Nayla FAROUKI e A
metafísica (Resumo da obra)
Por
Sérgio da Rita Lino & Mahomed G. Dita
Prefacio:
Fauroki é da posição de que
diariamente nos apercebemos do impacto da ciência e da tecnologia, na medida em
que o mundo é posto a nu e transformado. Mas a ciência e a técnica para ela não
fornecem no entanto a totalidade do sentido. É necessário o metafísico que
nasce na medida em que começamos a indagar (que as crianças e cada um de nos
dissimula no seu âmago).
Para Fauroki, o Ser que
durante a história surgiu com capacidade de pôr questões a si próprio é o
homem, por isso denomina-se o homem “per
se” como metafísico. Entretanto, discorrendo sobre a metafísica, a filósofa
entende que a metafísica começa onde
todos os saberes estabelecidos acabam, por isso a ciência não é metafísica!
A metafísica emana de uma investigação e interrogação individuais
e só é metafísico quem levanta com todo cuidado a questão do sentido, pois o metafísico é quem ousadamente levanta a questão do porque e não os cientistas
com a questão “como”. O Metafísico
tem na consciência de que essa questão [porque] é essencial, pois ela
permite proteger e manter a preciosa demanda de sentido.
Aristóteles vê a metafísica
como o mais importante “corpus”, porque trata
dos primeiros princípios sobre os quais se funda a totalidade da existência.
Fauroki assevera que “toda metafísica é pré-física”
pois desde antiguidade não existe conhecimento sem metafísica mesmo o
cientifico. Entretanto a metafísica é vista como um subconjunto da filosofia e
tem como função “conferir a ordem e
sentido a esse conjunto de interrogações fundamentais que rodeiam a totalidade
do discurso humano” sobre o mundo e sobre as criações.
PARTE I – DA EXISTENCIA AO SENTIDO.
Um universo infinito das questões
Segundo Fauroki qualquer que
seja a questão a propósito do mundo que nos rodeia levanta sempre a questão
da existência. Não se deve negar a existência de um objecto mesmo em
tropeço e a existência é fundamentalmente contingente.
Nenhuma existência particular é necessário daí que questão da existência sempre
é justificada (15).
Quando algo que existe é contingente,
é obvio levantar a questão da existência
das coisas. Essa tarefa é da metafísica, pois a sua missão é mesmo ir até
ao fim das coisas. Entretanto, diz a autora que, “se o sonho e a relatividade
do mundo nos incitam a aceitar que existe um mundo de aparências, podemos
levantar a questão do pode existir “por atrás” desse mundo das aparências”.
A questão da existência do mundo tal como o concebemos junta-se a questão da existência do mundo tal como o
percebemos. Numa linha profundamente metafísica, Fauroki diz que os
objectos – com as quais nós estabelecemos relações lógicas – possuem as mesmas características ontológicas
que os objectos percebidos no mundo exterior, ou seja, a sua existência ou não-existência
tem razão de ser posta em questão. A autora entende que duvidar as coisas não é
um acto gratuito e nem absurdo, pois esta dúvida mostra que a
questão metafísica apesar de não ter uma resposta simples e concisa, ela tem um
sentido! (17) Entretanto, a questão metafísica
está imbuída de significado mesmo sem ter resposta. Ainda, a questão
metafísica não pode ser considerada como desvio abusivo da linguagem como Wittgenstein
e os positivistas consideravam. Finalmente, Fauroki exorta aos metafísicos a
levantarem questões com sentido como da existência (18)
Nota: ate aqui tratamos da primeira questão – a questão da existência. A
próxima a seguir…
Na origem: o ser e o Eu.
A segunda questão aqui
debatida tem a ver com o sentido que as diversas existências devem
ostentar. Segundo Fauroki, uma existência tem sentido pela (i) sua origem (de
onde vem?), (ii) sua natureza (o que é?) e (iii) finalidade (porque é que
existe?). Mas o problema gira em torno de sabermos se a existência é um produto de acaso ou de um determinismo?
As respostas a esta questão
são diversas e ocupam a totalidade do campo conceptual do homem. Heiddeger: aparece a perguntar o porque
de existir alguma coisa ao invés de nada? Segundo Fauroki, o facto da
existência de alguma coisa pode ser admitido decorrendo da simples constatação
empírica. O metafísico sempre começa por admitir a existência, por mais que esteja
no mar das incertezas possíveis (o
metafísico tem certeza no existir).
Parménides resume essa certeza em duas
expressões: “o que é, é” e “o que não é,
não é”. O que quer dizer “ se o ser é, o contrário é verdadeiro, o não ser,
não é” (19). A não existência do ser não pode significar que o nada
sincronicamente é inexistente e impensável. Assim, o Ser seria qualificado pelo
facto de sua existência ser uma necessidade
e pelo facto da hipótese da sua não existência fosse contradição.
Indo para as questões
das origens dos seres, afirma-se “no princípio de tudo, existo…eu”.
Aqui a ontologia primeira (cuja a existência é afirmada por principio) passa do
objecto do conhecimento para o seu sujeito: o
facto de existirmos enquanto sujeito de conhecimento. Quem defende essa
tese da existência enquanto ostentamos conhecimento é o famoso (1) René Descartes, quando depois de uma
serie dúvida da existência, diz “penso, logo existo”. Então Descartes parte de
pressuposto de que este pensamento que lhe permite duvidar de tudo, esse
pensamento seria prova única da existência enquanto Ser pensante. Descartes
encontra neste [pensar] o ponto estável a partir do qual pode construir a
totalidade do conhecimento e da existência. Descartes era do entendimento de
que o ponto estável, o postulado
primeiro não se encontrava no mundo físico ou em conceitos abstractos como o
ser, mas na própria subjectividade pessoal a do eu.
Descartes distancia-se de Parménides na medida
em que perfilha que a questão da origem das
coisas é respondida pela individualidade da própria subjectividade ao passo
que Parménides dá resposta baseando-se no “ser
enquanto princípio” (21). Fauroki diz é com a metafísica cartesiana que
ocorre uma divisão da investigação metafísica no ocidente em 2 grupos: (1) os
que baseiam toda a investigação metafísica na questão do ser (Berkeley, Espinosa e Hegel) e (2) baseiam a metafísica
na questão da capacidade de conhecer,
construindo as suas posições a partir da posição subjectiva e existencial (Hume
e Kant).
