sábado, 18 de março de 2017

Nayla FAROUKI e A metafísica (Resumo da obra)
Por Sérgio da Rita Lino & Mahomed G. Dita
Prefacio:
Fauroki é da posição de que diariamente nos apercebemos do impacto da ciência e da tecnologia, na medida em que o mundo é posto a nu e transformado. Mas a ciência e a técnica para ela não fornecem no entanto a totalidade do sentido. É necessário o metafísico que nasce na medida em que começamos a indagar (que as crianças e cada um de nos dissimula no seu âmago).
Para Fauroki, o Ser que durante a história surgiu com capacidade de pôr questões a si próprio é o homem, por isso denomina-se o homem “per se” como metafísico. Entretanto, discorrendo sobre a metafísica, a filósofa entende que a metafísica começa onde todos os saberes estabelecidos acabam, por isso a ciência não é metafísica!
A metafísica emana de uma investigação e interrogação individuais e só é metafísico quem levanta com todo cuidado a questão do sentido, pois o metafísico é quem ousadamente levanta a questão do porque e não os cientistas com a questão “como”. O Metafísico tem na consciência de que essa questão [porque] é essencial, pois ela permite proteger e manter a preciosa demanda de sentido.
Aristóteles vê a metafísica como o mais importante “corpus”, porque trata dos primeiros princípios sobre os quais se funda a totalidade da existência. Fauroki assevera que “toda metafísica é pré-física” pois desde antiguidade não existe conhecimento sem metafísica mesmo o cientifico. Entretanto a metafísica é vista como um subconjunto da filosofia e tem como função “conferir a ordem e sentido a esse conjunto de interrogações fundamentais que rodeiam a totalidade do discurso humano” sobre o mundo e sobre as criações.
PARTE I – DA EXISTENCIA AO SENTIDO.                                                                 
Um universo infinito das questões
Segundo Fauroki qualquer que seja a questão a propósito do mundo que nos rodeia levanta sempre a questão da existência. Não se deve negar a existência de um objecto mesmo em tropeço e a existência é fundamentalmente contingente. Nenhuma existência particular é necessário daí que questão da existência sempre é justificada (15).
Quando algo que existe é contingente, é obvio levantar a questão da existência das coisas. Essa tarefa é da metafísica, pois a sua missão é mesmo ir até ao fim das coisas. Entretanto, diz a autora que, “se o sonho e a relatividade do mundo nos incitam a aceitar que existe um mundo de aparências, podemos levantar a questão do pode existir “por atrás” desse mundo das aparências”.
A questão da existência do mundo tal como o concebemos junta-se a questão da existência do mundo tal como o percebemos. Numa linha profundamente metafísica, Fauroki diz que os objectos – com as quais nós estabelecemos relações lógicas – possuem as mesmas características ontológicas que os objectos percebidos no mundo exterior, ou seja, a sua existência ou não-existência tem razão de ser posta em questão. A autora entende que duvidar as coisas não é um acto gratuito e nem absurdo, pois esta dúvida mostra que a questão metafísica apesar de não ter uma resposta simples e concisa, ela tem um sentido! (17) Entretanto, a questão metafísica está imbuída de significado mesmo sem ter resposta. Ainda, a questão metafísica não pode ser considerada como desvio abusivo da linguagem como Wittgenstein e os positivistas consideravam. Finalmente, Fauroki exorta aos metafísicos a levantarem questões com sentido como da existência (18)
Nota: ate aqui tratamos da primeira questão – a questão da existência. A próxima a seguir…
Na origem: o ser e o Eu.
A segunda questão aqui debatida tem a ver com o sentido que as diversas existências devem ostentar. Segundo Fauroki, uma existência tem sentido pela (i) sua origem (de onde vem?), (ii) sua natureza (o que é?) e (iii) finalidade (porque é que existe?). Mas o problema gira em torno de sabermos se a existência é um produto de acaso ou de um determinismo?
As respostas a esta questão são diversas e ocupam a totalidade do campo conceptual do homem. Heiddeger: aparece a perguntar o porque de existir alguma coisa ao invés de nada? Segundo Fauroki, o facto da existência de alguma coisa pode ser admitido decorrendo da simples constatação empírica. O metafísico sempre começa por admitir a existência, por mais que esteja no mar das incertezas possíveis (o metafísico tem certeza no existir).
Parménides resume essa certeza em duas expressões: “o que é, é” e “o que não é, não é”. O que quer dizer “ se o ser é, o contrário é verdadeiro, o não ser, não é” (19). A não existência do ser não pode significar que o nada sincronicamente é inexistente e impensável. Assim, o Ser seria qualificado pelo facto de sua existência ser uma necessidade e pelo facto da hipótese da sua não existência fosse contradição.
Indo para as questões das origens dos seres, afirma-se “no princípio de tudo, existo…eu”. Aqui a ontologia primeira (cuja a existência é afirmada por principio) passa do objecto do conhecimento para o seu sujeito: o facto de existirmos enquanto sujeito de conhecimento. Quem defende essa tese da existência enquanto ostentamos conhecimento é o famoso (1) René Descartes, quando depois de uma serie dúvida da existência, diz “penso, logo existo”. Então Descartes parte de pressuposto de que este pensamento que lhe permite duvidar de tudo, esse pensamento seria prova única da existência enquanto Ser pensante. Descartes encontra neste [pensar] o ponto estável a partir do qual pode construir a totalidade do conhecimento e da existência. Descartes era do entendimento de que o ponto estável, o postulado primeiro não se encontrava no mundo físico ou em conceitos abstractos como o ser, mas na própria subjectividade pessoal a do eu.
 Descartes distancia-se de Parménides na medida em que perfilha que a questão da origem das coisas é respondida pela individualidade da própria subjectividade ao passo que Parménides dá resposta baseando-se no “ser enquanto princípio” (21). Fauroki diz é com a metafísica cartesiana que ocorre uma divisão da investigação metafísica no ocidente em 2 grupos: (1) os que baseiam toda a investigação metafísica na questão do ser (Berkeley, Espinosa e Hegel) e (2) baseiam a metafísica na questão da capacidade de conhecer, construindo as suas posições a partir da posição subjectiva e existencial (Hume e Kant).
