1.
OS SABERES LOCAIS NA ACADEMIA – CONDIÇÕES E
POSSIBILIDADES DE LEGITIMAÇÃO
Em sua Introdução, Castiano diz entender a Filosofia nada
mais que seja um pensar de fundamentação das nossas condições e as
possibilidades de existência. Apoiando-se no pensamento de Ngoenha, ele
engendra que a filosofia deve se salvar da própria história do pensamento filosófico
sobre o objecto em causa para poder fundamentar as condições da existência
(CASTIANO, 2013:5). Ele afirma que a filosofia contempla e conceptualiza o
tempo vivido como já afirmara a dois séculos preteridos Hegel.
Castiano nesta obra está empenhado em explorar condições
e possibilidades de legitimar as micro-narrativas no contexto institucional da produção
e propagação do conhecimento científico. Ele parte do pressuposto de que, em
todas as sociedades humanas existem pessoas que vicejam seus pontos-de-vista,
que são críticos em relação as tradições e aos valores próximos e que são
sujeitos argumentativos capazes de se confrontarem com a hermenêutica sobre os
eventos, processos e valores locais/endógenos. Castiano diz encarar o termo “crítico”
para elucidar pontos-de-vista que concebem a realidade envolvente como uma das
possibilidades da existência.
O filósofo constatou que, no continente Africano existe
um discurso filosófico formal profissional nas escolas e nas Universidades que
concebe o saber filosófico endógeno como sendo tradicional e periférico,
solapado de legitimidade para circular nas instituições formais de ensino e na
Academia. Mas este vê uma das razões desta problemática acoplada ao facto de “haver a necessidade de fundamentar as
condições e possibilidades epistémicas de legitimação destes saberes para a sua
“integração” e “valorização” no contexto do ensino e da formação científica e
filosófica nas academias” (Ibidem:10). Para ele, a “fundamentação
epistémica” não passa de uma tentativa de explicar as condições sobre as quais
podemos vicejar o tipo de saberes a considerarem-se como sendo de índole científica.
Esta é uma luta sem precedentes para que os saberes tomados como locais sejam
validados e tomarem-se em conta nas escolas e universidades.
Ao discorrer sobre saberes locais ele está falando
exactamente de todo tipo de saberes consequentes da confrontação criado por
sujeitos das comunidades culturais em jeito de resposta a sua exposição ao
conhecimento por eles não produzido (importado), isto é, importação de práticas
e valores da modernidade que, posteriormente, se impõem em uma determinada
cultura. Castiano engendra que a legitimidade de um saber local depende não tão-somente
das condições de sua “epistemicidade”
mas também das condições da historicidade do sujeito produtor deste saber
(Ibidem:13).
Castiano ao abordar esta questão da legitimidade dos
saberes locais na Academia começa por descrever as possíveis condições e
possibilidades para tal, e, por fim discorre sobre a legitimação recorrendo a intersubjectivação.
1.1. Sobre
as condições
Para Castiano falar de “condições de legitimação” é
sincronicamente falar sobre um conjunto de elementos estruturais que podem
influenciar o curso de debate e as atitudes resultantes ao esforço de
integração dos saberes locais/endógenos no contexto académico (Ibidem:14). Ele
enumera assim 4 condições possíveis para tal objectivo:
Condição 1: tem a ver com a existência nos
países africanos de dois discursos aparentemente antagónicos que não se cruzam
em termos de valores e conceitos (Filosofia profissional africana e saberes
filosóficos tradicionais), onde o primeiro é estudado, praticada no âmbito
escolar e o segundo visto como tradicional e assim condenado a ser periférico. O
segundo lhe é recusado a possibilidade de ser também considerado científico.
Castiano reconhece existir movimento que reivindica a integração dos saberes
locais nos currículos de ensino, mas baseados em motivações éticas e convicções
políticas.