É possível neste tempo
conhecer 2 blocos: uma trata a questão ontológica
de maneira extrínseca (interroga-se sobre a existência – necessária ou
contingente – do ser em geral e do mundo e particular) e outra da questão
ontológica de maneira intrínseca (interrogando-se pela subjectividade e a
posterior, o mundo exterior).
- Os mistérios da existência.
Aqui aborda-se a questão da existência da consciência. Foi
Descartes quem levantou com todo cuidado possível a questão da existência da
consciência. Vê, se o ser humano tem a
capacidade de simbolizar e representar as coisas por signos. Mas a linguagem
é tida como o sistema simbólico mais rico que o homem possui e graças a ela
pode exprimir o seu estado de consciência. Entretanto, em compreensão, a
associação de um objecto a palavra não depende de um arbitrário análogo. A
existência da palavra e o facto de ela designar um conceito preciso, revela a
tomada da consciência do conceito, da sua existência enquanto conceito, se o
que não poderia ser designado.
Daí que o papel
da linguagem no homem resume-se assim. Ela permite-nos (i)
conceptualizar e caminhar para lá dos conceitos na tomada da consciência da sua
formação; (ii) a comunicação e a criatividade, (iii) inventar palavras novas e objectos
conceptuais novos, (iv) levantar a questão sobre a sua própria existência. Através
dela nasce em nós a consciência da consciência [ter consciência sobre nossa
consciência]. Queremos dizer, “ a consciência humana é capaz de se ver a
funcionar e de exprimir aquilo que percebe através da palavra” (24), ou seja
quando digo – tenho consciência – já implica que tenho consciência do facto de
ter a consciência.
Mas será que a tal
consciência existe? (pergunta central). Para Fauroki se ela existe,
é a partir dela que derivam o discurso, a
acção reflectida e as construções conceptuais. Em torno da consciência,
constitui-se um indivíduo, com todas as suas contingências químicas, biológicas
e físicas.
A existência da consciência
não obedece as regras científicas.
Não se pode negar da minha consciência e da minha existência, pois ainda o princípio
da consciência é universal e aplicável a todo o ser humano. Entretanto
afirmamos que questão da consciência está ligada a questão da linguagem, ela
ainda está ligada a questão dos Outros como mostra o esquema.
Consciência = Linguagem = Outros
Quer dizer o individuo não
pode existir senão através da relação com o outro e este relacionamento é
condicionado pela linguagem. A linguagem é importante para a existência da
consciência reflexiva e através dela o ser é capaz de reflectir sobre a sua
consciência. Entretanto a minha consciência jungida a linguagem só pode existir
e manifestar com os outros seres humanos. Sem os outros a tomada da consciência
da minha existência não poderia existir nem ter lugar (26). Então quer-se dizer
que o Individuo só atrofia-se e perde a humanidade e morre!
Vale ainda salientar que a
existência primeira pode ser a do “eu” pensante. Depois nos apercebemos de Eu,
e esse eu não pode existir sem linguagem e nem sem os outros. Neste caso é
necessário ao mesmo tempo dar um valor
ontológico a consciência, linguagem e os outros.
Se eu existo é porque posso
edificar relações com os outros, pois essas relações e este outro têm de
existir. Cada individuo tomado a parte pode ser considerado como individual,
separado e ao mesmo tempo como parte de um todo (26). É necessário tomar em
conta que só os homens constituem as individualidades e não outros animais. Só
o género humano pode tecer laços simbólicos, contratuais, jurídicos ou
políticos. E, no entanto, o “eu” pensante de Descartes atrelado a linguagem
relaciona-se com o outrem (27).
Finalmente, quando falamos
da existência da consciência, da linguagem e dos outros estamos no campo
social: “ só a sociedade humana é capaz de se edificar sobre relações
simbólicas que se funda na linguagem e cuja existência cria relações
económicas, jurídicas e políticas”. Isto é um círculo fechado, em análise
profunda: partimos da consciência – vamos
para linguagem – passamos pelas estruturas simbólicas da organização social –
voltamos de novo a consciência.
Um Ser-para-a-sua-morte.
A terceira questão debatida
aqui tem a ver com um vivido simples e ao mesmo tempo terrível: a morte.
É uma questão que afecta a todos nós, pois a partir dela vicejam as nossas
perplexidades, as nossas angústias e nossas projecções para o futuro.
Enquanto a ciência nos
ensina que o cérebro humano é único a poder imaginar e conceber o futuro, mas
esta capacidade que ele tem trás consigo consequências como:
I – a nossa terrível capacidade de
sabermos que vamos morrer. Essa angustia para Heidegger é uma
metafísica, tão peculiar que o ser humano sente quando toma consciência. Pra
ele, o homem é um ser-para-sua-morte, um ser que desde o momento que nasce começa
a morrer. Para o ser humano, a morte é visto como objecto de fascínio e de
obsessão (29). Os rituais, o enterro, a complexidade das estruturas simbólicas
e comportamentais que rodeiam a morte mostram a importância dessa tomada de consciência:
- NO PLANO COMPORTAMENTAL:
segundo Freud a morte é uma espécie de forca cega que nos impele a agressividade e destruição.
- NO PLANO TEORICO: a vida
ganha sentido através da morte.
- NO PLANO METAFISICO: a
morte é o fim último de um estado de consciência, a constatação da sua própria
finitude.
Entretanto os ateus vêem a
morte como uma fabricação humana, desesperada, para dar um sentido a vida
através da imortalidade. Saber que vamos morrer implica uma questão do além,
pois a consciência individual tem muitos empecilhos em imaginar o seu próprio
fim (que é inevitável) (30).
Entretanto, o homem pode
imaginar na sua morte, mas não consegue imaginar no próprio nada. Quer dizer,
não nasce do revés para a consciência individual a hipótese de sua própria existência,
para lá das vicissitudes da sua existência na terra. A pergunta prevalecente é:
“terei eu uma alma imortal?”
Platão: encarava a existência da alma humana (imortal e
indivisível) sem fazer dela um objecto de introspecção. Entretanto, para a
ciência a morte sobrevêm da degenerescência do organismo. Segundo FAROUKI, a morte
ainda não revelou os seus segredos! Não nos é possível compreender a morte sem
antes definir a vida. O ser humano consciente da sua própria consciência, da continuidade
da sua própria existência, da fatalidade do seu destino, atribui a si próprio
um alma, uma essência impalpável, mas indivisível e indestrutível através da
qual mantem a sua própria unidade e integridade do seu ser.
