do que foi expresso no texto (99-102).

Capitulo 5: Gadamer sobre a linguagem e a linguisticidade.
Para Gadamer, experimentar lugar na história, dentro da tradição é uma forma de encontrar uma verdade. A centralidade da linguagem está no âmago das tradições filosóficas.
5.1. Filosofia e linguagem.
Gadamer pensa, com razão, que a suposição da cognição (pensamento) como superior à linguagem que a expressava faz o pensamento ofuscar a linguagem. Certamente, o projecto central da filosofia desde os tempos antigos, era apreciar a centralidade do raciocínio.
O pensamento antigo da linguagem é basicamente DESIGNATIVA: a linguagem é um rio onde os pensamentos correm. A teoria designativa considera as palavras como representantes das coisas ou objectos. A linguagem é significativa porque podemos representar o mundo com exactidão, usando palavras para conversar com as palavras. Aqui a capacidade da linguagem em representar o mundo está subordinada ao poder das palavras em expressar algo relacionado com o que significa ser humano.
Segundo LAWN, a linguagem é fundamentalmente, um fenómeno social, cultural e histórico. Porem, a atitude hermenêutica à linguagem é basicamente EXPRESSIVA. A posição expressiva se distancia da ideia da linguagem como malha representativa sobre o mundo e acata algo mais parecido com um sistema de cifras, sustentado por regras de uso. O significado de uma palavra é definido pelas regras convencionais.
A fonte de significado linguístico seria a distinção principal entre posição expressivista e a designativa. O expressivísmo se refere ao poder da linguagem em expressar o que significa ser humano. Porem foram os filósofos analistas como Wittgenstein e Austin que demostraram da qualidade de FERRAMENTA da linguagem. E o que significa pensar na linguagem como ferramenta? – É adoptar uma posição não designativa.
A linguagem expressivista é constitutiva do mundo. Isto é aceite pela distinção Gadameriana de mundo e ambiente, sendo o que lhes distingue é a linguagem. E assim o mundo é que só possível pela linguagem; e, pelo facto de a linguagem ser um produto ou uma condição de vida social, nosso mundo é fundamentalmente social. Segundo LAWN, um dos pontos fortes da posição expressivista é a recusa em dividir a linguagem em literal e figurativa, pois ambas são importantes. Todas as linguagens vivas, a linguagem das conversas diárias, a linguagem da poesia, e a linguagem das propostas tem a expressão como âmago (103-108).

5.2. Discurso de Gadamer sobre a natureza da linguagem
Gadamer faz parte da tradição expressivista. E ele rejeita o discurso representacional da linguagem e o seu erro está na suposição de que, pelo facto de existir uma lacuna entre as palavras e aquilo que elas representam, uma linguagem pode ser examinada com exactidão científica. Como? – Supõe-se que o poder da representação pode ser avaliado com precisão e imparcialidade. Mas GADAMER rejeita isso afirmando “que nós já estamos sempre envolvidos com a linguagem e não podemos torna-la um objecto de investigação”.
Gadamer vê na conversação um papel importante e nega a possibilidade de nos desprender da linguagem: “nos estamos totalmente imersos na linguisticiadade”. E para GADAMER, entender fenómeno LINGUAGEM é procurar descobrir o que a linguagem é. E pensa ele, com razão, que todos os aspectos da vida têm uma estrutura linguística (108-109).

5.3. As hermenêuticas da palavra falada.
Acredita-se que a palavra falada tem maior peso (autoridade) sobre a escrita. Porem, isso acontece pelo facto de que a fala histórica, supõe-se, precedeu a escrita. A maior preocupação é de que as palavras congeladas na forma escrita, seriam mal interpretadas e distorcidas sem a presença do locutor para esclarecer as ambiguidades e os significados não intencionados. Na fala, a linguagem está se comportando na sua forma mais autêntica.
Gadamer considera como objectivo das hermenêuticas, a revitalização das palavras escritas em palavras faladas. Assim, ele favorece a fala sobre a escrita, isto é, a escrita parece um fenómeno secundário. Na fala, o pensamento é somente uma fala internalizada. Para Gadamer, a palavra escrita é alienada e inferior; e a tarefa do entendimento será a alienação com a leitura do texto.
Assim, ler um texto é ressuscitar as palavras mortas da página. Como fazer isso?Tratar o texto não como fornecedor inerte de significados fixos, mas como um parceiro no diálogo. E um diálogo é essencialmente falado e não escrito. E isso chama-se ENTENDIMENTO. E o processo de revitalização nos remete ao diálogo, a lógica da pergunta e resposta do entendimento histórico (110-11).

5.4. O que pode ser entendido é linguagem.
O objectivo da linguagem é comunicar e sem linguagem não haveria mundo:a linguagem trata da negociação e do acto de fazer sentido o mundo humano de nossa construção”. E onde vem o impulso de usar a linguagem? – Heiddegger responde dizendo que do desejo de interrogar e fazer sentido ao ser.
Gadamer entende que o significado real de comunicar não é a transmissão e a recepção de dados e informações, mas sim é aquilo que é compartilhado e aquilo que é mantido em comum. A linguagem é o meio através da qual conseguimos entender; e o ser é a leitura mais óbvia. Assim, “tudo aquilo que conseguimos entender sobre o SER é através do agente da linguagem”.
Gadamer quando diz “O ser que pode ser entendido é a linguagem” queria dizer que “tudo que pode ser entendido sobre o Ser é necessariamente linguístico”. Todas as nossas apropriações do ser, na realidade tudo o que fazemos e tomamos conhecimento são através da linguagem. A linguagem está em todas as partes e domina peremptoriamente nossa visão do mundo. Ela esclarece os aspectos do Ser, isto é, torna-o compreensível à consciência humana.
Assim, a tarefa hermenêutica é de descobrir e revelar o não dito, atraindo-o para um diálogo explícito com o dito. Quais as consequências dessa visão de Gadamer? – Acusação de defender um “IDEALISMO LINGUISTICO”, isto é, fazer da linguagem uma criação autónoma, um semi-desejo espiritual ou poder soberano acima das livres escolhas dos indivíduos autónomos. Defendendo Gadamer, ele não nega que a linguagem está sob controlo da subjectividade humana, mas nega que é o poder do pensamento que garante o significado linguístico e segue mostrando que ele é um produto da interacção dialógica humana. E finalizando, Gadamer acredita que a linguagem muda de acordo com as infinitas trocas dialógicas dentro do contexto da tradição e história, e está além do controle dos indivíduos (111-115).