Castiano engendra que, é assaz difícil que os discursos
de “integração” ao invés dos de legitimação dos saberes locais, possam transpor
a sua natureza político-apelativa. Quer dizer, estes discursos da necessidade
de integrar os saberes locais nas academias não passam de um discurso vazio,
que jamais chegará a efectivar-se, daí a necessidade de batalhar em busca de
condições e possibilidades que nos ajudarão a legitimá-los. Por outras palavras,
Castiano exorta o tal movimento a cessar com os discursos de integração e
pelejar por uma narrativa de legitimação que vá para além dos apelos a favor da
sua integração, pois para ele, “ideologicamente,
continua a colocar-se estes saberes locais/endógenos numa posição de “vítima”
de um conluio universal” (Ibidem:16).
Condição 2: tem a ver com a crença segundo a qual “o contexto discursivo tradicional africano está imbuído de considerandos
de natureza mítica (mitos) ”. Para Castiano, neste ambiente de prática
discursiva que agencia os fenómenos e processos à casualidade metafísica é
assaz difícil trabalhar com noções de direito positivista para minguar os
conflitos sociais, ou seja, os saberes de índole científicos são incapazes de
trazer respostas plausíveis aos problemas desta sociedade. Por exemplo, a
ciência afunda no mar de incapacidade quando se confronta com uma situação
social que diz que o fulano X ou Y matou o Senhor X usando sua trovoada. Para
Castiano (Ibidem:20) Tempels e Mbiti nas suas literaturas, procuraram mostrar
que os africanos olham para os fenómenos naturais e sociais com um certa espiritualidade, com um acentuado respeito aos espíritos que estão por
detrás destes factos. Quer dizer que o Africano é incapaz, como o ocidental,
olhar para o objecto de conhecimento com frieza e, analisar isoladamente este
fora do seu contexto.
Então, segundo Castiano, a filosofia profissional
africana ao almejar incluir nos seus programas estes saberes locais sofre uma
tentação unanimista e, pois, aquele que tentar se ocupar destas matérias lhe
atribuído o nome de filosofia impura. Para suprir esta problemática, Castiano
diz: “[…] o nosso dedo acusador deve
virar-se para as condições e possibilidades epistémicas para uma abertura
conceptual na própria ciência; […] olhar-se para a possibilidade de uma prática
de intersubjectivação, para um diálogo conceptual entre filosofia profissional
e o saber filosófico dos sages locais” (Iidem:24)
Condição 3: viceja da corrente hermenêutica da filosofia africana que
considera a existência de três
pressupostos sob os quais a possibilidade de um saber filosófico africano é inócuo defender que são a língua, a questão
axiológica e a questão oral. A problemática reside no facto de saber se o
saber local pode passar para o saber formal através da tradução ou interpretação?
Será que a verdade deve-se submeter aos considerandos ético-morais? Qual é o
tratamento a dar ao texto oral – em que se expressam a maioria dos sábios
locais – no contexto formal de uma cultura institucional que usa a escrita?
Para Castiano, sobre a primeira questão existe uma
unanimidade entre os filósofos profissionais africanos que diz que a língua não
é nenhum “empecilho” para desenvolver
o pensamento filosófico no contexto africano. Pensa-se ainda que, para
recuperar o pensamento filosófico latente nas tradições africanas para um
contexto institucional da prática filosófica é mister confrontar os conceitos
fundamentais veiculados nas línguas vernaculares africanas e europeias
(Ibidem:27). Isso pressupõe fazer uma análise crítica comparativa do
sincretismo (harmonia) existente entre os conceitos e as devidas realidades.
Castiano diz que a filosofia profissional africana deve solapar-se e solapar os
africanos do problema da língua como condicionante do seu desenvolvimento, pois
“ a desculpa para não introduzir os
saberes locais nas instituições formais de ensino não deve repousar na questão
da língua” (Ibidem:28). Como solução a esta problemática, Castiano diz que
o intelectual africano é um “alcoviteiro”
(intermediário) entre os falantes das línguas nativas e a língua de origem
colonial e, isto o coloca em condições de traduzir as díspares línguas e por
conseguinte, fazer uma hermenêutica e confrontar os conceitos veiculados nas
duas línguas que no mínimo deve dominar. Este passa a ser sincronicamente
tradutor e hermeneuta.
Outra dificuldade inerente a disseminação dos saberes
locais tem a ver com os valores e crenças.