A metafísica incessantemente
levanta a questão da alma porque está enlaçado a outras questões fundamentais
que os homens não conseguem resolver como a questão da liberdade.
Liberdade, vontade, responsabilidade.
Primeiro discutamos o
conceito liberdade. Uma das
definições da liberdade não passa de uma oposição ao determinismo que defende
que cada acontecimento é precedido por uma causa. Existem duas concepções deste
determinismo:
- Determinismo metafísico: defende a existência de uma forca superior cuja vontade intervêm sobre o meu
ser e me impele a agir deste ou daquele jeito. Indubitavelmente este ser
pode ser Deus. Na sua concepção, o ser humano, torna-se uma “marioneta”
(fantoche), cujas gesticulações não possuem em si qualquer sentido e mais nada
fazem do que reflectir os desejos e as actuações de uma vontade alheia, que sem
a qual esta não passa de um objecto inerte. Para Fauroki, esta tese não resolve
a questão da liberdade (33).
- Determinismo científico: defende que cada acontecimento está ligado ao outro acontecimento da mesma natureza,
sendo tão imanente como o primeiro. O materialismo baseia este determinismo
para cercear a liberdade humana a uma sucessão de acontecimentos químicos e
biológicos. Aqui continuamos em presença de marioneta
e este também não resolve a questão da liberdade e até anula-a.
Entretanto, segundo a
autora, a consciência da liberdade é
empírica, observável no quotidiano: alguém sente-se livre a partir do
memento em que tem a capacidade de uma decisão plenamente arbitrária e ter a
capacidade de executar uma acção ou seu contrario (34). A Tomada da consciência
da liberdade, por vezes pode levar a um comportamento absurdo, cuja razão de
ser seria a necessidade de afirmar a sua própria liberdade.
O acto livre, amiúde, é
livre, pois possui causas perfeitamente coerentes. Mas no sentido coerente, a liberdade não é um acto gratuito. A
liberdade é a tomada da consciência da minha própria responsabilidade por essa casualidade. Ela estabelece-se enquanto
afirmação de uma escolha e de uma responsabilização consciente (35). Segundo
Fauroki, liberdade é a faculdade lógica de rejeitar todo o determinismo (é a
não-determinação!). Essa noção da liberdade enriquece-se de um sentido mais
profundo, o da responsabilidade e o da moral. Se o ser humano é responsável
pela sua acção é livre. A tomada da consciência da minha liberdade significa
saber o que eu decido fazer, é agir com conhecimento de causa.
O grande porque
A pergunta de ouro é: Que sentido atribuir a existência humana?
Segundo Farouki é tão
difícil compreender o sentido da existência humana mesmo quando uma pessoa
afirma que existe, ostenta uma essência e liberdade. O homem, amiúde, têm-se
questionado: Porquê existe o ser em vez do nada? Porquê os Homens além de
bactérias e microrganismo? Porquê eu em vez de outro qualquer?
A questão do sentido da
existência humana revela-se ao homem na medida em que se confronta com o mal, a
morte e amor. Quer dizer, o homem ostentando conhecimento das coisas de
extermínio/destruição física (morte), tendo uma consideração da dor e da
miséria da vida, ele tenta buscar as explicações metafísicas para melhor
compreender esses fenómenos. Essa inquietação metafísica pode nascer da arquitectónica
humana de que a não-existência humana pode também ser tão possível como a
existência.
Partindo desses pressuposto
Platão, filósofo idealista da antiguidade engendra que a questão da existência
humana não perpassa de uma apreensão e do reconhecimento do Bem. Ele é da ideia
de que a nossa existência adquire um sentido quando nós apropriamos e
reconhecemos a noção do bem, isto é, existe se faz o bem. Caminhando no mesmo
diapasão da tentativa de encontrar um sentido a auferir a existência humana,
Jean Paul Sartre entende que o sentido da existência humana é encontrado,
simplesmente na própria acção individual do homem.
Entrementes, fazendo uma
acurada hermenêutica ao pensamento da Farouki é conspícuo a pretensão dela de
afirmar que, as respostas a questão do sentido que o homem pode atribuir ao seu
próprio ser são, a menos indubitavelmente, metafísicas, sociais, económicas e
politicas. Quer dizer, o homem pode justificar a sua existência porque é
detentor destes ou daqueles bens (sentido do ser explicado na base económica)
ou existo porque sou isto ou aquilo (social).
Nesta, procuramos o Sentido
da existência humana numa perspectiva religiosa: no entender da Farouki, os
sistemas religiosos são quem, peculiarmente, adjudicam de maneira eficaz um bom
sentido a existência humana. Segundo ela, isto justifica-se pelo facto de: Ao
colocarem o valor da humanidade a um nível transcendente (já que depende de
Deus), as religiões dão a esse valor uma garantia absoluta, que não pode ser posta
em questão (40). Para os religiosos, o sentido da (s) vida(s) humana(s) e o
próprio destino da humanidade é explicado tendo como nó de estrangulamento, o
próprio Deus. Para estes, mormente, Deus
não passa de um “comandante máximo” da nossa vida; Ele é quem traça as nossas
vidas e calcula os limítrofes da nossa existência. Sendo Deus, um ser supremo,
invisível, quando os religiosos lhe atribuem o valor da nossa humanidade fecham
espaço para perguntas (dogmatismo). A ideia chave dos religiosos é que Deus é
quem dá sentido a existência humana. Quer dizer, eles têm ideias, em geral, de
que Deus estabeleceu efectivamente qual é finalidade para a existência humana e
a comunicou aos homens por intermédio da Bíblia e de outras formas de
revelação.
E qual o Sentido da existência humana numa
perspectiva metafísica? Para a filósofa, a metafísica pretende ser uma
cuidadosa investigação puramente humana para aceder o nosso sentido de
existência. Neste ingente trabalho da busca do sentido, a metafísica é impelida
a acentuar o valor interno do ser humano, isto é, ela antes de nada deve tomar
em conta a ideia de que o Homem não é apenas o que é externamente, mas
realmente aquilo que é internamente. A
metafísica sobrevive só e somente se, reconhece o valor intrínseco do ser
humano. Entretanto, ao Homem, o único valor que podemos atribuir sem
reservas e condicionamentos é o seu valor intrínseco, o seu valor enquanto ser
(40).