Unidade 6: A ESTETICA DE GADAMER.
A arte é tida em Gadamer como uma experiencia da Verdade, ou seja, uma forma de verdade sobre o Mundo e não um estado alterado de sentimento individual. É ainda um ponto crucial de acesso às verdades fundamentais sobre nós mesmos que nenhuma pesquisa científica jamais conseguiu.
Gadamer é contra a relegação da arte a um status de ornamentação e deleite, simples forma de entretenimento sem contribuindo para o profundo entendimento do Mundo. Conceber a arte como deleite, para Gadamer, é-lhe fazer sucumbir nas emoções e sentimentos, sem sequer ser um insight filosófico e verdade científica. E Gadamer questiona o status da verdade da arte desenvolvida na tradição estética Kantiana.
Aponta-se para a República de PLATAO como o marca-passo histórico para a visão de toda a arte como inverdade. Para Platão o único caminho para a verdade seria a sabedoria filosófica: os artistas, os poetas, os dramaturgos são vistos como pessoas que não lidam com a verdade mas sim com a ilusão. Platão inaugura a tradição da suspeita filosófica de todas as formas da arte. Assim, para Gadamer, a arte não está receber o seu valor devido e a modernidade negou o status da arte como uma forma da verdade.
Gadamer diz que a ideia de que a arte está fundamentalmente preocupada com o sentimento (como Kant diz), é uma subjectivação da arte, ou, redução da arte a alguma variedade da experiencia pessoal. Gadamer acredita que arte é capaz de algo de maior importância do que o poder de gerar deleite, a arte associa-se a verdade. E assim, faz depender as suas hermenêuticas da ideia heideggeriana da arte como engajamento primevo com a verdade. Para Heidegger, a arte é reveladora e, é verdadeira: a arte, como a verdade em si, é uma manifestação aberta do mundo, ela revela. Tal revelação, muitas vezes, funciona como sua privação ou ocultação. A arte, como as outras formas da verdade, tem a capacidade de revelar ou ocultar (117-122).

6.2. A arte como jogo
Gadamer vê o jogo como uma faceta central da arte. E o que quer dizer com o jogo? – Ele encara o fenómeno real do jogo em sua variedade infinita: jogo da luz, jogo das ondas… O jogo é uma actividade que não é aleatória, mas porem, não tem objectivo óbvio ou ponto final teológico ou intencional.
O jogo é concebido como um constante movimento de-e-para, e Gadamer centra neste incessante movimento de vai-e-vem, porque ela revela algo de importante sobre a natureza da arte como sendo essencialmente incompleta e não completável. O significado dos trabalhos da arte é aquilo que é revelado e exposto na oscilação constante entre o trabalho da arte e o intérprete. O significado do trabalho de arte nunca é final, assim como um jogo não atinge sua verdadeira finalidade. Gadamer quer enfatizar com a noção do jogo que, assim como a arte, ele é mais do que estado alterado ou sentimento ou consciência estética. E Gadamer fala de dois aspectos do jogo: (i) dinâmica entre os jogadores e o jogo e (ii) relacionamento entre jogadores e os espectadores (jogar junto).
Gadamer passa a estabelecer uma analogia entre as formas de entendimento e os indivíduos. E considera reflexão individual como fragmento das estruturas hermenêuticas maiores (os círculos fechados da vida histórica), da linguagem e da tradição. Grosso modo, todos os trabalhos da arte, de alguma forma, se baseiam em jogos. Ex: Num drama, a audiência é essencial ao desempenho dos atores. O trabalho da arte oferece ao OBSERVADOR um mundo, um horizonte de significado. O trabalho da arte, opera em Gadamer, como um outro parceiro do diálogo e assim, a verdade e a arte são tidas como diálogos! (122-125)