Alega-se que os nossos cientistas tradicionais escolhem os aprendizes da sua
profissão na base de critérios como o segredo
e o conhecimento. Para Castiano, o sigilo profissional destes sages tradicionais não deve ser vista
como uma intenção de camuflar os conhecimentos, pois esta é uma forma
tradicional de salvaguardar os conhecimentos. A única saída que Castiano vê
para o pesquisador ser desvendado os saberes locais pelos sages é fazer com eles uma longa estadia, convivendo por muito
tempo com eles no sentido de tecerem-se laços de amizade e de irmandade.
E sobre a questão da oralidade vista como uma barreira
para a legitimação institucional dos saberes locais ou endógenos, Castiano
exorta ao “filósofo profissional a entrar
em diálogo com os seus colegas filósofos não-profissionais” (Ibidem:36)
pois, para ele é tão fácil além de pedir por dados estatísticos, solicitar o
“tell me your story” (conta-me a sua historia).
1.2. Sobre
as possibilidades
O problema de legitimação aqui tratado diz respeito a
questão de inferiorização de certo tipo de saberes produzidos em condições de
periferia e que, amiúde, são tidos com um “bairrismo”, mito etc. Castiano busca
através dos níveis de intersubjectivação, as possibilidades de fundamentar
alguns princípios de organização de um currículo de formação de cientistas em
saberes locais/endógenos a partir das seguintes possibilidades epistemológicas:
Possibilidade
moderna: Castiano parte do
pressuposto de que a modernidade criou uma imagem positivista do conhecimento que
é científico. Para este modelo, só é conhecimento científico àquele que se
baseia na experiência, na observação e classificação do observado, na verificação/falsificação
das hipóteses, no método da amostra. Entretanto essa forma de olhar a ciência
não se adequa com a forma africana de conceber a realidade e tornar-se-á difícil
“a possibilidade de encaixar […] aqueles
saberes no contexto institucional, sem correrem o risco de serem considerados
como sendo especulativos, folclóricos, exóticos, etc.” (Ibidem:40).
Os saberes locais por não serem possíveis de demonstrar,
verificar estariam condenados a um “ostracismo”
num ambiente e contexto de prática científica e académica. E para Castiano,
galgando na senda moderna, a única forma que podemos encontrar para legitimar
os saberes que a modernidade subalterniza é desmistificar
os mecanismos epistemológicos sobre a qual a ciência moderna elide os outros
saberes e, por outro lado, “cavar”
uma nova dimensão crítica da prática científica de os legitimar no contexto
africano (Ibidem:42). Esta tese apoia-se no Asante que tece uma tremenda crítica
ao cânon da ciência moderna, asseverando a possibilidade de ver o mundo a partir
de um novo centro. Este engendra que a única forma de desenvolver uma ciência
baseada no contexto africano passa por um desligamento em relação aos mitos da
ciência moderna. Ele da ênfase ao “place”
[local], afirmando ser este a única perspectiva capaz de informar ao mundo
sobre os nossos conhecimentos e por isso, acredita que o compromisso crucial e
a responsabilidade de um cientista é evidenciar ao mundo o seu local
epistemológico.
Possibilidade
Pós-Moderna: Castiano parte da ideia de que a modernidade pretendeu
estruturar-se como o âmago da ciência olhando o resto como periferia, ou
melhor, “no campo das ciências, a
modernidade cria o espistemecidio de outras regiões do mundo diferentes da
Europa” (Ibidem:46). Lyotard é considerado como o responsável pela ruptura
com esta concepção moderna da ciência ao declarar que a “condição pós-moderna”
não passa por uma incredulidade plena em relação com as meta-narrativas e
declara a eficácia do saber como principal critério que o legitima nesta condição.