Segundo esta arquitectónica
de pensamento da filósofa, o valor intrínseco constitui o âmago, o nervo, a
víscera do Homem. Kant citado pela autora, assevera que o ser humano
simplesmente pode definir o seu próprio valor e sentido da sua própria
existência recorrendo a um princípio interior e nunca a um princípio exterior
(uma divindade). Quer dizer, o sentido universal para o destino humano é
possível encontrá-lo na humanidade tomada em si, isto é, como origem e fim.
Kant continua dizendo que ser humano só pode agir como ser livre, moral e
responsável se tomado como um todo, um fim-em-si. O ser humano não pode ser
encarado como resquício ou tomado como partes que compõe um todo, pois ele já
em si é um todo.
É então possível, na
concepção da autora, afirmar a humanidade como um valor absoluto a prior,
auferindo-lhe o valor de postulado que podemos operar a secessão radical entre
valor absoluto do homem e os outros relativos inerentes a este. Só para
terminar, é inócuo afirmar que a humanidade é que faz o ser humano, isto é, ele
vale por causa deste elemento tão pertinente. Ele vale pelo valor absoluto que
atribui ao ser e ao Ser de todos os indivíduos, membros da sua espécie.
Independentemente daquilo que nos somos, negro ou branco, sábio ou ignorante,
responsável ou inconsciente, o ser humano vale pela sua humanidade, isto é,
apenas pelo sentido absoluto que quererá atribuir ao seu próprio ser e além
disso, ao ser de todos indivíduos membro da sua espécie (41).
Os quatros estados do ser
A filósofa começa por
afirmar que qualificar Kant e Platão de Idealistas, Aristóteles e Locke de
empiristas e Kierkegaard e Sartre de Existencialistas isto não permite ver a dinâmica
que determina a evolução das teorias metafísicas e esta leitura clássica da
metafísica é assaz perturbante. Segundo ela, o metafísico não pode ser considerado como desligado do mundo quotidiano,
pois ele vive nele de modo pessoal e reflecte sobre o mundo tal como lhe
manifesta na sua actualidade (44). A metafísica também é uma disciplina que
deve ser entendida como ancorada no tecido do presente.
Mesmo no âmago do problema: a questão do ser. Esta questão é “pai”
de duplo problema da realidade e da verdade ou por outra, o problema do conhecimento e da existência. É aqui onde gravita a
metafísica e os metafísicos vão construir inúmeros conceitos novos!
Os seres imutáveis
Qual é a origem das coisas? Esta é a primeira questão
dos gregos. Eles queriam um conceito que fizesse que a totalidade da
diversidade existente pudesse ser determinada logicamente por ele. Tales e
Anaxímenes convenceram-se de ser água e o
ar tal princípio respectivamente.
Convenceu-se ser Parménides, o pai da filosofia por ser
o primeiro a levantar a questão do ser eliminando a questão ascética das
origens. Ele abre o caminho da existência. Mas segundo Fauroki, o problema dele
é de que o seu ser dificilmente pode dar conta da realidade móvel das coisas.
Entretanto, Heráclito postula o
Devir, uma espécie de transformação continua e dialéctica dos opostos. Mas peca
também porque o devir – o que esta sempre a mudar – é dificilmente cognoscível.
A solução no entanto, foi a
de procurar operar uma síntese entre as duas ideias (de Parménides e de Heráclito):
conservar a imutabilidade de ser e
acrescentar um princípio de transformação, para chegar-se a condição do ser
enquanto ser (47).
Já na filosofia grega pré-socrática
aumentaram os seres metafísicos. Foi então graças ao apeiron de Anaximandro ou aos átomos de Demócrito damos ao mundo
uma explicação única e unificada. O átomo é ao mesmo tempo substância que
subjaz aos fenómenos, a causa cujos efeitos são observáveis. Enquanto tal
trata-se de um princípio primeiro.
Foi com Platão que a
interrogação metafísica faz um progresso decisivo, pois ele levanta outra de
ordem lógica: é possível pensar um ser
tal que a sua existência seja absolutamente necessária? Um tal ser
existindo seria então ser chamado como Ser imutável, a que se define pela sua
própria existência. Graças Sócrates, abandona-se o mundo da natureza e passa-se
a interessar-se pela questão do comportamento e da moral. Assim nasce a questão
do bem, onde Platão deduz o mundo das ideias, de objectos perfeitos, dominado
pela ideia do bem. Segundo ele a realidade das ideias não pode ser posta em dúvida
(49).
O mundo das ideias de Platão
edifica-se para além da natureza empírica, e na base deste ele faz uma
distinção entre a realidade e a aparência. Na sua visão a alma humana aspira ao
bem supremo e ao mundo das ideias em que tem a sua origem e almeja reintegrar.
O conhecimento desse mundo da realidade passa pela reminiscência: a alma humana lembra-se do mundo das ideias, que
conhecia antes de se encontrar com a matéria.
De seguida, Aristóteles
reduziu o mundo das ideias a um mundo de princípios, que a lógica humana
constrói segundo categorias precisas. Esses princípios (O ser, a Substância,
essência e a relação) são construídos de uma maneira necessária e universal
pela inteligência humana. Para Aristóteles Deus,
Ser supremo e perfeito, seria a causa primeira da totalidade do mundo; é um
ser passivo. Nesta senda, a metafísica foi conhecendo sistemas religiosos que ultrapassariam
o mito como a maniqueísta: esta afirmava que o mundo conflituoso em que
vivemos é fruto da luta sem complacência de Deuses Ohrmazd e Ahriman. Assim
para ela a vitória do bem e do mal só é encontrada no fim dos tempos.
Plotino: vai tentar
estabelecer uma síntese entre Platão, Aristóteles e concepção maniqueísta:
tratava-se de abandonar as ideias todas platónicas excepto as do bem e da alma.
Vigora assim a ideia de um Deus de Bem.
Deus
A expansão do cristianismo
foi responsável pelo monoteísmo que
não tinha influenciado a filosofia grega. Com São Paulo, a filosofia grega começa
a interessar-se com Deus cristão. Essa teologia concomitantemente com a judaica
e a islâmica construíram o pano de fundo da metafísica tradicional. Com Aquino,
agostinho, Anselmo e outros a metafísica liga-se ao monoteísmo: o conceito passa a ser o divino.