6.3. Arte como símbolo e festival.
Dois aspectos da arte suplementam o jogo na estética de Gadamer, como o caso de SÍMBOLO e FESTIVAL. Deve-se entender o significado do trabalho da arte não como reduzida ou condicionada a uma história sobre sua colocação histórica ou seu posicionamento num género artístico específico. O significado do trabalho da arte é inescrutável e não imediatamente aparente; todavia, voltamo-nos ao trabalho da arte, em nossa busca pelo significado de nossas próprias vidas, como se ele pudesse completar o quebra-cabeças da existência. Para Gadamer, o trabalho da arte ocupa uma posição de um significado oculto que precisa ser esclarecido ou explicado. O trabalho da arte como um símbolo é um veículo para tentativas de auto-reconhecimento: Nós procuramos nos entender no trabalho da arte
E o significado do trabalho da arte nunca é completo: nós seremos capazes de reconhecer e conhecer novas coisas nele. Ele revela aspectos de um mundo humano e suas limitações. O verdadeiro ser do trabalho da arte jamais será totalmente compreendido; sempre haverá uma aura de singularidade e insustentabilidade em torno dos trabalhos da arte.
O que o símbolo e festival apontam? – SÍMBOLO aponta para o SER do trabalho da arte e FESTIVAL aponta para a REVELAÇÃO de sua temporalidade, seu relacionamento com o tempo da sua recepção e a noção de tempo que a celebração demostra. Uma ocasião festiva é sempre algo que nos enaltece, elevando os participantes além das suas existências diárias, a um tipo de comunhão universal. O carácter festivo do trabalho da arte está ligado às celebrações e lembranças de festivais.
O festival cria o seu próprio tempo, que irrompe através do tempo do relógio mundano. A arte é festiva no sentido de que ela também interrompe e desloca as nossas experiencias diárias e oferece uma oportunidade de interrogarmos nós mesmos e nossos engajamentos com o mundo de maneira díspar. A arte, assim como o festival, oferece a oportunidade da pessoa fazer inventário de sua vida, para pensar reflexivamente e deliberadamente sobre sua vida de uma maneira diferente.
O festival é igualmente um compartilhamento; une e reconcilia a comunidade de maneira mais íntima e crucial do que outras experiencias de solidariedade. Gadamer sugere que a grande arte nos une até onde nós a experimentamos como um todo maior. A arte é verdadeira. Porque? - Ela, como outras formas de diálogo, “diz algo para alguém”. Porque a experiencia da arte é a experiencia do significado; a arte é basicamente subordinada e faz parte das hermenêuticas (125-128).

6.4. Inclinação poética de Gadamer.
Gadamer vê ser na poesia (lírica moderna) a maioria das afirmações não distorcidas. E o que distingue discurso diário da poesia? – Vale dizer que a acrescente apreciação de Gadamer pela poesia o leva às interpretações da poesia contemporânea como o caso da lírica hermética. O jogo discutido como aspectos ocultos ou reprimidos da verdade do trabalho da arte funciona mais enfaticamente no âmbito da poesia. E o jogo se transforma numa característica primacial da linguagem em si. E a LINGUAGEM POÉTICA, a linguagem comum é separado de seus padrões diários e encontra novos modos de expressão. E o que Wiitigenstein ignorou como aspectos poéticos são a flexibilidade interna dos jogos da linguagem, sua capacidade de se transformar e se estender, pra trabalhar em novas regiões ainda desconhecidas (128-130).

6.5. Gadamer na linguagem diária comum.
Olha-se para linguagem como emergindo em sua autonomia total e se mantendo por si mesma: ela se apresenta diante de nós. A linguagem comum se assemelha a uma moeda que passamos entre nós no lugar de alguma coisa. E a linguagem poética é comparada com o ouro em si. A analogia sugere que as palavras em si têm valor sem as palavras poéticas.
O objectivo da analogia? – Sugerir que nos usos diários da linguagem “as palavras em si” (como sons e padrões estruturados do significado) são um veículo, através do qual passam os assuntos em questão, o objecto da troca. Por outro lado, “a palavra poética” não desaparece por detrás do assunto em questão, mas é manifestada como um assunto em si.
Vê-se o significado como não algo auto-suficiente ou algo acima ou além das palavras. A participação na criação das palavras acompanha o acto de falar. A linguagem está em seu estágio mais transparente quando a lógica da pergunta e da resposta está buscando e entendendo, sem muitos problemas, na rotina de trocas diárias de conversações.
A linguagem viva requer conformidade com as regras semânticas. Entender e fazer entender é também uma questão ética. Gadamer é da posição de que a luta além daquilo que é esperado, é o que a literatura em geral, e a poesia em especial, engaja como uma expressão dos significados do diário. A linguagem poética não está limitada a linguagem da poesia (lírica e hermética). O poema lírico resiste em paz a fácil transliteração: nenhuma tradução de um poema lírico jamais transmite o trabalho original (131-134)

6.7. O poema como texto eminente
Eminência é uma qualidade dos trabalhos poéticos. As composições poéticas são textos no sentido eminente da palavra. Neste tipo de texto, a linguagem emerge em sua total autonomia. Aqui a linguagem se mantem por si mesma: ela se apresenta diante de nós. A palavra poética é eminente.
Existe uma distinção entre a linguagem comum e a linguagem poética; sendo a primeira, as palavras desaparecem em suas funcionalidades, sumindo diante dos assuntos em pauta. E na segunda, as palavras adoptam a vida própria. Na linguagem comum, atentamos mais para a mensagem do que ao veículo. Segundo BRUNS: a “fisicalidade” das palavras através de seus sons, modulação, tonalidade, tempo, dinâmica e factores supérfluos na troca de informações da fala diária, ficam em evidência na manifestação poética”. A palavra poética, transcendendo a mera informação, interrompe o diário. A experiencia da novidade em relação ao texto é dramaticamente salientada no poema lírico.
Na linguagem comum existe um elemento de inventividade presente. A qualidade inventiva, auto-transformativa é enfatizada e intensificada na expressão poética. Na poesia lírica, Gadamer alega que o poeta “libera a multidimensionalidade das associações do significado que é suprimido pela utilidade prática da intenção na fala diária”. Com os usuais pontos semânticos de referências distorcidos e deslocados no poema, a tarefa hermenêutica fica mais complicado. As palavras se estendem, movendo-se em uma nova dimensão espacial desconhecida na tradição. O significado é basicamente um DIALOGO, uma negociação entre o poeta e o leitor.
A linguagem poética não é uma única instância da linguagem em jogo. Porque? – O elemento da diversão nunca esta longe até mesmo nas manifestações rotineiras das conversações diárias. Existe um ponto de encontro quando Wittigenstein e Gadamer falam respectivamente de “jogar” e “diversão no jogo”. O acto de jogar é uma actividade regulada e a diversão no jogo resiste a codificação, isto é, resiste a regulamentação. E conclui-se que todas as formas da arte são um jogo. O jogo transforma os jogadores e a si mesmo à medida que revela algumas estruturas dimensionais da realidade, pois a transformação é uma transformação para a realidade.
O elemento do jogo no diálogo, elidindo a possibilidade de ocultação e identidade, é evidência forte de que a alteração e diferença levam vantagem sobre a identidade do significado em Gadamer (134-137).