É possível neste tempo conhecer 2 blocos: uma trata a questão ontológica de maneira extrínseca (interroga-se sobre a existência – necessária ou contingente – do ser em geral e do mundo e particular) e outra da questão ontológica de maneira intrínseca (interrogando-se pela subjectividade e a posterior, o mundo exterior).
- Os mistérios da existência.
Aqui aborda-se a questão da existência da consciência. Foi Descartes quem levantou com todo cuidado possível a questão da existência da consciência. Vê, se o ser humano tem a capacidade de simbolizar e representar as coisas por signos. Mas a linguagem é tida como o sistema simbólico mais rico que o homem possui e graças a ela pode exprimir o seu estado de consciência. Entretanto, em compreensão, a associação de um objecto a palavra não depende de um arbitrário análogo. A existência da palavra e o facto de ela designar um conceito preciso, revela a tomada da consciência do conceito, da sua existência enquanto conceito, se o que não poderia ser designado.
Daí que o papel da linguagem no homem resume-se assim. Ela permite-nos (i) conceptualizar e caminhar para lá dos conceitos na tomada da consciência da sua formação; (ii) a comunicação e a criatividade, (iii) inventar palavras novas e objectos conceptuais novos, (iv) levantar a questão sobre a sua própria existência. Através dela nasce em nós a consciência da consciência [ter consciência sobre nossa consciência]. Queremos dizer, “ a consciência humana é capaz de se ver a funcionar e de exprimir aquilo que percebe através da palavra” (24), ou seja quando digo – tenho consciência – já implica que tenho consciência do facto de ter a consciência.
Mas será que a tal consciência existe? (pergunta central). Para Fauroki se ela existe, é a partir dela que derivam o discurso, a acção reflectida e as construções conceptuais. Em torno da consciência, constitui-se um indivíduo, com todas as suas contingências químicas, biológicas e físicas.
A existência da consciência não obedece as regras científicas. Não se pode negar da minha consciência e da minha existência, pois ainda o princípio da consciência é universal e aplicável a todo o ser humano. Entretanto afirmamos que questão da consciência está ligada a questão da linguagem, ela ainda está ligada a questão dos Outros como mostra o esquema.
Consciência = Linguagem = Outros
Quer dizer o individuo não pode existir senão através da relação com o outro e este relacionamento é condicionado pela linguagem. A linguagem é importante para a existência da consciência reflexiva e através dela o ser é capaz de reflectir sobre a sua consciência. Entretanto a minha consciência jungida a linguagem só pode existir e manifestar com os outros seres humanos. Sem os outros a tomada da consciência da minha existência não poderia existir nem ter lugar (26). Então quer-se dizer que o Individuo só atrofia-se e perde a humanidade e morre!
Vale ainda salientar que a existência primeira pode ser a do “eu” pensante. Depois nos apercebemos de Eu, e esse eu não pode existir sem linguagem e nem sem os outros. Neste caso é necessário ao mesmo tempo dar um valor ontológico a consciência, linguagem e os outros.
Se eu existo é porque posso edificar relações com os outros, pois essas relações e este outro têm de existir. Cada individuo tomado a parte pode ser considerado como individual, separado e ao mesmo tempo como parte de um todo (26). É necessário tomar em conta que só os homens constituem as individualidades e não outros animais. Só o género humano pode tecer laços simbólicos, contratuais, jurídicos ou políticos. E, no entanto, o “eu” pensante de Descartes atrelado a linguagem relaciona-se com o outrem (27).
Finalmente, quando falamos da existência da consciência, da linguagem e dos outros estamos no campo social: “ só a sociedade humana é capaz de se edificar sobre relações simbólicas que se funda na linguagem e cuja existência cria relações económicas, jurídicas e políticas”. Isto é um círculo fechado, em análise profunda: partimos da consciência – vamos para linguagem – passamos pelas estruturas simbólicas da organização social – voltamos de novo a consciência.
Um Ser-para-a-sua-morte.
A terceira questão debatida aqui tem a ver com um vivido simples e ao mesmo tempo terrível: a morte. É uma questão que afecta a todos nós, pois a partir dela vicejam as nossas perplexidades, as nossas angústias e nossas projecções para o futuro.
Enquanto a ciência nos ensina que o cérebro humano é único a poder imaginar e conceber o futuro, mas esta capacidade que ele tem trás consigo consequências como:
I – a nossa terrível capacidade de sabermos que vamos morrer. Essa angustia para Heidegger é uma metafísica, tão peculiar que o ser humano sente quando toma consciência. Pra ele, o homem é um ser-para-sua-morte, um ser que desde o momento que nasce começa a morrer. Para o ser humano, a morte é visto como objecto de fascínio e de obsessão (29). Os rituais, o enterro, a complexidade das estruturas simbólicas e comportamentais que rodeiam a morte mostram a importância dessa tomada de consciência:
- NO PLANO COMPORTAMENTAL: segundo Freud a morte é uma espécie de forca cega que nos impele a agressividade e destruição.
- NO PLANO TEORICO: a vida ganha sentido através da morte.
- NO PLANO METAFISICO: a morte é o fim último de um estado de consciência, a constatação da sua própria finitude.
Entretanto os ateus vêem a morte como uma fabricação humana, desesperada, para dar um sentido a vida através da imortalidade. Saber que vamos morrer implica uma questão do além, pois a consciência individual tem muitos empecilhos em imaginar o seu próprio fim (que é inevitável) (30).
Entretanto, o homem pode imaginar na sua morte, mas não consegue imaginar no próprio nada. Quer dizer, não nasce do revés para a consciência individual a hipótese de sua própria existência, para lá das vicissitudes da sua existência na terra. A pergunta prevalecente é: “terei eu uma alma imortal?”
Platão: encarava a existência da alma humana (imortal e indivisível) sem fazer dela um objecto de introspecção. Entretanto, para a ciência a morte sobrevêm da degenerescência do organismo. Segundo FAROUKI, a morte ainda não revelou os seus segredos! Não nos é possível compreender a morte sem antes definir a vida. O ser humano consciente da sua própria consciência, da continuidade da sua própria existência, da fatalidade do seu destino, atribui a si próprio um alma, uma essência impalpável, mas indivisível e indestrutível através da qual mantem a sua própria unidade e integridade do seu ser.