Trata-se agora de um ser que é ao mesmo tempo transcendente, criador e pessoal.
O contributo do monoteísmo foi de resolver o problema do ser imutável
e original, reduzindo esta hipotética realidade a Deus, tido como o único ser
para o qual a necessidade da sua existência se confunde com essa mesma
existência. O exemplo nítido é a prova da existência de Deus de Santo Anselmo e Descartes. Para
Anselmo: Deus enquanto ser perfeito, tem de existir pois sem isso a sua
perfeição seria maculada. O monoteísmo introduz a problemática do individuo, do
“EU” e assim a face da metafísica vai mudando….
O ser-para-o-conhecimento:
O individuo passou a ser
visto no monoteísmo como uma entidade humana que um dia teria de fazer face à
Deus. Agora não se esquece o ser em sua versão imutável e original, mas
busca-se pela sua capacidade de conhecer: a
problemática do ser-em-si transforma-se em a da ser-para-o-conhecimento. O “eu”
enquanto sujeito torna-se o próprio problema de estudo.
Descartes: reconhece na sua própria dúvida
a existência do seu próprio entendimento. Separa a substância pensante da
substância material, que se caracteriza pela sua inércia e extensão (54).
Descartes chega ao Dualismo ontológico: a matéria e o espírito. O
ser-para-o-conhecimento associa-se a problemática clássica do Ser. A noção de “substância” e as diferentes facetas que
ela pode ter ocupam os filósofos: (1) Espinosa – fala de uma única
substância divina que se manifesta em matéria e espírito; (ii) Leibniz
– o existente é composto por substâncias indivisíveis, as nómadas que são
simultaneamente espirituais e matérias, dotadas de graus de liberdade e
consciência, também coordenadas pela sabedoria divina.
O problema do
Ser-para-o-conhecimento pressupõe saber – o
que é conhecer? (a questão do ser, do conhecer e a da sua natureza). O entendimento é visto como herói desta
investigação, este visto como “termo para descrever o que se produz na cabeça
de um individuo que procura obter uma certa forma de conhecimento sem utilizar
a palavra espírito”.
O entendimento nasce de uma
reflexão e não se submete a uma investigação científica. O entendimento – nosso
organismo de conhecimento – pode ser analisado graças aos processos que
manifesta ao funcionar: formação dos
conceitos, raciocínios etc. O entendimento permite aos filósofos unificar
sob o mesmo conceito as percepções, o raciocínio dedutivo e indutivo a
capacidade de construir conceitos de um raciocínio casual (58)
O entendimento torna-se,
amiúde, paradoxal: ora para conhece-la basta observar o seu próprio
comportamento perante o conhecimento, ora também trata-se de um objecto
empírico, observável por introspecção, de que podemos descrever o entendimento
como objecto no mundo. Mas para Fauroki, o
entendimento percebe e reflecte o mundo que o rodeia e não conhece o nada.
Segundo Descartes, o entendimento é passivo em relação ao mundo exterior, pois
duvidando da existência do mundo, ele tem necessidade de recorrer a existência
de Deus para garantir essa existência e realidade (58). Berkeley diz que o
entendimento não conhece o mundo exterior real, mas sim o divino.
Para Kant: o entendimento é
uma função puramente analítica cujo objecto é o mundo dos fenómenos. É um mundo construído no entendimento que
coloca os objectos que percebe num quadro espácio-temporal preciso. Conhecemos
o mundo situando-o no espaço tridimensional e num único sentido: o espaço e o tempo permite-nos apreender o
mundo segundo regras precisas. O nosso entendimento nos ajuda a criar uma
relação lógica entre dois acontecimentos. Para Kant, o entendimento humano
conhece o mundo dos fenómenos, não conseguindo atingir de maneira dialéctica os
números.
O estudo de Kant sobre o
entendimento termina em dualidade: separa o ser-para-o-conhecimento (cujo funcionamento
analítico permite conhecimento científico) e razão (cujo funcionamento
dialéctico permite construções metafísicas). Criticando a metafísica clássica
por não se integrar no conhecimento científico, Kant perfilha a transformação da metafísica numa disciplina
critica (60)
O ser-para-acção
O ser para Platão e
Aristóteles, era considerado perfeito e
imutável, esta característica aplicava-se ao Deus metafísico dos
monoteístas. O entendimento não era um ser perfeito e era caracterizado por
certas imutabilidade que permitia evitar a questão a sua eventual variedade.
Aristóteles tinha relegado
fora o campo da lógica porque era incapaz de produzir juízos necessários. Reaparece
na obra de Kant que considera como uma das principais ferramentas da razão.
Deve-se a Hegel o facto de readquirir um lugar predominante no mundo do
pensamento.
Hegel lança um olhar no
mundo que não permite dar dela uma imagem estática. As grandes explorações, as
descobertas, o advento de novas ciências, mostram que o mundo não funciona
segundo regras universais únicas, tal como Kant as concebia: O mundo e o
pensamento mudam (61-2). O princípio metafísico de base consiste em procurar o princípio
primeiro sobre a qual se pode fundar a diversidade. Hegel associa ao Ser um princípio temporal, a história e, um princípio
lógico, a dialéctica. Um ser é um contínuo devir. Portanto, o Ser para Hegel
utiliza a história, para aprofundar a sua compreensão de si mesmo. Assim já não
se define pela sua imutabilidade, mas pelo contrário, define-se sua transformação
contínua. O tempo e com ele, a acção e o
devir entram finalmente na metafísica.
Ao ser imutável, depois de
ser para o conhecimento, vem juntar-se do ser-para-acção. Para Hegel as três
noções não são antinómicas. O ser em si utiliza a acção para obter conhecimento
(62).
O contexto científico do
século XIX permite aos metafísicos afirmarem, de uma maneira mais deliberada, o
papel ontológico do tempo. Com efeito, é nessa época que nascem duas teorias
essenciais que afirmam o “tempo como principio primeiro”: (I) teoria da evolução dos seres que
constata na história da vida uma complexificação progressiva dos organismos.
(II) termodinâmica, que constata
através do seu princípio, uma diminuição progressiva da capacidade da energia
conservada para executar trabalho.