UNIDADE 7: O CONTEMPORANEO DE GADAMER
Aqui aborda-se Gadamer depois dos 60 anos. Busca-se compreender a tentativa de “regionalização” da Hermenêutica até agora generalizada. Fala-se aqui do entendimento como arte prática.

7.1. Em busca da verdade e método.
Os insights básicos de Gadamer perduraram até seus últimos trabalhos, mas existem muitas mudanças. Assim, Gadamer começa a trabalhar sobre o trema SOLIDARIEDADE e seus resultados para as hermenêuticas, através de uma comparação com o conceito usado no trabalho de RORTY: Solidariedade. E também Gadamer depois vai dividir três áreas da aplicação das hermenêuticas em seus posteriores trabalhos como: (i) o papel do especialista na sociedade moderna; (ii) o carácter da prática médica e (iii) a natureza da universidade moderna (139).

7.2. Gadamer e Rorty sobre a solidariedade.
Gadamer discute percuciente o termo “solidariedade” em muitas das suas entrevistas, o que faz com que, durante o período pos-60 referências a tradição desaparecessem. Porque isso? – A tradição é um conduto através do qual fluem os elementos viscerais da vida social, conectando o passado ao presente e ao futuro. A tradição é o pano de fundo que suporta qualquer interpretação. E ela é baseada em acordos profundos que seriam SOLIDARIEDADE.
Gadamer aponta o comum e as estruturas implícitas dos acordos que oferecem uma plataforma essencial do entendimento como uma das principais características da tradição. E tem como sinónimos, a linguagem e a história. E qual a ideia em que GADAMER se movimenta? – “a pesar da tradição depender da solidariedade, há, muitas vezes, a esperança de que as solidariedades podem ser estendidas e expandidas”. O uso de GADAMER da solidariedade é mais plausível do que a de RORTY. A de Gadamer, é uma base discutível para um programa de valores éticos e políticos, superando a evidente dependência niilista de Rorty da contingência pura.
RORTY procura estabelecer uma base para o compromisso ético. E quais os pontos seus de encontros? – Rejeição de qualquer forma de fundamento não-contingente e não-histórico na natureza humana e proibição de qualquer recurso ao discurso abstracto e não-especifico de uma humanidade comum ou uma essência humana.
E onde se diferem? – RORTY: defender que a extensão e o grau de solidariedade podem ser aferidos “empiricamente”. Ele fala de PROGRESSO MORAL, que é descrito como desejo de estender a abrangência, na direcção da solidariedade humana maior, a habilidade de ver mais e mais as diferenças tradicionais (de tribo, religião, raças, costumes etc.) como não importantes quando comparadas com semelhanças em relação a dores e humilhações – a habilidade de aceitar as pessoas que são totalmente diferentes de nós como se fizessem parte integrante da nossa estrutura.
O progresso moral é gradativo e incremental, e possível através da construção a partir das solidariedades existentes e da imaginação de outras maiores. E como se obtém o avanço moral? – Através da imaginação da possibilidade de um ciclo cada vez mais amplo de solidariedades (e não por causa de um apelo a uma lei universal abstracta essencialista). Para Rorty é preciso evitar a crueldade e humilhação na busca de solidariedade. E considera ele, a imaginação literária como aquilo que oferece motivação para aumento da solidariedade. Para avançar e reforçar as solidariedades, precisamos criar novas narrativas e imagens das nossas próprias solidariedades.
O que é admirável em Rorty? - É a construção de uma ética da solidariedade a partir dos elementos essenciais (os acordos contingentes da vida humana). E em que peca? - Ao tentar levantar a cortina da fumaça e os espelhos da metafísica e da teologia, dos quais os apelos das ricas vidas éticas, muitas vezes, dependem. Roty defende solidariedades como CRIAÇÃO.
GADAMER defende as *solidariedades como reclamadas e reveladas dentro de uma malha de linguagem e tradição antes de ser, criadas, imaginadas ou inventadas. Defende que nos precisamos simplesmente nos *consciencializar das solidariedades. E Rorty continua defendendo que os horizontes morais são expandidos através da expressão literária de esperança e de uma aversão à crueldade e humilhação.
Grosso modo, Gadamer e Rorty desmoronam os fundamentos tradicionais da ética, fazendo apelo a “universalidade abstracta”. Suas mudanças para a solidariedade são tentativas de resgatar a ética do Niilismo infundado e potencialmente pós-moderno. Gadamer defende ainda ideia de uma humanidade comum, que é, porem, inflexível sobre a necessidade de enfatizar o comum ao invés da diferença. E Rorty defende que toda a solidariedade social pressupõe a ideia de “percorrer um longo caminho junto”.
E qual a vantagem das solidariedade de Gadamer? – Estão profundamente emaranhadas na malha (tradicional) da vida social e oferecem uma esperança mais realista para a expansão das formas de mutualidade e do comum, nas quais as solidariedades em si dependem. São exemplos de solidariedades de Gadamer genuínas para o futuro: luta contar o poder atómico, luta pela protecção legal dos animais, a natureza e as crianças etc. (140-146)