A metafísica incessantemente levanta a questão da alma porque está enlaçado a outras questões fundamentais que os homens não conseguem resolver como a questão da liberdade.
Liberdade, vontade, responsabilidade.
Primeiro discutamos o conceito liberdade. Uma das definições da liberdade não passa de uma oposição ao determinismo que defende que cada acontecimento é precedido por uma causa. Existem duas concepções deste determinismo:
- Determinismo metafísico: defende a existência de uma forca superior cuja vontade intervêm sobre o meu ser e me impele a agir deste ou daquele jeito. Indubitavelmente este ser pode ser Deus. Na sua concepção, o ser humano, torna-se uma “marioneta” (fantoche), cujas gesticulações não possuem em si qualquer sentido e mais nada fazem do que reflectir os desejos e as actuações de uma vontade alheia, que sem a qual esta não passa de um objecto inerte. Para Fauroki, esta tese não resolve a questão da liberdade (33).
- Determinismo científico: defende que cada acontecimento está ligado ao outro acontecimento da mesma natureza, sendo tão imanente como o primeiro. O materialismo baseia este determinismo para cercear a liberdade humana a uma sucessão de acontecimentos químicos e biológicos. Aqui continuamos em presença de marioneta e este também não resolve a questão da liberdade e até anula-a.
Entretanto, segundo a autora, a consciência da liberdade é empírica, observável no quotidiano: alguém sente-se livre a partir do memento em que tem a capacidade de uma decisão plenamente arbitrária e ter a capacidade de executar uma acção ou seu contrario (34). A Tomada da consciência da liberdade, por vezes pode levar a um comportamento absurdo, cuja razão de ser seria a necessidade de afirmar a sua própria liberdade.
O acto livre, amiúde, é livre, pois possui causas perfeitamente coerentes. Mas no sentido coerente, a liberdade não é um acto gratuito. A liberdade é a tomada da consciência da minha própria responsabilidade por essa casualidade. Ela estabelece-se enquanto afirmação de uma escolha e de uma responsabilização consciente (35). Segundo Fauroki, liberdade é a faculdade lógica de rejeitar todo o determinismo (é a não-determinação!). Essa noção da liberdade enriquece-se de um sentido mais profundo, o da responsabilidade e o da moral. Se o ser humano é responsável pela sua acção é livre. A tomada da consciência da minha liberdade significa saber o que eu decido fazer, é agir com conhecimento de causa.
O grande porque
A pergunta de ouro é: Que sentido atribuir a existência humana?
Segundo Farouki é tão difícil compreender o sentido da existência humana mesmo quando uma pessoa afirma que existe, ostenta uma essência e liberdade. O homem, amiúde, têm-se questionado: Porquê existe o ser em vez do nada? Porquê os Homens além de bactérias e microrganismo? Porquê eu em vez de outro qualquer?
A questão do sentido da existência humana revela-se ao homem na medida em que se confronta com o mal, a morte e amor. Quer dizer, o homem ostentando conhecimento das coisas de extermínio/destruição física (morte), tendo uma consideração da dor e da miséria da vida, ele tenta buscar as explicações metafísicas para melhor compreender esses fenómenos. Essa inquietação metafísica pode nascer da arquitectónica humana de que a não-existência humana pode também ser tão possível como a existência.
Partindo desses pressuposto Platão, filósofo idealista da antiguidade engendra que a questão da existência humana não perpassa de uma apreensão e do reconhecimento do Bem. Ele é da ideia de que a nossa existência adquire um sentido quando nós apropriamos e reconhecemos a noção do bem, isto é, existe se faz o bem. Caminhando no mesmo diapasão da tentativa de encontrar um sentido a auferir a existência humana, Jean Paul Sartre entende que o sentido da existência humana é encontrado, simplesmente na própria acção individual do homem.
Entrementes, fazendo uma acurada hermenêutica ao pensamento da Farouki é conspícuo a pretensão dela de afirmar que, as respostas a questão do sentido que o homem pode atribuir ao seu próprio ser são, a menos indubitavelmente, metafísicas, sociais, económicas e politicas. Quer dizer, o homem pode justificar a sua existência porque é detentor destes ou daqueles bens (sentido do ser explicado na base económica) ou existo porque sou isto ou aquilo (social).
Nesta, procuramos o Sentido da existência humana numa perspectiva religiosa: no entender da Farouki, os sistemas religiosos são quem, peculiarmente, adjudicam de maneira eficaz um bom sentido a existência humana. Segundo ela, isto justifica-se pelo facto de: Ao colocarem o valor da humanidade a um nível transcendente (já que depende de Deus), as religiões dão a esse valor uma garantia absoluta, que não pode ser posta em questão (40). Para os religiosos, o sentido da (s) vida(s) humana(s) e o próprio destino da humanidade é explicado tendo como nó de estrangulamento, o próprio Deus.  Para estes, mormente, Deus não passa de um “comandante máximo” da nossa vida; Ele é quem traça as nossas vidas e calcula os limítrofes da nossa existência. Sendo Deus, um ser supremo, invisível, quando os religiosos lhe atribuem o valor da nossa humanidade fecham espaço para perguntas (dogmatismo). A ideia chave dos religiosos é que Deus é quem dá sentido a existência humana. Quer dizer, eles têm ideias, em geral, de que Deus estabeleceu efectivamente qual é finalidade para a existência humana e a comunicou aos homens por intermédio da Bíblia e de outras formas de revelação.
E qual o Sentido da existência humana numa perspectiva metafísica? Para a filósofa, a metafísica pretende ser uma cuidadosa investigação puramente humana para aceder o nosso sentido de existência. Neste ingente trabalho da busca do sentido, a metafísica é impelida a acentuar o valor interno do ser humano, isto é, ela antes de nada deve tomar em conta a ideia de que o Homem não é apenas o que é externamente, mas realmente aquilo que é internamente. A metafísica sobrevive só e somente se, reconhece o valor intrínseco do ser humano. Entretanto, ao Homem, o único valor que podemos atribuir sem reservas e condicionamentos é o seu valor intrínseco, o seu valor enquanto ser (40).