Dois tempos opostos emergem
da teoria científica. (I) positivo
que permite que as estrelas se criem, que a matéria se agregue e que o ser vivo
cresça e se multiplique. (II) negativo,
mais global do que primeiro, assinala a paragem da morte do universo por
estabilização definitiva dentro de alguns milhares de anos (63). O
existencialismo, quer se trate do de Heidegger ou de Sartre, pode ser
considerado como uma reflexão sintética que procura renovar os laços entre o
ser imutável e original, o ser pensamento e o ser-agente. Devido a esta
síntese, o existencialismo não é nem uma filosofia da natureza nem uma teoria
do conhecimento, mas antes uma reflexão sobre a natureza a condição humana.
Um ser para Heidegger, através da angústia descobre a sua
verdadeira essência, composta simultaneamente pela primordialidade da sua
liberdade e pela imutabilidade do seu fim. Sartre compreende a sua acção humana
como a de um ser cuja essência não precede de modo alguma existência (Ibidem:
64). O sentido do mundo é aquele que nos lhe atribuímos. A metafísica está
morta mas nenhuma das problemáticas metafísicas morreu (65).
Da metafísica a ciência e vice-versa!
A metafísica, essa série inacabada de hipóteses
não verificáveis, poderá ser verdadeiramente considerada como uma disciplina de
saber ou existira, por um lado, um saber estabelecido e por outro, um saber
vago, aleatório, qualificado de metafísica? Esta questão não é nova;
com efeito, desde que a metafísica existe, os filósofos levantaram a questão da
sua legitimidade.
Ora, a metafísica foi uma
ciência primeira, as mais nobres ciências de saber. Segundo Aristóteles,
conhecer os princípios primeiros de que decorre a totalidade das outras
disciplinas (Ibidem: 69).
De Aristóteles a Descartes,
a metafísica no mundo ocidental ocupou o primeiro lugar entre as disciplinas do
conhecimento, foi considerada desde muito tempo como uma árvore geonológica dos
outros sabres. Depois o estatuto da metafísica mudou. Esta transformação foi
tão radical quando se funda a filosofia de Kant nesta questão “poderá a
metafísica ser uma ciência?”
Na óptica de FAROUKI, no
fundo no fundo, a metafísica não mudou nada. Foi o estatuto da ciência que, com
Kant, tomou uma direcção que talvez fosse apropriado por hoje em questão. Para
compreender esta questão é necessário procurar na história moderna e da
metafísica, aquilo que permitiu Kant levantar questão da legitimidade
científica da primeira disciplina da filosofia (70).
A natureza da metafísica
Santo agostinho e São tomas
de Aquino quanto a reflexão teológica e filosófica estivem estreitamente
ligadas. Com o renascimento surgiu uma maneira dogmática e impelia os homens a
agir em toda direcção.
Ciência e o racionalismo
Nesta época, Galileu trazia
elementos de informação que permitiam por seriamente em dúvida o dogma
aristotélico segundo o qual as esferas celestes eram perfeitas e imutáveis. A
partir dos seus cálculos laboriosos.
Kepler: apresentou-se para sua grande surpresa e
desolação, que “a trajectória do Marte se
parecia muito mais com um eclipse do que com circuito” destruindo assim o
dogma ptolomaico e ao mesmo tempo de Copérnico, segundo a qual os astros se
movem em órbitas perfeitamente circulantes. Assim, o debate situava-se entre a
nova ciência era ciência aristotélica.
Bacon e Descartes, respectivamente no “novum
organum” e no “discurso do método”, propunham uma nova ambição ao conhecimento
humano: tornar-se senhor e possuidor da natureza (Descartes), obedecer a
natureza para melhor a dominar (Bacon) (Ibidem: 74).
A ciência de Aristóteles era
uma ciência de observação a olho nu e de raciocínio baseado em princípios de
necessidade do domínio do consenso comum. Assim, se Aristóteles e a grande
maioria dos seus sucessores tinham escolhido posicionar a Terra no centro do
sistema solar por razões fundadas na observação e no raciocínio (Ibidem: 75). Os
argumentos dos antigos não eram, pois, absurdos e desprovidos de fundamento, a ciência
antiga e medieval não tinha nada de particularmente irracional ou esotérico. O
seu único defeito era ter sido construída com meios de observação e de medidas
quase inexistente. A ciência moderna, a de Galileu e da sua luneta, transformou
isso. Portanto, nesta época “a ciência sem medida e sem meios de observação”
diz forçosamente “especulação” (Ibidem: 76).
O saber de Descartes e
Bacon, nada tem a ver com o conhecimento teórico dos gregos, baseando numa
reflexão distante e admirativa da natureza. Para os filósofos das luzes, de
Diderot a Kant, o obscurantismo estava doravante vencida. A felicidade
universal e o conhecimento da verdade absoluta estavam próximos (77-8).
Crónica de uma morte anunciada
Segundo Kant, a ciência de
Galileu e Newton, tinham atingido métodos igualáveis e certezas absolutas. Na
crítica da razão pura, sua obra-mestra é inteiramente baseada na ideia de que a
mecânica newtoniana contem uma verdade indiscutível e universal para todos os
seres humanos em todos os tempos e em todos os lugares.
A concepção newtoniana do
espaço e do tempo, determina que um espaço de três dimensões e um tempo
uniforme de uma dimensão sejam considerados como recipientes em qual a matéria
se situa e move. Esse tempo e espaço para
Newton são absolutos. Para Kant, nenhum homem pode racionalmente pensar o
mundo de uma maneira diferente de expostas por Newton. Para ele, mundo tal como
se submete ao nosso raciocínio, só pode ser newtoniano. E nesse mundo não
existe qualquer lugar para metafísica, disciplina incapaz de se submeter às
regras do método científico, que se tornou doravante a única via de acesso ao
conhecimento (78-9)
Toda a sua filosofia
Kantiana gira em torno da questão da cientificação
da metafísica. Para ele, a metafísica
fornecia uma imagem desoladora de dissensões, de especulações não verificáveis
e de desenvolvimento caótico. O exemplo de física e de matemática para Kant,
era um modelo porque representava o melhor da ciência, isto é, é uma disciplina
que permitia atingir conhecimentos necessários e universais, logo conhecimentos
absolutamente verdadeiros e a metafísica não tinha ainda encontrado os meios de
atingir este carácter necessário e universal (81).
