domingo, 5 de março de 2017

O mito dos pintos
Por: Orlando José Daio
Em tempos muito longínquos, viveu um senhor chamado Gregório. Que por sinal, era um homem não só paciente, simpático, humilde e virtuoso, mas também racional (porque se baseava na análise, reflexão e crítica, ou seja, buscava o fundamento e o sentido da realidade), autónomo, e rigoroso. Tinha consciência da sua historicidade, buscava a raiz de cada problema e procurava sempre soluções globais. Essas qualidades inatas, fizeram com que o senhor Gregório fosse lembrado e venerado de geração em geração e para toda a eternidade como Deus de todos que resplandece a luz e ilumina o caminho, mostrando o que é bom e o que é mau (a consciência moral). Uma vez que era um homem normal como nós, de carne e osso, corpo e alma, foi também desafiado pela vida. Que desafio? O senhor Gregório devia ter projectos que lhe desse o pão-nosso-de-cada-dia. Porque? Já que o princípio da vida é “do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes `a terra”, ele teve uma ideia que se reflectia num projecto bem desenhado (será?). Que ideia? A iniciativa do senhor Gregório foi de criar galinhas, ou seja, para tornar o seu sonho (projecto) uma realidade, comprou um galo e uma galinha, formando assim um casal de aves domésticas. A vida do senhor Gregório dava assim o primeiro passo, porém, não estava determinado o seu sonho. No primeiro momento da sua vida, aconteceu uma coisa que fez admirar todo o mundo, incluindo ele mesmo. A galinha que comprou chocava pintos já grandes, como se tivessem três semanas: já podiam ser assados na recepção dos hóspedes. Portanto, uma vez que os pintos já eram grandes, diferentemente dos outros pintos pequenininhos, não precisavam a cobertura da mãe para se livrarem da maldita águia. Aliás, enfrentavam a águia como se estivessem totalmente preparados. Mas a verdade é que os pintos não tinham nenhuma preparação e experiência da vida para enfrentarem a sós a inimiga águia. Andavam espalhados e esquecidos como se vivessem no mundo da paz e da tranquilidade, onde tudo é transparente como Jaime de Cristal. Todavia, não há dúvida que a águia poderia aproveitar-se deles em qualquer momento, pois, não estavam sob a protecção da mãe. Sendo assim, os pintos acabavam um por um (aos poucos). O senhor Gregório não ficou tão assustado porque a sua paciência renovava a cada dia a sua esperança. Ele acreditava que tudo passa, que tudo muda e que tudo acontece no seu devido momento, ou seja, as coisas acontecem quando querem acontecer. Não se tratava de auto-ilusão? Dum dia para outro as coisas mudaram. Os pintos aperceberam que enfrentavam o fim do mundo (pela ameaça da águia). Entravamos assim, no segundo momento da vida do senhor Gregório. Ele via as coisas a mudar. Porem, não era uma das melhores mudanças, pelo contrário, a situação degenerou – análogamente, as coisas iam do mal para o pior. Como assim? Quando os pintos aperceberam de que estavam acabar, arranjaram uma forma de se livrarem da águia e dos seus movimentos aéreos, mas era uma das piores alternativas. Porque? Já que os pintos não podiam enfrentar um inimigo cujo poder supera as suas potencialidades, deviam arranjar uma fuga para se manterem em vida. Há razão nisso? Talvez. Devemos enfrentar o inimigo quando podemos. Já que não podiam enfrenta-lo por ser tão superior em relação a eles, fugir (para os pintos) seria logicamente a melhor opção. Será? Não acho. Só podemos fugir a superioridade da potencialidade do inimigo, quando haver espaço de fuga. Caso não, devemos saber enfrentar o impossível para não corrermos o risco maior de pensar que estamos a fugir o fogo quando na verdade estamos a cair no vulcão e de pensar que estamos a fugir o mal do mundo quando na verdade estamos a entrar no inferno. Há vezes que devemos enfrentar o impossível. Havia um homem que não conhecia o impossível, foi lá e fez! O impossível é aquilo que ninguém faz até que alguém faça. Os pintos deviam continuar a enfrentar a águia, até mesmo declará-la inimiga comum. Se assim fosse, não seria necessário “mil anos” para que a águia percebesse que é perigoso enfrentar individualmente, um grupo solidário, que sabe cantar em coro na conjugação dos esforços para um objectivo comum. Assim, acabaria abandonando as suas intenções malignas. Mas infelizmente, os pintos contemporâneos não eram tão adultos para perceberem isso. Foram-se entregar para o inimigo mais perigoso. Como assim? Quando a inimiga continuava fazendo os seus movimentos aéreos na busca da presa, os pintos corriam para o mato e se escondiam debaixo do capim. Era lógico? Não. O lugar da fuga era mais perigoso do que a própria águia. Estava lá debaixo do capim o inimigo maior “a cobra”, que precisava mais de cem pintos duma e única vez para saciar a sua fome. Ora, embora fosse o dilema do perigo: por um lado estava a águia e por outro a cobra, os pintos deviam optar como meio-termo, o perigo menos perigoso. Qual? Já que eram grandes, também deviam pensar em grande. Como? A águia não se foge, só se enfrenta.  

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