Segundo esta arquitectónica de pensamento da filósofa, o valor intrínseco constitui o âmago, o nervo, a víscera do Homem. Kant citado pela autora, assevera que o ser humano simplesmente pode definir o seu próprio valor e sentido da sua própria existência recorrendo a um princípio interior e nunca a um princípio exterior (uma divindade). Quer dizer, o sentido universal para o destino humano é possível encontrá-lo na humanidade tomada em si, isto é, como origem e fim. Kant continua dizendo que ser humano só pode agir como ser livre, moral e responsável se tomado como um todo, um fim-em-si. O ser humano não pode ser encarado como resquício ou tomado como partes que compõe um todo, pois ele já em si é um todo.
É então possível, na concepção da autora, afirmar a humanidade como um valor absoluto a prior, auferindo-lhe o valor de postulado que podemos operar a secessão radical entre valor absoluto do homem e os outros relativos inerentes a este. Só para terminar, é inócuo afirmar que a humanidade é que faz o ser humano, isto é, ele vale por causa deste elemento tão pertinente. Ele vale pelo valor absoluto que atribui ao ser e ao Ser de todos os indivíduos, membros da sua espécie. Independentemente daquilo que nos somos, negro ou branco, sábio ou ignorante, responsável ou inconsciente, o ser humano vale pela sua humanidade, isto é, apenas pelo sentido absoluto que quererá atribuir ao seu próprio ser e além disso, ao ser de todos indivíduos membro da sua espécie (41).   
Os quatros estados do ser
A filósofa começa por afirmar que qualificar Kant e Platão de Idealistas, Aristóteles e Locke de empiristas e Kierkegaard e Sartre de Existencialistas isto não permite ver a dinâmica que determina a evolução das teorias metafísicas e esta leitura clássica da metafísica é assaz perturbante. Segundo ela, o metafísico não pode ser considerado como desligado do mundo quotidiano, pois ele vive nele de modo pessoal e reflecte sobre o mundo tal como lhe manifesta na sua actualidade (44). A metafísica também é uma disciplina que deve ser entendida como ancorada no tecido do presente.
Mesmo no âmago do problema: a questão do ser. Esta questão é “pai” de duplo problema da realidade e da verdade ou por outra, o problema do conhecimento e da existência. É aqui onde gravita a metafísica e os metafísicos vão construir inúmeros conceitos novos!
Os seres imutáveis
Qual é a origem das coisas? Esta é a primeira questão dos gregos. Eles queriam um conceito que fizesse que a totalidade da diversidade existente pudesse ser determinada logicamente por ele. Tales e Anaxímenes convenceram-se de ser água e o ar tal princípio respectivamente. 
Convenceu-se ser Parménides, o pai da filosofia por ser o primeiro a levantar a questão do ser eliminando a questão ascética das origens. Ele abre o caminho da existência. Mas segundo Fauroki, o problema dele é de que o seu ser dificilmente pode dar conta da realidade móvel das coisas. Entretanto, Heráclito postula o Devir, uma espécie de transformação continua e dialéctica dos opostos. Mas peca também porque o devir – o que esta sempre a mudar – é dificilmente cognoscível.
A solução no entanto, foi a de procurar operar uma síntese entre as duas ideias (de Parménides e de Heráclito): conservar a imutabilidade de ser e acrescentar um princípio de transformação, para chegar-se a condição do ser enquanto ser (47).
Já na filosofia grega pré-socrática aumentaram os seres metafísicos. Foi então graças ao apeiron de Anaximandro ou aos átomos de Demócrito damos ao mundo uma explicação única e unificada. O átomo é ao mesmo tempo substância que subjaz aos fenómenos, a causa cujos efeitos são observáveis. Enquanto tal trata-se de um princípio primeiro.
Foi com Platão que a interrogação metafísica faz um progresso decisivo, pois ele levanta outra de ordem lógica: é possível pensar um ser tal que a sua existência seja absolutamente necessária? Um tal ser existindo seria então ser chamado como Ser imutável, a que se define pela sua própria existência. Graças Sócrates, abandona-se o mundo da natureza e passa-se a interessar-se pela questão do comportamento e da moral. Assim nasce a questão do bem, onde Platão deduz o mundo das ideias, de objectos perfeitos, dominado pela ideia do bem. Segundo ele a realidade das ideias não pode ser posta em dúvida (49).
O mundo das ideias de Platão edifica-se para além da natureza empírica, e na base deste ele faz uma distinção entre a realidade e a aparência. Na sua visão a alma humana aspira ao bem supremo e ao mundo das ideias em que tem a sua origem e almeja reintegrar. O conhecimento desse mundo da realidade passa pela reminiscência: a alma humana lembra-se do mundo das ideias, que conhecia antes de se encontrar com a matéria.
De seguida, Aristóteles reduziu o mundo das ideias a um mundo de princípios, que a lógica humana constrói segundo categorias precisas. Esses princípios (O ser, a Substância, essência e a relação) são construídos de uma maneira necessária e universal pela inteligência humana. Para Aristóteles Deus, Ser supremo e perfeito, seria a causa primeira da totalidade do mundo; é um ser passivo. Nesta senda, a metafísica foi conhecendo sistemas religiosos que ultrapassariam o mito como a maniqueísta: esta afirmava que o mundo conflituoso em que vivemos é fruto da luta sem complacência de Deuses Ohrmazd e Ahriman. Assim para ela a vitória do bem e do mal só é encontrada no fim dos tempos.
Plotino: vai tentar estabelecer uma síntese entre Platão, Aristóteles e concepção maniqueísta: tratava-se de abandonar as ideias todas platónicas excepto as do bem e da alma. Vigora assim a ideia de um Deus de Bem.
Deus
A expansão do cristianismo foi responsável pelo monoteísmo que não tinha influenciado a filosofia grega. Com São Paulo, a filosofia grega começa a interessar-se com Deus cristão. Essa teologia concomitantemente com a judaica e a islâmica construíram o pano de fundo da metafísica tradicional. Com Aquino, agostinho, Anselmo e outros a metafísica liga-se ao monoteísmo: o conceito passa a ser o divino. Trata-se agora de um ser que é ao mesmo tempo transcendente, criador e pessoal.