Mas Sousa Santos é tido como quem diagnosticou acuradamente este período e
chega a afirmar que: “o resultado do
desenvolvimento científico é uma hegemonia incondicional do saber científico e
uma marginalização de outros saberes vigentes como o religioso, artístico,
literário, mítico, poético e político” (Ibidem:48). Neste âmbito, este
propôs uma dupla ruptura epistemológica que consiste, por um lado, em
romper com a ideia moderna de criar um conhecimento
novo e autónomo em confronto com o senso comum e; por outro lado, romper
com a arquitectónica de que o conhecimento científico não se destina a
transformar o senso comum ou tornar-se nele. Esta ideia de dupla ruptura
epistemológica conduz-nos a ideia de uma abertura da ciência formal aos saberes
locais/endógenos (Ibidem:49).
Segundo Castiano (Ibidem:49-50) a pretensão de Sousa Santos
é de um “casamento” entre as
micro-narrativas e macro-narrativas. Como forma de emancipar total e completamente
os saberes locais, é mister que as iniciativas emancipatórias vicejam do
interior dos próprios sujeitos do saber local/ endógenos. Castiano vê ainda que
“[…] a verdadeira possibilidade de legitimação destes no quadro
institucional somente pode ser alcançada a partir da busca das possibilidades
intrínsecas a própria condição periférica destes saberes” (Ibidem:52).
Possibilidade
Trans-Moderna: Com seu grande
defensor filósofo latino-americano, Enrique Dussel, a trans-modernidade é
encarada como um contra-discurso da
modernidade e da visão eurocêntrica da modernidade. Este entende que o ano
1492 é o marca-passo da modernidade como um processo de encobrimento do outro
não Europeu e a filosofia da trans-modernidade emerge como filosofia da
libertação e da interculturalidade. O âmago desta filosofia gravita sobre a
ideia de que, nenhum ser humano de qualquer quadrante do mundo pode jactar-se
em assumir-se como sujeito possuidor de um saber absoluto (Ibidem:55)
Filósofos desta escola são orientados por uma e única
linha, a questão do outro, da alteridade
ou do outro como sofredor que lhe é mister uma solidariedade. Para estes
filósofos ainda, nas filosofias ocidentais há uma alteridade, um Outro a quem
não se lhe reconheceu e não se lhe reconhece a condição de sujeito de saber
nomeadamente o Outro-oprimido da periferia. Mas este outro subalternizado deve,
segundo a filosofia da libertação ser libertado das algemas a que se encontra
enjaulado, pois o Outro deve deixar de ser tratado como sendo um “forasteiro” nas
facetas essências da modernidade. Em outras palavras breves: A filosofia da
libertação está preocupada com o grito de Interpelação (Apel) e sofrimento
(Roty) para que o Outro seja ouvido e considerado no plano mundial (Ibidem:60).
Castiano entende que a Filosofia de interculturalidade (perfilhada
por Raul Fornet-betancourt) busca mostrar os caminhos a trilhar para legitimar
os saberes locais/ endógenos no contexto de contacto entre díspares culturas.
Aqui a interculturalidade é vista como a maneira pela qual o ser humano se
capacita para ver suas referências identitárias em relação com os outros. Isto
pressupõe erigir a nossa identidade em relação com o Outro, o que não aconteceu
com o eurocentrismo na Modernidade. Para Betancourt, a interculturalidade
pressupõe renunciar da sacralização das nossas tradições, da conversão das tradições
num guia de acções rigidamente pré-estabelecidos; das pretensões de expansão da
própria cultura para as outras zonas de influência, do olhar para a identidade
de forma demarcada, da consideração do próprio como núcleo estanque, de
harmonizar as diferenças a partir de uma e única cultura (Ibidem:62).
Castiano alimenta a suas esperanças nesta filosofia ao
ponto de afirmar que “ […] vejo a
filosofia de intercultura como uma espécie de preparação para uma filosofia da
intersubjectivação” (Ibidem:63). Mas para ele é possível um diálogo entre
sujeitos só na perspectiva do eu [eu penso que…].
3.
Legitimação pela Intersubjectivação.
Castiano assevera que os filósofos da geração crítica
(Hountodji, Oruka, Ngoenha, Appiah e outros) são unânimes em afirmar que uma
filosofia que queira considerar-se como africana deve ostentar uma função
crítica.