[?] A metafísica tinha meios para se tornar uma ciência? Kant
consagrou a esta questão a totalidade da crítica da razão pura. Segundo ele, a
metafísica, cuja necessidade dialéctica lhe parecia evidente estuda objectos
que, pela sua própria natureza, não podem ser submetidos aos critérios da
cientificidade. Procurando uma verdade que possa ser absoluta, isto é,
universal, Kant pensa encontra-la nas ciências dominantes da sua época: a
matemática e a física porque tratam a verdade que não passa pela especulação. É verdade que Kant não queria a morte
de toda metafísica, já que propunha esta disciplina uma nova função, a de crítica de instrumentos e dos métodos
de conhecimento, mas estava convencido da ineficácia da metafísica clássica
para exprimir verdades necessários e universais (82).
Revolução científica
A ciência contemporânea veio
desferir um golpe mortal na filosofia da necessidade
e da universalidade kantiana. A ciência tem de particular, estar
constantemente a pôr em questão os seus próprios princípios, incluindo os mais
fundamentais. Para os iluministas, um conhecimento que nos rodeia contem uma
verdade absoluta, um saber necessário e universal. Doravante, emergiu uma nova
filosofia das ciências, com a função de tentar explicar as variações da teoria científica,
graça a noção de rupturas ou revoluções epistemológicas (Bachelard ou Kuhn) ou
critério de refutabilidade (Popper). Passou-se assim alegremente de uma ciência
que deveria nos fornecer verdades absolutas e indiscutíveis sobre o mundo a uma
ciência cuja essência é nunca permanecer
monolítica e invariante. Em suma, uma ciência que, em muitos espaços, se
assemelha a metafísica clássica tão denegada (83-4).
Verdadeiro e falso
As concepções da grande
revolução científica foram absolutamente fundamentais no plano filosófico.
Pois, é preciso não esquecer que Kant representa o píncaro incomensurável da
confiança que o ser humano podia ter o seu entendimento. A questão da
legitimidade da metafísica quanto ciência (necessária e universal) tornava-se
subitamente risível, uma vez que era a própria ciência, que era considerada
necessária e universal, que se interroga sobre a sua própria legitimidade,
enquanto portadora de uma verdade absoluta, válida em qualquer tempo e em qualquer
lugar.
O princípio aristotélico do terceiro
excluído: uma qualquer afirmação ou é verdade ou é falsa, e não pode
ser uma outra forma. A consequência
imediata desta regra é que, em duas teorias que tratem do mesmo objecto e
atingiam conclusões contraditórias, (85)
pelo menos uma deve estar errada. A regra do terceiro excluído é o único
meio de evitar que surja contradições. Um sistema racional de vê ser dedutivo.
Um sistema racional deve decorrer uns dos outros, sem contradições internas: o
princípio do terceiro excluído deve pois ser respeitado. Os filósofos, mas
também os cientistas, esquecem muitas vezes que as suas teorias se fundam todos
em princípios metafísicos não demonstrados.
Kant, deveria ter-se
interrogado da seguinte forma: “a
aquisição de uma verdade, una e absoluta, será possível?”. David Hume,
respondeu negativamente esta questão, pois, para este pensador: se a verdade
absoluta é possível, então é necessário que essa verdade seja una. Não se pode
acreditar na verdade de várias teorias ao mesmo tempo. A verdade única não é da
ordem das ciências da natureza, dos sistemas matemáticos. Uma vez tínhamos
afirmado que a ciência mudou a sua natureza, a metafísica não mudou a sua
natureza. De Aristóteles a Heidegger ou Sartre, os metafísicos continuam a
inventar os conceitos novos que tecem laços com os conceitos antigos e se
cruzam com os da ciência ou os da religião (87).
A vocação do conhecimento
teórico aplica-se a todos os domínios, criando conceitos novos, ligando-os aos
conceitos antigos, como um caminho que traçamos à medida que avançamos. Assim, a criação conceptual surge como uma
actividade essencial para manter a curiosidade e a busca humana da verdade e
toda a investigação metafísica contém a confissão de uma demanda ambiciosa e de
um resultado modesto. (87-8).
A questão da realidade
Para que um conhecimento seja absoluto, é preciso
que, numa primeira etapa a existência do seu objecto seja considerada como
sendo absolutamente real. Kant compreendeu-o bem que não pode demonstrar
a sua existência. Os mundos empíricos dos objectos perceptuais mostram-se, o
mundo teórico dos juízos abstractos demonstram-se. É evidente que a comparação
entre a metafísica e a ciência: consideradas duas entidades globais - não pode
ser efectuada de forma sistemática. A ciência progride de uma maneia
extraordinária do mundo (89).
A metafísica não pode ser
considerada como uma disciplina susceptível de aplicação imediata no mundo
exterior. A ciência e a metafísica, estas duas disciplinas, naquilo que tem de
teóricas, fundamentam-se em afirmações ontológicas extremamente fortes. Por outras
palavras: a reflexão do ser tanto é o
objecto da ciência como da metafísica. A metafísica e a ciência são dois
campos de saberes que propõe ao conhecimento objectos teóricos; elas afirmam
poderem pertencer ao campo do real.
Deus, a alma, a liberdade, a
curvatura do espaço-tempo, a forca de gravitação, o big-bang e mesmo a selecção
natural, tem dois traços em comum: são todos os conceitos construídos para fins ontológicos (90). Kant tinha engado
na sua definição da verdade enquanto
necessária e universal. Ele não podia prever as imensas transformações científicas
que o século XX reservava à mecânica clássica.
Na crítica da razão pura,
interroga-se sobre a “realidade dos conceitos metafísicos”. Tendo no início,
acreditando demonstrar que a metafísica
não se podia construir como as ciências puras, mas a fim de mostrar que a
sua natureza especulativa permitia fundamentar todos os argumentos metafísicos
e os seus contraditórios. Para ele a metafísica não podia levar a conhecimentos
necessários e universais. A metafísica trata com prioridade de objectos teóricos.
Por definição, os seus objectos ultrapassam o quadro da experiencia perceptual.
O ser em que Kant pensava em primeiro lugar era Deus (91).
Para objectos do pensamento
puro, não existe absolutamente nenhum meio de conhecer a sua existência, ao
passo que a nossa consciência de toda a existência pertence inteira e
absolutamente à unidade da experiencia. Kant pode afirmar esta impossibilidade
da demonstração de existência por uma razão muito simples. Para compreender é
preciso voltar a propósito da verdade, a questão da verdade versar sobre juízos
(92).