O contributo do monoteísmo foi de resolver o problema do ser imutável e original, reduzindo esta hipotética realidade a Deus, tido como o único ser para o qual a necessidade da sua existência se confunde com essa mesma existência. O exemplo nítido é a prova da existência de Deus de Santo Anselmo e Descartes. Para Anselmo: Deus enquanto ser perfeito, tem de existir pois sem isso a sua perfeição seria maculada. O monoteísmo introduz a problemática do individuo, do “EU” e assim a face da metafísica vai mudando….
O ser-para-o-conhecimento:
O individuo passou a ser visto no monoteísmo como uma entidade humana que um dia teria de fazer face à Deus. Agora não se esquece o ser em sua versão imutável e original, mas busca-se pela sua capacidade de conhecer: a problemática do ser-em-si transforma-se em a da ser-para-o-conhecimento. O “eu” enquanto sujeito torna-se o próprio problema de estudo.
Descartes: reconhece na sua própria dúvida a existência do seu próprio entendimento. Separa a substância pensante da substância material, que se caracteriza pela sua inércia e extensão (54). Descartes chega ao Dualismo ontológico: a matéria e o espírito. O ser-para-o-conhecimento associa-se a problemática clássica do Ser. A noção de “substância” e as diferentes facetas que ela pode ter ocupam os filósofos: (1) Espinosa – fala de uma única substância divina que se manifesta em matéria e espírito; (ii) Leibniz – o existente é composto por substâncias indivisíveis, as nómadas que são simultaneamente espirituais e matérias, dotadas de graus de liberdade e consciência, também coordenadas pela sabedoria divina.
O problema do Ser-para-o-conhecimento pressupõe saber – o que é conhecer? (a questão do ser, do conhecer e a da sua natureza). O entendimento é visto como herói desta investigação, este visto como “termo para descrever o que se produz na cabeça de um individuo que procura obter uma certa forma de conhecimento sem utilizar a palavra espírito”.
O entendimento nasce de uma reflexão e não se submete a uma investigação científica. O entendimento – nosso organismo de conhecimento – pode ser analisado graças aos processos que manifesta ao funcionar: formação dos conceitos, raciocínios etc. O entendimento permite aos filósofos unificar sob o mesmo conceito as percepções, o raciocínio dedutivo e indutivo a capacidade de construir conceitos de um raciocínio casual (58)
O entendimento torna-se, amiúde, paradoxal: ora para conhece-la basta observar o seu próprio comportamento perante o conhecimento, ora também trata-se de um objecto empírico, observável por introspecção, de que podemos descrever o entendimento como objecto no mundo. Mas para Fauroki, o entendimento percebe e reflecte o mundo que o rodeia e não conhece o nada. Segundo Descartes, o entendimento é passivo em relação ao mundo exterior, pois duvidando da existência do mundo, ele tem necessidade de recorrer a existência de Deus para garantir essa existência e realidade (58). Berkeley diz que o entendimento não conhece o mundo exterior real, mas sim o divino.
Para Kant: o entendimento é uma função puramente analítica cujo objecto é o mundo dos fenómenos. É um mundo construído no entendimento que coloca os objectos que percebe num quadro espácio-temporal preciso. Conhecemos o mundo situando-o no espaço tridimensional e num único sentido: o espaço e o tempo permite-nos apreender o mundo segundo regras precisas. O nosso entendimento nos ajuda a criar uma relação lógica entre dois acontecimentos. Para Kant, o entendimento humano conhece o mundo dos fenómenos, não conseguindo atingir de maneira dialéctica os números.
O estudo de Kant sobre o entendimento termina em dualidade: separa o ser-para-o-conhecimento (cujo funcionamento analítico permite conhecimento científico) e razão (cujo funcionamento dialéctico permite construções metafísicas). Criticando a metafísica clássica por não se integrar no conhecimento científico, Kant perfilha a transformação da metafísica numa disciplina critica (60)
O ser-para-acção
O ser para Platão e Aristóteles, era considerado perfeito e imutável, esta característica aplicava-se ao Deus metafísico dos monoteístas. O entendimento não era um ser perfeito e era caracterizado por certas imutabilidade que permitia evitar a questão a sua eventual variedade.
Aristóteles tinha relegado fora o campo da lógica porque era incapaz de produzir juízos necessários. Reaparece na obra de Kant que considera como uma das principais ferramentas da razão. Deve-se a Hegel o facto de readquirir um lugar predominante no mundo do pensamento.
Hegel lança um olhar no mundo que não permite dar dela uma imagem estática. As grandes explorações, as descobertas, o advento de novas ciências, mostram que o mundo não funciona segundo regras universais únicas, tal como Kant as concebia: O mundo e o pensamento mudam (61-2). O princípio metafísico de base consiste em procurar o princípio primeiro sobre a qual se pode fundar a diversidade. Hegel associa ao Ser um princípio temporal, a história e, um princípio lógico, a dialéctica. Um ser é um contínuo devir. Portanto, o Ser para Hegel utiliza a história, para aprofundar a sua compreensão de si mesmo. Assim já não se define pela sua imutabilidade, mas pelo contrário, define-se sua transformação contínua. O tempo e com ele, a acção e o devir entram finalmente na metafísica.
Ao ser imutável, depois de ser para o conhecimento, vem juntar-se do ser-para-acção. Para Hegel as três noções não são antinómicas. O ser em si utiliza a acção para obter conhecimento (62).
O contexto científico do século XIX permite aos metafísicos afirmarem, de uma maneira mais deliberada, o papel ontológico do tempo. Com efeito, é nessa época que nascem duas teorias essenciais que afirmam o “tempo como principio primeiro”: (I) teoria da evolução dos seres que constata na história da vida uma complexificação progressiva dos organismos. (II) termodinâmica, que constata através do seu princípio, uma diminuição progressiva da capacidade da energia conservada para executar trabalho.