Para este, é a tarefa específica da filosofia
profissional africana a busca de textos orais ou escritos de índole crítica no
interior dos discursos locais/endógenos. Mas ele adverte que esta labuta
(empreendimento) de intersubjectivação não é análoga (não podendo ainda se
comparar) com a etnofilosofia na medida em que, a etnofilosofia considera filósofo,
o profissional que vai buscar a essência e o segredo da ontologia do pensamento
filosófico africano, ao passo que, a perspectiva da intersubjectivação, no seu
programa de pesquisa, vai buscar o pensamento ou discurso de natureza crítica
do interior dos próprios saberes locais/endógenos (Ibidem:67).
Entrementes, segundo o filósofo moçambicano, o discurso
crítico buscado dentro dos saberes locais/endógenos pode ser proferido por
sujeitos duplamente críticos, isto é,
por um lado sujeitos capazes de criticar
as próprias tradições culturais e crenças colectivas e; por outro lado,
sujeitos capazes de criticar a invasão
dos valores e princípios modernos (Ibidem:67).
Para Castiano, os filósofos profissionais africanos devem
mostrar uma atitude e predisposição intercultural para poderem indubitavelmente
reconhecer as lacunas explicativas existentes nos conceitos por si aprendidos
nas academias em relação a realidade sócio-cultural local. Entretanto, ao
querer buscar os saberes locais e integrá-los nas academias, interessa
tão-somente o texto (oral ou escrito) proferido por um sujeito crítico em
relação as próprias interpretações disponíveis no interior de cada local e que
interpele o discurso exógeno (Ibidem:69).
Fazendo um estudo profundo sobre a possibilidade pós-moderna
e trans-moderna, com as quais ele mais se simpatiza, Castiano reconhece que
estas precisam de um acréscimo da perspectiva da intesubjectivação. A peleja
que ele combate é de tentar abrir a filosofia para um enriquecimento conceptual
a partir dos saberes de índole local, onde chega a afirmar que “casamento” da filosofia profissional com
os saberes locais/endógenos é possível realizar-se em 4 níveis de
interpretação, nomeadamente:
- Nível de
interpretação de factos e processos: aqui o filósofo profissional deve sair
fisicamente a uma determinada comunidade com objectivo principal de conversar
com os sages locais e confrontar-se, sincronicamente, com os eventos, factos e
processos que constituirão o “tecido”
de conversa (Ibidem:71). Nesta fase, o filósofo descreve os eventos, factos e
processos que se observam ou toma conhecimento na base dessas conversas, pois,
essa toda labuta responde a questão “como?”.
Depois da busca da descrição dos fenómenos sociais é
preciso imergir no mundo das interpretações localmente disponíveis sobre os
mesmos fenómenos, factos e processos, o que só é possível mediante as
conversas. Quer dizer, é na base da conversa que compreendemos os “pontos-de-vista”
dos sujeitos de saber local/endógeno. Segue-se então a ideia de que é mister
que o filósofo organize “locus” de
conversas de forma individual e colectiva para discernir como é que as pessoas
pensam sobre distintos assuntos que marcam a pauta colectiva de uma determinada
sociedade.
- Nível do
encontro: esta fase viceja da preparação das entrevistas e conversas que o filósofo
profissional organiza, com o nítido alvo de inteirar-se e aperceber-se dos
tipos de conhecimentos por ele considerados de tácitos e latentes. Castiano não
nega a possibilidade de, o nosso “amante
da sabedoria” profissional deparar-se com explicações aduzidos por nossos
sábios para os fenómenos sociais estarem recheados de considerandos
metafísicos, para ele só pode ser evitado tão logo na preparação das conversas
por parte do filósofo profissional, pois este deve vicejar questões que devem
ser em si mesmas filosóficas, no sentido de “poder
inspirar respostas com possibilidades de serem aceites como sendo filosóficas”
(Ibidem: 75). Isto pressupõe que questões devem ser plenamente enquadráveis nos
domínios da metafísica, da ética etc.