Deus existe? Deus não é perceptível, nem
tem numa demonstração (pois não existe nenhum meio de deduzir a existência de
Deus). A afirmação da existência de um
ser metafísico, é para Kant, especulação pura. A existência desse ser nunca
poderá entrar no mundo das verdades necessárias e universais. Kant só tinha em
mente as entidades metafísicas. Em especulação, ele pensava que os conceitos
teóricos da ciência poderia ser demonstrados, uma vez que a física e a matemática
eram ciências puras. Os conceitos teóricos da ciência são tão demonstráveis
como os da metafísica. Quando a ciência atinge os limites do observável ou
experimentável, ela estabelece por hipóteses a existência de seres cuja
existência presume. Portanto, não existe nenhum juízo de verdade que possa
confirmar a existência de uma realidade (93).
A realidade: entre percepção e concepção
A diferença entre o objecto percebido pelos sentidos e o objecto
concebido é capital. A experiencia do primeiro [objecto percebido pelos
sentidos] baseia-se na sua resistência e no consenso geral, aquilo
que os filósofos dominam por intersubjectividade. Ao passo que a existência do
objecto concebido não precisa desse consenso para ser considerada verdadeira
(94).
Para uns, o conceito
abstracto é unicamente o fruto da linguagem e, a este título, não corresponde a
nada de existente. Os conceitos são flutuantes: alguns desaparecem, outros
nascem, outros ainda, tal como os camaleões, são variáveis e multiformes.
Qualquer conceito novo é a síntese de problemáticas antigas. Se o conceito é
eficaz, permite uma convergência de dado cada vez maior (95-8).
Conclusão
O metafísico é um construtor
de teorias e de novos conceitos cuja finalidade é dar um significado à maior
diversidade de elementos possíveis. Os
conceitos metafísicos são conceitos mais gerais que o entendimento humano pode
atingir. Estes conceitos variam em função das circunstâncias e do
conhecimento de uma dada época (99). Os cientistas são os primeiros a afirmar o
limite dos seus conhecimentos. A ciência é a obra daqueles que não sabem, ela é
uma disciplina de saber evolutivo, cuja essência é duvidar e mesmo refutar. A
ciência atinge o seu limite, o metafísico intervém, armado das capacidades do
raciocínio dialéctico, que lhe permite levantar a questão que a ciência recusa.
E na questão do Ser, quer a metafísica e
a ciência complementam-se.
Graças ao raciocínio dialéctico, o metafísico
permite-se procurar um significado global no qual o conhecimento científico se
associaria as outras formas de conhecimentos de expressão humana (100). O
raciocínio dialéctico pertence a todas as formas da investigação humana, a
todos os domínios do conhecimento. O procedimento clássico que consiste em
procurar uma verdade única, demonstrável e indestronável tem de ser revisto
(102-3).
ANEXOS: O que é a metafísica, qual é o seu
objecto?
Parménides
Demostra que existir duas
vias para a investigação metafísica: (I) O
ser é, e não é possível que não seja (este caminho nos acompanha a
verdade); (II) o ser não é e o não-ser é (não podemos aprender pelo espírito o
não-ser, visto que esta fora do nosso alcance). Entre tanto para Parménides,
não há diferença entre pensar e Ser: Temos que pensa que o Ser é, uma vez que
ele é o ser. Quanto ao não-ser, ela não é nada. O que não é não pode nenhum dia
ser provado.
René
Descartes
Há necessidade de seguir opiniões
que sabemos duvidosas, como se fossem indubitáveis. Diz que ao pensar que tudo
é falso, forçosamente Eu que o pensava, sinto-me que só qualquer coisa: Daí o “penso, logo existo ”. Este é o
princípio primeiro da filosofia que procurava [Metafísica].
Immanuel Kant
Para Kant o espírito humano não
pode renunciar por completo as investigações metafísicas. Para ele existira
sempre nos homens uma metafísica para cada um, com uma ausência de padrão
conhecido para todos. Para Kant, a metafísica jamais satisfaz nenhum espírito
preocupado com prova, mas é impossível que o espírito seja capaz de renuncia-la
cabalmente. A crítica da própria razão pura deve ser objecto de uma tentativa
Arthur Schopenhauer
Ele da maior enfâse ao papel
da vontade. Entende que ela é a única coisa-em-si, a única realidade
verdadeira, o único elemento original, metafísico, num mundo em que tudo o
resto é fenómeno. Coisa-em-si é aquilo que conhecemos imediatamente (a vontade).
Entretanto, ele vê o conhecimento e o intelecto (que são físicos e não metafísicos)
como desvinculados da vontade (que é metafísico), pois estes são secundários
acompanhando os graus superiores da objectivação da vontade. Por fim, para ele,
o conhecimento não condiciona a vontade, o que acontece é o contrário.
Martin Heidegger
Parte da pergunta “porque é
que existe o ser em vez de nada?”, e
esta deve na sua óptica vista como a primeira de todas as questões. É
necessário portanto, é necessário forcar-se a penetrar no horizonte desse
questionar. Segundo Heiddeger, esta questão surge em certos momentos de grande
desespero, quando as coisas perdem a sua consistência e todo o significado se
obscurece.
Albert Camus
Diz ser a verdadeira e seria
questão da filosofia o Suicídio. Esta tem a ver com o
julgamento que a vida vale ou não vale a pena ser vivida. Esta questão é
segundo ele mais urgente do que outra, pelas acções que ela induz. Para ele o
sentido da vida é mais urgente que das questões e as pessoas que morrem acham
que a vida não vale a pena ser vivida.
Jean-Paul Sartre.
Parte da posição de que toda
a realidade humana é uma paixão, na medida em que projecta perder-se para
fundar o ser e para constituir ao mesmo tempo o em-si que escapa à
contingência, sendo o seu próprio fundamento Deus. Ou seja, A paixão do homem é
inversa da de cristo, pois o homem perde-se enquanto homem para que nasça Deus.
Segundo ele, a ideia de Deus é contraditório e nos perdemo-nos em vão; o homem
é uma paixão inútil.
Bibliografia consultada.
Ø FAROUKI, Nayla. A
metafísica. Flammarion, Lisboa, 1995
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