Dois tempos opostos emergem da teoria científica. (I) positivo que permite que as estrelas se criem, que a matéria se agregue e que o ser vivo cresça e se multiplique. (II) negativo, mais global do que primeiro, assinala a paragem da morte do universo por estabilização definitiva dentro de alguns milhares de anos (63). O existencialismo, quer se trate do de Heidegger ou de Sartre, pode ser considerado como uma reflexão sintética que procura renovar os laços entre o ser imutável e original, o ser pensamento e o ser-agente. Devido a esta síntese, o existencialismo não é nem uma filosofia da natureza nem uma teoria do conhecimento, mas antes uma reflexão sobre a natureza a condição humana.
Um ser para Heidegger, através da angústia descobre a sua verdadeira essência, composta simultaneamente pela primordialidade da sua liberdade e pela imutabilidade do seu fim. Sartre compreende a sua acção humana como a de um ser cuja essência não precede de modo alguma existência (Ibidem: 64). O sentido do mundo é aquele que nos lhe atribuímos. A metafísica está morta mas nenhuma das problemáticas metafísicas morreu (65).
Da metafísica a ciência e vice-versa!
A metafísica, essa série inacabada de hipóteses não verificáveis, poderá ser verdadeiramente considerada como uma disciplina de saber ou existira, por um lado, um saber estabelecido e por outro, um saber vago, aleatório, qualificado de metafísica? Esta questão não é nova; com efeito, desde que a metafísica existe, os filósofos levantaram a questão da sua legitimidade.
Ora, a metafísica foi uma ciência primeira, as mais nobres ciências de saber. Segundo Aristóteles, conhecer os princípios primeiros de que decorre a totalidade das outras disciplinas (Ibidem: 69).
De Aristóteles a Descartes, a metafísica no mundo ocidental ocupou o primeiro lugar entre as disciplinas do conhecimento, foi considerada desde muito tempo como uma árvore geonológica dos outros sabres. Depois o estatuto da metafísica mudou. Esta transformação foi tão radical quando se funda a filosofia de Kant nesta questão “poderá a metafísica ser uma ciência?”
Na óptica de FAROUKI, no fundo no fundo, a metafísica não mudou nada. Foi o estatuto da ciência que, com Kant, tomou uma direcção que talvez fosse apropriado por hoje em questão. Para compreender esta questão é necessário procurar na história moderna e da metafísica, aquilo que permitiu Kant levantar questão da legitimidade científica da primeira disciplina da filosofia (70).
A natureza da metafísica
Santo agostinho e São tomas de Aquino quanto a reflexão teológica e filosófica estivem estreitamente ligadas. Com o renascimento surgiu uma maneira dogmática e impelia os homens a agir em toda direcção.
Ciência e o racionalismo
Nesta época, Galileu trazia elementos de informação que permitiam por seriamente em dúvida o dogma aristotélico segundo o qual as esferas celestes eram perfeitas e imutáveis. A partir dos seus cálculos laboriosos.
Kepler: apresentou-se para sua grande surpresa e desolação, que “a trajectória do Marte se parecia muito mais com um eclipse do que com circuito” destruindo assim o dogma ptolomaico e ao mesmo tempo de Copérnico, segundo a qual os astros se movem em órbitas perfeitamente circulantes. Assim, o debate situava-se entre a nova ciência era ciência aristotélica.
Bacon e Descartes, respectivamente no “novum organum” e no “discurso do método”, propunham uma nova ambição ao conhecimento humano: tornar-se senhor e possuidor da natureza (Descartes), obedecer a natureza para melhor a dominar (Bacon) (Ibidem: 74).
A ciência de Aristóteles era uma ciência de observação a olho nu e de raciocínio baseado em princípios de necessidade do domínio do consenso comum. Assim, se Aristóteles e a grande maioria dos seus sucessores tinham escolhido posicionar a Terra no centro do sistema solar por razões fundadas na observação e no raciocínio (Ibidem: 75). Os argumentos dos antigos não eram, pois, absurdos e desprovidos de fundamento, a ciência antiga e medieval não tinha nada de particularmente irracional ou esotérico. O seu único defeito era ter sido construída com meios de observação e de medidas quase inexistente. A ciência moderna, a de Galileu e da sua luneta, transformou isso. Portanto, nesta época “a ciência sem medida e sem meios de observação” diz forçosamente “especulação” (Ibidem: 76).
O saber de Descartes e Bacon, nada tem a ver com o conhecimento teórico dos gregos, baseando numa reflexão distante e admirativa da natureza. Para os filósofos das luzes, de Diderot a Kant, o obscurantismo estava doravante vencida. A felicidade universal e o conhecimento da verdade absoluta estavam próximos (77-8).
Crónica de uma morte anunciada
Segundo Kant, a ciência de Galileu e Newton, tinham atingido métodos igualáveis e certezas absolutas. Na crítica da razão pura, sua obra-mestra é inteiramente baseada na ideia de que a mecânica newtoniana contem uma verdade indiscutível e universal para todos os seres humanos em todos os tempos e em todos os lugares.
A concepção newtoniana do espaço e do tempo, determina que um espaço de três dimensões e um tempo uniforme de uma dimensão sejam considerados como recipientes em qual a matéria se situa e move. Esse tempo e espaço para Newton são absolutos. Para Kant, nenhum homem pode racionalmente pensar o mundo de uma maneira diferente de expostas por Newton. Para ele, mundo tal como se submete ao nosso raciocínio, só pode ser newtoniano. E nesse mundo não existe qualquer lugar para metafísica, disciplina incapaz de se submeter às regras do método científico, que se tornou doravante a única via de acesso ao conhecimento (78-9)
Toda a sua filosofia Kantiana gira em torno da questão da cientificação da metafísica. Para ele, a metafísica fornecia uma imagem desoladora de dissensões, de especulações não verificáveis e de desenvolvimento caótico. O exemplo de física e de matemática para Kant, era um modelo porque representava o melhor da ciência, isto é, é uma disciplina que permitia atingir conhecimentos necessários e universais, logo conhecimentos absolutamente verdadeiros e a metafísica não tinha ainda encontrado os meios de atingir este carácter necessário e universal (81).