7.3. Hermenêuticas Aplicadas.
Será que a hermenêutica de Gadamer tem uma dimensão prática? – Eis a questão. O problema nasce quando se olha para as primeiras hermenêuticas (bíblicas e legais) como aquelas que deram orientações normativas para evitar qualquer interpretação incorrecta e sem se saber o que a de Gadamer visa. Porém, o trabalho de Gadamer é filosófico no sentido fenomenológico de abordar aquilo que realmente acontece. É um questionamento da natureza da interpretação em si.
Gadamer estabelece que a noção de aplicação das suas hermenêuticas está no âmago do entendimento. As hermenêuticas filosóficas têm dimensões práticas. Porque? - Podem modificar atitudes e práticas e podem oferecer novas perspectivas sobre actividades e práticas até agora não examinadas e consideradas como líquidas e certas. A aplicação é parte de todo o processo hermenêutico. Estas hermenêuticas aplicadas cobrem áreas práticas como a educação, crítica literária, psicanálise e prática médica. A preocupação de Gadamer é com a negligência do poder da tradição e da solidariedade na era moderna.
E ele afirma que as diferenças de status, controle e poder nas sociedades burocratizadas são manifestadas através da ESPECIALIZAÇÃO. E com relação a natureza dialógica da linguagem e do conhecimento é necessário nos recordar de que o tipo de controlo da linguagem e o mundo instrumental que a razão busca são irrealizáveis. Gadamer rejeita a visão holística técnico-científica, e acusa o especialismo técnico-científico de ofuscar as solidariedades fundamentais.
Questiona também a ideia do MÉDICO PROFISSIONAL como especialista técnico do corpo. E o que prefere? – Aquele médico que resgata o senso antigo da medicina como uma arte hermenêutica (como uma prática misteriosa e interpretativa). E, porém, Gadamer questiona o monopólio sobre a verdade médica do poder monolítico da tecnologia médica e da indústria farmacêutica. O profissional médico contemporâneo tem acesso a mais sofisticada tecnologia médica como os sistemas de suporte de vida, recursos para transplantar os órgãos ou programas de diagnóstico para os computadores.
A ciência médica vem se transformando em tecnologia médica, pois novas formas de conhecimento são transpostas e aplicadas, transformando o médico em um tecnólogo politicamente poderoso – um tecnólogo do corpo. Para Gadamer, a “tecnologização” do conhecimento, do mundo moderno, distorce o relacionamento tradicional teoria/prática. A medicina, diz Gadamer, nunca pode ser reduzida a uma mera habilidade. O que o médico procura trazer é a saúde. A prática médica é arte de cura.
O médico requer um tipo especial de julgamento (sabedoria prática) quando procura restaurar o equilíbrio essencial ou harmonia do paciente. O médico não deve ter ilusões de que está curando com técnicas intervencionistas. A medicina é ao mesmo tempo, uma arte e uma habilidade. E assim, o equilíbrio é exigido do médico e ele, precisa distinguir aquilo que ajuda o paciente e aquilo que deve ser deixado a cargo do futuro. A doença do paciente deve deixar o médico com um problema hermenêutico.
Gadamer sugere que, em nossa era científica, as distinções subtis são limitadas porque a tecnologia reduz artificialmente a necessidade de julgamento. E qual será o verdadeiro enigma da saúde? – “Quando tudo já foi dito e feito, o médico não está totalmente em controlo, e nem está jamais na posição de entender completamente a natureza da saúde, o corpo e a cura”. A saúde não pode ser explicada totalmente a partir dos domínios da província do mundo científico. A doença é um estado social, psicológico e moral de manifestações. Para o médico, mais fundamental que o entendimento geral é a gama de preocupações éticas relacionadas com o cuidado que o profissional demostra em relação ao paciente, e o cuidado que os pacientes exercem em si mesmos. E o que é ético é manifestado através do diálogo.
Para Gadamer, um bom médico tem boas maneiras como lealdade de carácter, cuidados, cooperação, percussão sútil, etc. É no diálogo com o paciente que essas características éticas são manifestadas, pois somente quando o paciente está na posição de articular a natureza da dor, do desconforto e da ansiedade é que o processo de cura pode começar. Boa prática médica é essencialmente dialógica. Gadamer fala do tratamento para enfatizar os aspectos que foram negligenciados da habilidade do médico: o tratamento é algo que vai além do mero progresso em técnicas modernas.
 A tensão crescente entre a tecnologia e a vida ética é descrita como característica base da modernidade. Diz Gadamer em Enigma da saúde: nosso problema é uma questão de encontrar um equilíbrio certo entre nossas capacidades técnicas e a necessidade para acções e escolhas responsáveis. O tecnocrata médico anónimo suplanta a ideia tradicional médico da família. Gadamer sugere a recuperação das formas de responsabilidade colectiva e pessoal, necessárias para rectificar o equilíbrio, sem lutar infrutiferamente contra a máquina. Para Gadamer, a boa pratica, médica ou outra, sempre terá o recurso total ou “destreza” para evitar sua total aniquilação.
A boa pratica, por causa da sua íntima ligação com a vida ética, depende da solidariedade social, precisamente o tipo de solidariedade necessária para desenvolver e resistir aos excessos da modernidade.
Gadamer discute também a questão da EDUCACAO SUPERIOR. Gadamer comenta a universidade como sendo um lugar onde as solidariedades são preservadas e reconfiguradas. Apesar de tanto a universidade moderna como a prática médica moderna, estarem sobre a ameaça da burocratização, Gadamer vislumbra um futuro de esperança. O instituto moderno do ensino superior, por toda a sua distância, sua especialização destrutiva e sua proximidade ao “negócio lucrativo”, ainda oferece a oportunidade de descobrir o “espaço livre”, não oferecido como um privilégio a uma determinada classe. E como funciona tal espaço livre? – Parece de duas maneiras: (i) É a oportunidade para a descoberta pessoal, um espaço longe da arregimentação da vida administrada, permitindo as possibilidades de criação pessoal. E (ii) É também lugar para forjar novas solidariedades. A universidade não é somente aprendizado; é um lugar onde a experiencia genuína é encontrada.
A universidade, apesar de estar sobre pressão do mundo dos negócios para produzir especialistas para o mundo, na realidade, tem o potencial de ser um modelo para solidariedade maior, uma universitas (mundo inteiro), onde o espírito de livre questionamento e a busca por um “espaço livre” preservam tudo o que é necessário para o potencialmente perigoso diálogo aberto do questionamento e descoberta pessoal. A ideia de uma independência continuada da mente ainda vive na universitas scholarum, ao “contrário da modelagem da consciência social pelos poderes do presente (146-156).