Depois deste processo, ao querer elaborar o seu texto
filosófico, o filósofo profissional deve se servir das suas “bagagens” conceptuais para integrar os
prismas dos sages. Mormente, ele
devera saber seleccionar, das respostas e prismas obtidos quais são
metafísicas, éticas, epistemológicas, sucessivamente. Para não tornar difícil a
compreensão, é inócuo posicionar-me assim. Castiano entende que, no nível de
encontro, há possibilidade para uma abertura conceptual por parte da filosofia
e tomar a atitude de deixar-se sugerir novas significações para os seus
conceitos clássicos (Ibidem:78). Então, o filósofo moçambicano engendra que é
só com a abertura conceptual intercultural que a filosofia profissional
africana pode galgar para a solução desta problemática.
- Nível da
crítica-crítica: este é o nível em que peleja-se no sentido de atribuir aos
sages locais a propriedade
intelectual com intuito de elidir o “anonimato” e, consequente o
não-reconhecimento da paternidade deste saber. Castiano parte do pressuposto de
que “[…] o saber como resultado de uma
elaboração de significações simbólicas é o resultado da elaboração individual
dos membros de uma determinada comunidade e não de uma elaboração colectiva”
(Ibidem:81).
Entretanto, é no processo de anonimização do conhecimento
e na ausência de registo da propriedade intelectual onde gravita o primeiro
ponto autocrítico da filosofia profissional africana. Neste sentido Castiano é
da ideia de que é cogente que, o filósofo imergido no mundo das suas
investigações possa sistematizar os pontos-de-vista críticos expressos pelos
sujeitos das comunidades culturais. São alguns trilhos que filosófico deve seguir
na elaboração dos seus trabalhos: (I) citar o texto escrito ou oral, resultado
da entrevista com os sábios ou sages locais; (II) deve elidir as expressões
unanimistas (por exemplo: Os bitongos são parcos) e (III) pôr em confrontação
os pontos-de-vista díspares (distinguir os pontos-de-vistas individuais e
pô-los em debate, evidenciando o alcance explicativo e significativo dos juízos
emitidos pelos sábios sobre vários assuntos que assanham a comunidade).
Uma escrita ancorada em estes pressupostos (citar o autor
do texto, elidindo expressões unanimistas e confrontando os pontos-de-vista)
tende a desvincular-se das tendências de mistificação e exaltação dos saberes
tradicionais, pois “ao individualizar a
fonte da elaboração de um determinado saber, o nosso filósofo estará a dar um
passo em frente no sentido de ultrapassar o carácter místico com que os
cientistas africanos e europeus olham para certas práticas e ritos tradicionais
africanos. Passa-se do domínio da “mistificação” para o predomínio da “explicação”
do sentido e significação das práticas ou ritos em causa” (Ibidem:85)
- Nível
da (auto) reflexão meta-teórica:
neste, a luta é de os filósofos africanos entenderem a capacidade que cada
conceito mobiliza argumentos para compreendermos os eventos, factos ou
processos. Nesta fase, não interessa a origem de qualquer que seja o conceito.
Entretanto a filosofia africana deve abrir-se para uma crítica conceptual que
abre novos horizontes conceptuais.
Castiano faz entender que a “verdadeira filosofia é aquela que opera com o nível de conceitos”,
isto é, as armas para a peleja filosófica devem ser os argumentos e conceitos.
A filosofia africana para posicionar-se como pensamento crítico é necessário que
ela esteja apta para criar espaços de intersubjectivação
(espaço de diálogo que se baseia no reconhecimento do outro como sujeito do
conhecimento) e por outro lado, ela deve abrir-se para um diálogo cultural
filosófico que tem como pivô o potencial crítico e autocrítico sugerido pelos
saberes locais/endógenos no sentido um enriquecimento conceptual mútuo (Ibidem:88).
O nervo do pensamento de Castiano sobre o tema em ventilo
encontra-se na tese seguinte: A legitimação dos saberes locais/endógenos no
contexto das Academias verdadeiramente africanas, só poderá efectivar-se
através de um diálogo entre-sujeitos epistémicos (inter-sujeitos) que
ultrapassam a tentação objectivadora do sujeito, que já está no interior do
inerente conceito inter-culturalidade (Ibidem:88).
CONCLUSÃO.