[?] A metafísica tinha meios para se tornar uma ciência? Kant consagrou a esta questão a totalidade da crítica da razão pura. Segundo ele, a metafísica, cuja necessidade dialéctica lhe parecia evidente estuda objectos que, pela sua própria natureza, não podem ser submetidos aos critérios da cientificidade. Procurando uma verdade que possa ser absoluta, isto é, universal, Kant pensa encontra-la nas ciências dominantes da sua época: a matemática e a física porque tratam a verdade que não passa pela especulação. É verdade que Kant não queria a morte de toda metafísica, já que propunha esta disciplina uma nova função, a de crítica de instrumentos e dos métodos de conhecimento, mas estava convencido da ineficácia da metafísica clássica para exprimir verdades necessários e universais (82).
Revolução científica
A ciência contemporânea veio desferir um golpe mortal na filosofia da necessidade e da universalidade kantiana. A ciência tem de particular, estar constantemente a pôr em questão os seus próprios princípios, incluindo os mais fundamentais. Para os iluministas, um conhecimento que nos rodeia contem uma verdade absoluta, um saber necessário e universal. Doravante, emergiu uma nova filosofia das ciências, com a função de tentar explicar as variações da teoria científica, graça a noção de rupturas ou revoluções epistemológicas (Bachelard ou Kuhn) ou critério de refutabilidade (Popper). Passou-se assim alegremente de uma ciência que deveria nos fornecer verdades absolutas e indiscutíveis sobre o mundo a uma ciência cuja essência é nunca permanecer monolítica e invariante. Em suma, uma ciência que, em muitos espaços, se assemelha a metafísica clássica tão denegada (83-4).
Verdadeiro e falso
As concepções da grande revolução científica foram absolutamente fundamentais no plano filosófico. Pois, é preciso não esquecer que Kant representa o píncaro incomensurável da confiança que o ser humano podia ter o seu entendimento. A questão da legitimidade da metafísica quanto ciência (necessária e universal) tornava-se subitamente risível, uma vez que era a própria ciência, que era considerada necessária e universal, que se interroga sobre a sua própria legitimidade, enquanto portadora de uma verdade absoluta, válida em qualquer tempo e em qualquer lugar.
O princípio aristotélico do terceiro excluído: uma qualquer afirmação ou é verdade ou é falsa, e não pode ser uma outra forma. A consequência imediata desta regra é que, em duas teorias que tratem do mesmo objecto e atingiam conclusões contraditórias, (85) pelo menos uma deve estar errada. A regra do terceiro excluído é o único meio de evitar que surja contradições. Um sistema racional de vê ser dedutivo. Um sistema racional deve decorrer uns dos outros, sem contradições internas: o princípio do terceiro excluído deve pois ser respeitado. Os filósofos, mas também os cientistas, esquecem muitas vezes que as suas teorias se fundam todos em princípios metafísicos não demonstrados.
Kant, deveria ter-se interrogado da seguinte forma: “a aquisição de uma verdade, una e absoluta, será possível?”. David Hume, respondeu negativamente esta questão, pois, para este pensador: se a verdade absoluta é possível, então é necessário que essa verdade seja una. Não se pode acreditar na verdade de várias teorias ao mesmo tempo. A verdade única não é da ordem das ciências da natureza, dos sistemas matemáticos. Uma vez tínhamos afirmado que a ciência mudou a sua natureza, a metafísica não mudou a sua natureza. De Aristóteles a Heidegger ou Sartre, os metafísicos continuam a inventar os conceitos novos que tecem laços com os conceitos antigos e se cruzam com os da ciência ou os da religião (87).
A vocação do conhecimento teórico aplica-se a todos os domínios, criando conceitos novos, ligando-os aos conceitos antigos, como um caminho que traçamos à medida que avançamos. Assim, a criação conceptual surge como uma actividade essencial para manter a curiosidade e a busca humana da verdade e toda a investigação metafísica contém a confissão de uma demanda ambiciosa e de um resultado modesto. (87-8).
A questão da realidade
Para que um conhecimento seja absoluto, é preciso que, numa primeira etapa a existência do seu objecto seja considerada como sendo absolutamente real. Kant compreendeu-o bem que não pode demonstrar a sua existência. Os mundos empíricos dos objectos perceptuais mostram-se, o mundo teórico dos juízos abstractos demonstram-se. É evidente que a comparação entre a metafísica e a ciência: consideradas duas entidades globais - não pode ser efectuada de forma sistemática. A ciência progride de uma maneia extraordinária do mundo (89).
A metafísica não pode ser considerada como uma disciplina susceptível de aplicação imediata no mundo exterior. A ciência e a metafísica, estas duas disciplinas, naquilo que tem de teóricas, fundamentam-se em afirmações ontológicas extremamente fortes. Por outras palavras: a reflexão do ser tanto é o objecto da ciência como da metafísica. A metafísica e a ciência são dois campos de saberes que propõe ao conhecimento objectos teóricos; elas afirmam poderem pertencer ao campo do real.
Deus, a alma, a liberdade, a curvatura do espaço-tempo, a forca de gravitação, o big-bang e mesmo a selecção natural, tem dois traços em comum: são todos os conceitos construídos para fins ontológicos (90). Kant tinha engado na sua definição da verdade enquanto necessária e universal. Ele não podia prever as imensas transformações científicas que o século XX reservava à mecânica clássica.
Na crítica da razão pura, interroga-se sobre a “realidade dos conceitos metafísicos”. Tendo no início, acreditando demonstrar que a metafísica não se podia construir como as ciências puras, mas a fim de mostrar que a sua natureza especulativa permitia fundamentar todos os argumentos metafísicos e os seus contraditórios. Para ele a metafísica não podia levar a conhecimentos necessários e universais. A metafísica trata com prioridade de objectos teóricos. Por definição, os seus objectos ultrapassam o quadro da experiencia perceptual. O ser em que Kant pensava em primeiro lugar era Deus (91).
Para objectos do pensamento puro, não existe absolutamente nenhum meio de conhecer a sua existência, ao passo que a nossa consciência de toda a existência pertence inteira e absolutamente à unidade da experiencia. Kant pode afirmar esta impossibilidade da demonstração de existência por uma razão muito simples. Para compreender é preciso voltar a propósito da verdade, a questão da verdade versar sobre juízos (92).