UNIDADE 8: COMPANHEIROS DE JORNADA E CRÍTICOS.

8.1. Gadamer hoje.
Uma das coisas incrivelmente antiquada nas defesas de Gadamer é a defesa de valores humanos em um mundo dividido, fragmentado e totalmente pluralista e o seu estranho respeito pelo poder da grande filosofia e literatura para moldar grandes mentes. Mais GADAMER é considerado como um dos heróis do pós-modernismo (157-8).

8.2. Gadamer e o pós-modernismo.
Chama-se pós-modernismo como um tipo de cepticismo erguido a partir de dúvidas e preocupações a respeito do pensamento iluminista. Ele é céptico a respeito (da):
*SUBJECTIVIDADE: Gadamer tem uma versão da subjectividade pós-moderna e isso expressa-se na ideia de que “a história não pertence a nós, nos pertencemos a ela”. Para ele, as forças da socialização e aculturação estão em jogo bem antes de qualquer movimento em direcção a auto-reflexão seja possível.
*ANTIFUNDACIONISMO: o pós-moderno é céptico a respeito das fundações do conhecimento. Este, acredita que o sujeito dá lugar a intersubjectividade ou a algo mais infundado e instável. As fundações do conhecimento para GADAMER, são uma rede de acordos e convicções sobre a qual a linguagem e a tradição são erguidas, e estas são dificilmente fundações, pois estão constantemente num processo de mudanças.
*RELATIVISMO: O pós-modernismo nega a possibilidade de verdade objectiva, isto é, afirma a natureza relativa dos sistemas de verdade, culturas e comunidades linguísticas. E Gadamer é um relativista sobre a verdade, ao afirmar que a verdade é histórica. Será que ele não fica na subjectividade? Não, na medida em defender a ideia da FUSAO DE HORIZONTES, tida como “possibilidade de estendermos nossos próprios horizontes culturais” para incluir e interagir com o outro totalmente estranho e remoto do nosso próprio. Gadamer é REALISTA PERSPECTIVISTA. Realista, porque diz que existe um mundo além da nossa percepção culturalmente condicionada dele. E perspectivistas, porque nunca conseguimos uma imagem clara daquele mundo, porque as interpretações mudam sempre.
*CIENCIA: Nega a ciência como discurso dominante. Gadamer nega todas as revindicações da ciência como discurso mestre e defesa do conhecimento como termómetro para mediar a validade de todas as coisas (158-160).