Como forma de ilação, vale afirmar que Castiano que
diante do discurso filosófico formal
profissional nas escolas e nas universidades que concebe o saber filosófico
endógeno como sendo tradicional e periférico, solapado de legitimidade para
circular nas instituições formais de ensino e na Academia é necessário fundamentar
as condições e possibilidades epistémicas de legitimação destes saberes para a
sua “integração” e “valorização” no contexto do ensino e da formação científica
e filosófica nas academias. Para Castiano,
a tarefa específica da filosofia profissional africana a busca de textos
orais ou escritos de índole crítica no interior dos discursos locais/endógenos.
Este engendra que o empreendimento de intersubjectivação não se pode comparar
com a etnofilosofia na medida em que, a etnofilosofia considera filósofo, o
profissional que vai buscar a essência e o segredo da ontologia do pensamento
filosófico africano, ao passo que, a perspectiva da intersubjectivação, no seu
programa de pesquisa, vai buscar o pensamento ou discurso de natureza crítica
do interior dos próprios saberes locais/endógenos. Entretanto, o discurso
crítico buscado dentro dos saberes locais/endógenos pode ser proferido por
sujeitos duplamente críticos, isto é,
por um lado, sujeitos capazes de criticar as próprias tradições culturais e
crenças colectivas e; por outro lado, sujeitos capazes de criticar a invasão
dos valores e princípios modernos.
A luta que ele trava é de, tentar abrir a filosofia para
um enriquecimento conceptual a partir dos saberes de índole local, onde chega a
afirmar que “casamento” da filosofia
profissional com os saberes locais/endógenos é possível realizar-se em 4 níveis
de interpretação, nomeadamente: (i) Nível
de interpretação de factos e processos onde o filósofo profissional sai fisicamente
a uma determinada comunidade com objectivo principal de conversar com os sages
locais e confrontar-se, sincronicamente, com os eventos, factos e processos que
constituirão o “tecido” de conversa;
(ii) Nível do encontro, onde
preparação das entrevistas e conversas que o filósofo profissional organiza,
com o nítido alvo de inteirar-se e aperceber-se dos tipos de conhecimentos por
ele considerados de tácitos e latentes e, (iii) Nível da crítica-crítica, onde peleja-se no sentido de atribuir aos
sages locais a propriedade
intelectual com intuito de elidir o “anonimato” e, consequente o
não-reconhecimento da paternidade deste saber e, (iv) Nível da (auto) reflexão meta-teórica: os filósofos africanos devem
entenderem a capacidade que cada conceito mobilizar argumentos para
compreendermos os eventos, factos ou processos. A legitimação dos saberes
locais/endógenos no contexto das academias verdadeiramente africanas, só poderá
efectivar-se através de um dialogo entre-sujeitos epistémicos.(inter-sujeitos).
BIBLIOGRAFIA
CASTIANO, José P., Os
saberes locais na Academia: Condições e Possibilidades da sua Legitimação,
Universidade Pedagógica/CEMEC, Maputo, 2013.
Inetligente sintes
ResponderEliminarExcelente!
ResponderEliminarSe faz necessário pensar aqui no Brasil as apostas de Castiano para que possamos resgatar isso que é local e ancestral mas continua a se perder.
Por mais Castiano pro lado de cá do Atlântico!
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarSergio,
ResponderEliminarProcuro "Os saberes locais na Academia: Condições e Possibilidades da sua Legitimação" seja em .pdf ou para compra e não encontro. Como consigo o documento?
Atenciosmente,
Gabriel V.
ES DE MOCAMBIQUE?
EliminarSou do Brasil...
EliminarMeu e-mail é fmvgabriel@gmail.com
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarArtigo muito convincente e rico em conteúdo. Concordo com a ideia segundo, A legitimidade dos saberes deve ser de contexto histórico e local
ResponderEliminarPENSO QUE A RESENHA CRITICA FOI MUITO BEM FEITA. PARABENS
ResponderEliminarSaudações meu caro! Como faço para ter acesso ao artigo na sua integra?
ResponderEliminarMeu e-mail: germanomanuel49@gmail.com
EliminarPeço o libero em PDF, por favor. Quero usar como referencial teórico na minha monografia. antoniotbmabalane@gmail.com
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