Deus existe? Deus não é perceptível, nem tem numa demonstração (pois não existe nenhum meio de deduzir a existência de Deus). A afirmação da existência de um ser metafísico, é para Kant, especulação pura. A existência desse ser nunca poderá entrar no mundo das verdades necessárias e universais. Kant só tinha em mente as entidades metafísicas. Em especulação, ele pensava que os conceitos teóricos da ciência poderia ser demonstrados, uma vez que a física e a matemática eram ciências puras. Os conceitos teóricos da ciência são tão demonstráveis como os da metafísica. Quando a ciência atinge os limites do observável ou experimentável, ela estabelece por hipóteses a existência de seres cuja existência presume. Portanto, não existe nenhum juízo de verdade que possa confirmar a existência de uma realidade (93).
A realidade: entre percepção e concepção
A diferença entre o objecto percebido pelos sentidos e o objecto concebido é capital. A experiencia do primeiro [objecto percebido pelos sentidos] baseia-se na sua resistência e no consenso geral, aquilo que os filósofos dominam por intersubjectividade. Ao passo que a existência do objecto concebido não precisa desse consenso para ser considerada verdadeira (94).
Para uns, o conceito abstracto é unicamente o fruto da linguagem e, a este título, não corresponde a nada de existente. Os conceitos são flutuantes: alguns desaparecem, outros nascem, outros ainda, tal como os camaleões, são variáveis e multiformes. Qualquer conceito novo é a síntese de problemáticas antigas. Se o conceito é eficaz, permite uma convergência de dado cada vez maior (95-8).
Conclusão
O metafísico é um construtor de teorias e de novos conceitos cuja finalidade é dar um significado à maior diversidade de elementos possíveis. Os conceitos metafísicos são conceitos mais gerais que o entendimento humano pode atingir. Estes conceitos variam em função das circunstâncias e do conhecimento de uma dada época (99). Os cientistas são os primeiros a afirmar o limite dos seus conhecimentos. A ciência é a obra daqueles que não sabem, ela é uma disciplina de saber evolutivo, cuja essência é duvidar e mesmo refutar. A ciência atinge o seu limite, o metafísico intervém, armado das capacidades do raciocínio dialéctico, que lhe permite levantar a questão que a ciência recusa. E na questão do Ser, quer a metafísica e a ciência complementam-se.
Graças ao raciocínio dialéctico, o metafísico permite-se procurar um significado global no qual o conhecimento científico se associaria as outras formas de conhecimentos de expressão humana (100). O raciocínio dialéctico pertence a todas as formas da investigação humana, a todos os domínios do conhecimento. O procedimento clássico que consiste em procurar uma verdade única, demonstrável e indestronável tem de ser revisto (102-3).
ANEXOS: O que é a metafísica, qual é o seu objecto?
Parménides
Demostra que existir duas vias para a investigação metafísica: (I) O ser é, e não é possível que não seja (este caminho nos acompanha a verdade); (II) o ser não é e o não-ser é (não podemos aprender pelo espírito o não-ser, visto que esta fora do nosso alcance). Entre tanto para Parménides, não há diferença entre pensar e Ser: Temos que pensa que o Ser é, uma vez que ele é o ser. Quanto ao não-ser, ela não é nada. O que não é não pode nenhum dia ser provado.
René Descartes
Há necessidade de seguir opiniões que sabemos duvidosas, como se fossem indubitáveis. Diz que ao pensar que tudo é falso, forçosamente Eu que o pensava, sinto-me que só qualquer coisa: Daí o “penso, logo existo ”. Este é o princípio primeiro da filosofia que procurava [Metafísica].
Immanuel Kant
Para Kant o espírito humano não pode renunciar por completo as investigações metafísicas. Para ele existira sempre nos homens uma metafísica para cada um, com uma ausência de padrão conhecido para todos. Para Kant, a metafísica jamais satisfaz nenhum espírito preocupado com prova, mas é impossível que o espírito seja capaz de renuncia-la cabalmente. A crítica da própria razão pura deve ser objecto de uma tentativa
Arthur Schopenhauer
Ele da maior enfâse ao papel da vontade. Entende que ela é a única coisa-em-si, a única realidade verdadeira, o único elemento original, metafísico, num mundo em que tudo o resto é fenómeno. Coisa-em-si é aquilo que conhecemos imediatamente (a vontade). Entretanto, ele vê o conhecimento e o intelecto (que são físicos e não metafísicos) como desvinculados da vontade (que é metafísico), pois estes são secundários acompanhando os graus superiores da objectivação da vontade. Por fim, para ele, o conhecimento não condiciona a vontade, o que acontece é o contrário.
Martin Heidegger
Parte da pergunta “porque é que existe o ser em vez de nada?”, e esta deve na sua óptica vista como a primeira de todas as questões. É necessário portanto, é necessário forcar-se a penetrar no horizonte desse questionar. Segundo Heiddeger, esta questão surge em certos momentos de grande desespero, quando as coisas perdem a sua consistência e todo o significado se obscurece.
Albert Camus
Diz ser a verdadeira e seria questão da filosofia o Suicídio. Esta tem a ver com o julgamento que a vida vale ou não vale a pena ser vivida. Esta questão é segundo ele mais urgente do que outra, pelas acções que ela induz. Para ele o sentido da vida é mais urgente que das questões e as pessoas que morrem acham que a vida não vale a pena ser vivida.
Jean-Paul Sartre.
Parte da posição de que toda a realidade humana é uma paixão, na medida em que projecta perder-se para fundar o ser e para constituir ao mesmo tempo o em-si que escapa à contingência, sendo o seu próprio fundamento Deus. Ou seja, A paixão do homem é inversa da de cristo, pois o homem perde-se enquanto homem para que nasça Deus. Segundo ele, a ideia de Deus é contraditório e nos perdemo-nos em vão; o homem é uma paixão inútil.

Bibliografia consultada.
Ø  FAROUKI, Nayla. A metafísica. Flammarion, Lisboa, 1995


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