8.3. Companheiros de jornada: Wittgeinstein e Rorty
Gadamer tem semelhanças com Wittgeinstein: ambos são pensadores antifundicionais; ambos concordam que não existe uma matriz sólida, na razão ou na experiencia, sobre as quais o sujeito conhecedor pode fundamentar o conhecimento. Wittgeinstein desenha “o argumento pessoal da linguagem” para mostrar como a linguagem é essencialmente um assunto público: sua força vem dos acordos públicos, convicções e censos que constituem os jogos da linguagem.
Apesar de GADAMER não falar dos jogos da linguagem ele revela o elemento do jogo dentro da linguagem. O jogo da linguagem é projectado para mostrar como a linguagem é essencialmente prática (assim que não existe jogo sem jogadores, também não existe linguagem sem falantes). Ambos aceitam que a linguagem é uma prática: ela nunca pode ser transformada num objecto de investigação quase-científica. E negam a transformação da linguagem em um meio de comunicação mais técnica. Ambos concordam que a linguagem é primeiramente a linguagem do diário, isto é, linguagem da casa. E ambos compartilham uma desconfiança comum da tecnologia e a capacidade geral da modernidade de obscurecer verdades mais profundas. E onde diferem? – Trabalho de Wittgenstein tem um estilo fragmentado e aforístico. E de GADAMER, mais tradicional e menos experimental.
O outro companheiro é RORTY: a sua reivindicação é que a filosofia ocidental, desde o nascimento do modernismo filosófico, está sob o domínio de um mito poderoso sobre a natureza da verdade. A verdade humana é considerada como uma reflexão, uma imagem reflectida de como as coisas são, e a filosofia está presa a esta ideia como um relacionamento representativo exacto entre o observador e os objectos de observações. Rorty fala da necessidade de quebrar o entendimento dessa metáfora, e defende um procedimento histórico para tal; mesmo procedimento defendido por Gadamer. É para a concepção da filosofia como dialogo que Gadamer se volta quando busca o modelo mais dialógico e hermenêutico para a verdade.
A ideia da solidariedade assumiu importância maior nos últimos trabalhos de Gadamer e ainda mais importante na busca de Rorty por éticas em reflexão e política. O que Rorty encontra em Gadamer? – A ideia da verdade como diálogo. Isto é, a verdade como edificação, que oferece novas formas de falar e possíveis através do diálogo e conversação. E o termo “Edificação” de RORTY se aproxima ao “entendimento” de Gadamer. Ambos sugerem maneiras de construir pontes entre culturas desconhecidas e os jogos de linguagem, através do diálogo hermenêutico e conversação.
E o que os separa? – A contingência de Rorty, da qual todos os elementos da vida social parecem derivar, é menos fundamentada e arbitrária do que a tradição de Gadamer (que também carece de plausibilidade) (160-166)
8.4. Críticos de Gadamer.
HIRSCH: criticou Gadamer sobre aquilo que considerou indeterminação do significado evidente. Gadamer desestabiliza radicalmente o significado, de tal forma que a linguagem perde qualquer sentido de permanência e estabilidade. O que, para Hirsch, estabelece o significado, é intenção do autor. O significado é fixado pelo significado autoral e por isso Hirsch rejeita a suposta relativização e desestabilização do significado de Gadamer.
Pra HIRSCH, o significado de um texto é fixado pela intenção do autor: o texto é aquilo que o autor diz que é. Gadamer é acusado ainda de não conseguir distinguir SIGNIFICADO e SIGNIFICANCIA, este último que muda com o tempo. E o que os une? – Ambos apoiam a ideia de um cânon de grande literatura. Enquanto o cânon literário de Hirsch é fornecedor de ideias civilizadas imutáveis e conceitos, o cânon de Gadamer, está constantemente em um processo de redefinição. O cânon de Gadamer, como um parceiro de diálogo, está constantemente mudando. O cânon de Gadamer é constituído de textos, cujas vozes atraem o leitor para a conversação.
Na verdade, todo e qualquer texto, em algum ponto de sua história interpretativa são dirigidos a uma audiência. Nós nos engajamos nos horizontes de um texto quando eles nos atraem. O cânon de Gadamer não é um monumento congelado do passado, mas sim uma voz viva, sempre mudando na incessante conversação da humanidade.
HABERMAS: vê virtudes no renascimento das hermenêuticas de Gadamer: ele representa uma alternativa valiosa e oportuna ao positivismo nas ciências sociais. O que HABERMAS vai procurar? – Libertar as hermenêuticas filosóficas de suas defesas conservadoras da condição actual e da sua falha da instância crítica em relação a tradição. Habermas é caracterizado como um defensor do projecto do Iluminismo, e sustentáculo de sua agenda política de liberdade e emancipação.
Habermas defende uma versão da razão (razão universal), através da qual debates e posições rivais devem ser testadas. Defende razão a serviço do diálogo. Mas de acordo com a visão de Gadamer, a comunicação transparente e desimpedida será sempre uma opção; o diálogo é tanto sempre a negociação e articulação. A fusão dos horizontes, garante que alguma medida de esclarecimento do entendimento está sempre a caminho, se nunca finalmente concluída. Gadamer fala de uma confiança necessária em comunicação, uma confiança no desejo do outro no diálogo alcançar, em boa-fé, o entendimento. E para Gadamer, a vida social depende da nossa aceitação da fala diária como fidedigna.
Habermas quer aquilo que Gadamer quer, isto é, as formas edificantes do diálogo, mas aquilo que ele chama de “diálogo livre” somente é possível quando as estruturas da ideologia forem desarraigadas pelo poder da razão. E Gadamer acha inapropriada da ideia de libertação do poder confinado do dialógo. O diálogo não deve ser classificado como algum tipo de racionalidade métrica. A confiança de Habermas inspirada no iluminismo, do poder de se liberar das formas ideológicas opressivas da fala no interesse da emancipação política é duvidosa se analisada pelo outro ponto de vista das hermenêuticas filosóficas. Para Gadamer, a retórica faz parte da composição da linguagem da fala diária, e a ideia de escapar-lhe com o interesse de evitar manipulação social perniciosa é tão irreal quanto a tentativa de fazer dos preconceitos constitutivos da consciência um objecto de questionamento racional.
ESQUERDA POLITICA: questionam a aparente dependência irracional de Gadamer na ideia da tradição. Mas de facto, as Hermenêuticas de Gadamer não são um apoio ao conservadorismo e defesa do status quo e nem profundo conservadorismo político.
EAGLETON: diz que Gadamer esqueceu que a história é uma luta, descontinuidade e exclusão, isto é, ele dá a história, uma corrente contínua, um rio em constante fluxo. Conceber tudo à tradição submetendo a determinadas autoridades (políticas e outras) é uma indicação de uma política profundamente conservativa, evocando um poder assustador, manifestado pelo passado e o futuro.
A ideia marxista de EAGLETON, da história como luta, enfatiza um movimento opositor constante. Gadamer não fala de luta, porém, a dinâmica nas hermenêuticas representa um constante movimento. A tradição de Gadamer não é o peso apavorante das gerações mortas, mas uma intenção dialógica incessante entre o passado e o presente. A ideia de Eagleton de apresentar GADAMER como um conservador político é infundada, pois, Gadamer nega que tem alguma simpatia com as ideias do Socialismo nacional, isto é, ele fala de si como um liberal político.
O diálogo, no âmago das hermenêuticas, é, em termos filosóficos, uma admissão de que nenhum individuo ou comunidade tem acesso privilegiado à verdade. A partir daí existe a possibilidade para o Outro no diálogo. Gadamer enfatiza como John Stuart MILL, a fabilidade em assuntos humanos, e a natureza dialógica do entendimento como uma maneira de mediar divergências e crenças políticas opostas. E ele sugere também uma política de compromisso, encontrando o meio-termo, ouvindo a voz do outro. Certamente, existe uma política prática que nasce das hermenêuticas. E a política dele é democrática e igualitária, dependendo da participação de todas as vozes individuais.
Gadamer continua dizendo que o DIALOGO é uma estrutura do entendimento hermenêutico, oferecendo uma base para ética prática. O diálogo verdadeiro demanda atenção paciente à voz do outro. Gadamer encontra em ARISTÓTELES uma versão do círculo hermenêutico relevante à sua própria posição. Em Aristóteles a qualidade de bem é chamada de phronesis (sabedoria prática),um “estado consciente ou capacidade”. O conhecimento necessário para a acção está intrinsecamente relacionado as auto-concepções do agente. A pessoa do bem é aquela inclinada a agir de acordo com o hábito.
Transformar-se numa pessoa de bem é um assunto relativamente não reflexivo. Os hábitos de carácter são obtidos quando seguimos o exemplo daqueles já em posse da virtude. E as regras por sua própria natureza, nunca podem ser aplicadas, de forma programada, aos casos específicos. A phronesis revela a estrutura real do entendimento; não como um sujeito conhecedor dominando um objecto, mas como uma experiencia através da qual os preconceitos ou hábitos, passados através da tradição, encontram o desconhecido e o conhecido. Todas as situações são experimentadas como novidade e singularidade, mas a pessoa da phronesis saberá como proceder, visto que os hábitos e costumes por si só são flexíveis e adaptáveis (166-176).

8.5. Criticas descontrutivas:
TERRY EAGLETON: fala de como as diferenças históricas são tolerantemente concedidas, mas somente porque elas são efectivamente liquidadas por um entendimento que une a distância temporal que separa o intérprete do texto. Não existem diferenças persistentes nesta interpretação de Gadamer, pois elas sempre serão neutralizadas pela tradição.
Seria possível ou desejável o outro numa condição de “outro”, ou o outro deveria cair em alguma versão do mesmo? Eis a questão.
Em algum nível filosófico maior, a questão do outro realmente emerge da filosofia de Hegel. Ele fala do Espírito que pode ser interpretado como Deus ou razão, e o ponto, para HEGEL, é demonstrar que o desenvolvimento da história do mundo é, sincronicamente, o desenvolvimento do espírito vindo a conhecer a si mesmo. Porém, não existe sentido real do alter no sistema hegeliano. Porque? – Tudo se revela como sendo espírito em algum modo determinado ou aparência.  
Gadamer não vê nenhuma diferença entre o hermenêutico e o dialéctico. Gadamer ao enfatizar o diálogo como veículo para o movimento do pensamento na linguagem, ele está ciente da possível crítica da posição hegeliana. Ele rejeita o monólogo hegeliano do espírito se articulando, mas afirma a ideia de enriquecimento da tradição nas conversações infinitas. Gadamer contra Hegel diz: não existe ponto final para a tradição, onde tudo é resolvido e as alienações são superadas, pelo contrário, a conversação que somos é interrompível.
A crítica das hermenêuticas foi antecipada por Jacques DERRIDA. Gadamer consistente com a sua suposição de que o diálogo é sempre possível, ele continua buscando uma posição em comum com a desconstrução de Derrida. Para Gadamer, a linguagem opera baseada na suposição de que dentro dela procuramos entender e sermos entendidos. Derrida se concentra na referência de “boa vontade” e, a sugestão é de que Gadamer afirma algum tipo de “ideia kantiana da boa vontade”, e de que isso fica um pouco distorcido naquilo que Derrida chama de “boa vontade ao poder”.
Em pauta, para DERRIDA, está a prática ou não da fusão dos horizontes. A reivindicação hermenêutica de Gadamer é de que o entendimento mútuo é possível porque o contexto do significado, o horizonte, pode ser expandido para incluir outro horizonte. O entendimento de uma forma de palavras é possível, para Gadamer, pois a negociação permite uma medida de acordo, e o significado linguístico é, no mínimo, um acordo. Para Derrida, o tipo de acordo que as hermenêuticas pressupõem precisam dar lugar à indeterminação e diferença: o entendimento é sempre entendendo-diferentemente.
Porém, se o termo “significado” para a desconstrução é sempre o resultado de rupturas, disrupções e disseminações, não está longe de asserções de GADAMER de que o entendimento é sempre entendendo diferentemente (176-180).

CONCLUSÃO:
Constatamos como corolário desta odisseia pelo pensamento Gadameriano que, ele dá enfâse no jogo como um movimento constante entre o trabalho de arte e o observador. O jogo simboliza o processo constante de criação e recriação dos SIGNIFICADOS e, mostra que estes, estão além do controlo dos jogadores linguísticos. E dá enfâse no carácter do jogo na linguagem onde as palavras são sempre maiores que o falante, assim como a equipe é sempre maior que o jogador individual.
Para Gadamer, apesar das limitações de um individuo numa linguagem específica, numa determinada cultura e numa visão global, existe sempre a possibilidade de um entendimento transcultural, almejando ambos, entender e ser entendidos. As formas de entendimento interpretativo necessárias para que a comunicação seja possível numa determinada cultura são as mesmas entre culturas. Uma ponte entre o passado e o presente se torna possível através da TRADICAO, se estendendo das culturas e línguas do passado para as mesmas do presente. E as pontes são cruzamentos ente o presente e o passado.
Gadamer defende a necessidade de utopias e de uma esperança secular para um mundo melhor. E suas hermenêuticas são contra as divisões da filosofia (a analítica e a continental). E defende o diálogo, o que significa que, ele promove a negociação e apresenta uma imagem da filosofia em sua melhor conduta, no espírito de humildade e busca genuína.

 Gadamer é contra ainda o ESPECIALISMO: e fica claro que ele oferece sabedoria e não uma filosofia específica, um sistema, uma epistemologia. Ele reintegra a sabedoria, e na busca das hermenêuticas filosóficas por aquele entendimento que junta todas as coisas e fornece um insight genuíno. E as hermenêuticas de Gadamer são capazes de validar a reflexão filosófica e enquanto sincronicamente, resistem a tentações da metafísica. As hermenêuticas vêem a história da filosofia como o solo fértil no qual brotam questões filosóficas contemporâneas. Por Fim, GADAMER defende que a linguagem, em toda a sua diversidade, incluindo a literatura, a metáfora e a retórica, faz parte de uma estratégia de entendimento! (181-186)

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